A
cerca de 75 quilômetros ao sul de Florença, no centro da Itália, está
uma cidade cercada por colinas, construções medievais e ruas estreitas de pedra
que parece ter parado no tempo. É Siena, um destino de pouco mais de 50
mil habitantes que acabou se tornando mundialmente conhecido pelo Palio, pela
arquitetura medieval e pela impressionante Piazza del Campo. Mas a cidade
guarda também uma curiosidade que pouca gente conhece: é ali que nasceu, em
1472, o Monte dei Paschi di Siena, considerado o banco mais antigo do mundo
ainda em funcionamento. Somente depois de chegar à cidade é que muita gente
percebe outra vantagem de incluí-la no roteiro: Siena está na Toscana, em uma
localização estratégica para quem já visita Florença e quer conhecer uma Itália
bem diferente daquela encontrada nas grandes cidades.
A história do banco começou há mais de 550 anos, quando as autoridades da então
República de Siena criaram o chamado Monte Pio para conceder crédito e ajudar
as camadas mais vulneráveis da população em um período de dificuldades
econômicas. Ao longo do tempo, a instituição foi se transformando e assumindo
características de um banco tradicional, atravessando mudanças de governos,
guerras, crises econômicas, a unificação da Itália, duas guerras mundiais e
todas as grandes transformações do sistema financeiro até chegar ao século XXI.
Hoje, o Monte dei Paschi continua operando e integra um dos grupos bancários
italianos, preservando uma ligação muito forte com a cidade onde nasceu. É
justamente essa continuidade que sustenta o título de banco mais antigo do
mundo ainda em atividade, uma definição usada oficialmente pela própria
instituição.
A presença do banco faz parte da própria paisagem de Siena. Sua sede histórica
está na Piazza Salimbeni, em pleno centro antigo, no complexo conhecido como
Rocca Salimbeni. Para quem chega sem saber da história, o endereço pode parecer
apenas mais um dos numerosos palácios medievais da cidade, mas ali está um dos
capítulos mais importantes da história bancária europeia. A praça pode ser
conhecida normalmente durante um passeio pelo centro, enquanto o interior da
sede histórica não funciona como uma atração turística aberta diariamente e
costuma receber visitantes apenas em determinadas ocasiões. Por isso, não faz
sentido montar uma viagem pensando somente em “visitar o banco”; o melhor é utilizar
essa curiosidade como ponto de partida para conhecer Siena, porque a grande
atração está justamente no conjunto formado pela história da instituição e pela
cidade medieval que cresceu ao redor dela.
Poucos minutos de caminhada separam a Piazza Salimbeni de um dos lugares mais
impressionantes da Itália: a Piazza del Campo, uma enorme praça em formato de
concha que funciona como coração de Siena. Seu desenho é dividido em nove
partes, uma referência ao Governo dos Nove, que comandou a cidade entre os
séculos XIII e XIV, e a organização arquitetônica do espaço segue normas
estabelecidas ainda no final do século XIII. É ali que está o Palazzo Pubblico
e a Torre del Mangia e também onde acontece duas vezes por ano, em 2 de julho e
16 de agosto, o famoso Palio di Siena, corrida de cavalos disputada pelas
contrade, os bairros históricos da cidade. A Piazza del Campo é uma daquelas
atrações que dispensam até um roteiro muito elaborado: sentar-se no centro da
praça e observar o movimento já é parte da experiência de visitar Siena.
A poucos minutos dali está outro símbolo da cidade, o Duomo de Siena, cuja
fachada de mármore e o interior repleto de detalhes fazem dele uma das igrejas
mais importantes da região. O centro histórico como um todo é reconhecido como
Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1995 e preserva de forma impressionante seu
traçado medieval. É justamente por isso que Siena funciona tão bem para quem
gosta de turismo feito a pé: praticamente tudo o que interessa ao visitante
está concentrado em uma área relativamente pequena, embora seja importante
lembrar que existem muitas ladeiras. Caminhar sem rumo entre as ruas também faz
parte do passeio, porque é comum encontrar pequenas igrejas, lojas,
restaurantes, símbolos das contrade, mirantes e passagens que não aparecem
necessariamente como grandes pontos turísticos nos mapas. O site oficial de
turismo da cidade destaca justamente essa atmosfera medieval como uma de suas
principais características.
Como chegar e de onde vale a pena sair
Para o turista que está viajando pela Itália, Florença é a melhor cidade para
usar como ponto de partida. Pela proximidade entre as duas, Siena pode ser
incluída sem dificuldade em um roteiro já montado para Florença, e é justamente
daí que o bate e volta mais faz sentido. É possível fazer o percurso tanto de
trem quanto de ônibus, mas há uma diferença importante: a estação ferroviária
de Siena não fica dentro do centro histórico, enquanto os ônibus regionais
chegam mais perto da região central. A linha 131R faz a ligação entre Florença
e Siena e é uma das alternativas mais práticas para quem deseja sair pela manhã
e retornar no final do dia. De trem, o percurso também é simples e normalmente
leva cerca de uma hora e meia, dependendo do serviço escolhido. Para quem está
hospedado em Florença, portanto, não é necessário trocar de hotel ou carregar
malas apenas para conhecer Siena.
Saindo de Roma, no entanto, eu faria diferente. Embora seja perfeitamente
possível chegar a Siena, a distância torna um bate e volta muito mais
cansativo, principalmente porque o deslocamento ferroviário geralmente exige
conexão. Nesse caso, eu colocaria Siena dentro de um roteiro maior pela região,
reservando pelo menos uma noite. Para quem está fazendo uma viagem de carro
pela Itália, a cidade também é uma excelente parada entre Florença e destinos
mais ao sul, mas existe um detalhe fundamental: grande parte do centro
histórico possui restrições à circulação de veículos. O ideal é deixar o carro
em um dos estacionamentos na região externa às muralhas e continuar a pé,
evitando entrar inadvertidamente em áreas de tráfego restrito.
Vale a pena fazer um bate e volta?
Saindo de Florença, vale muito a pena. Quem tem apenas um dia consegue conhecer
os principais pontos sem transformar a visita em uma maratona. Uma boa
estratégia é chegar pela manhã, começar pela Piazza Salimbeni e pela sede
histórica do Monte dei Paschi, caminhar depois até a Piazza del Campo, visitar
o Duomo, almoçar no centro e reservar a tarde para caminhar pelas ruas e
descobrir algumas das contrade. Como as distâncias são pequenas, o visitante
consegue aproveitar bem a cidade mesmo permanecendo apenas algumas horas. O
bate e volta funciona especialmente para quem está fazendo uma primeira viagem
pela Itália e possui poucos dias disponíveis, porque permite acrescentar uma
cidade completamente diferente a um roteiro que normalmente já inclui Florença,
Roma e Veneza.
Mas quem dispõe de tempo encontrará uma Siena diferente depois que os grupos de
excursão começam a partir no final da tarde. É por isso que, apesar de
considerar o bate e volta perfeitamente viável, eu recomendaria uma ou duas
noites para quem estiver fazendo uma viagem mais tranquila pela região. Durante
o dia, principalmente na alta temporada, as ruas próximas à Piazza del Campo e
ao Duomo recebem muitos visitantes. No começo da manhã e à noite, a atmosfera
muda, as ruas ficam mais silenciosas e a sensação de estar em uma cidade
medieval se torna ainda mais evidente. Nesse caso, Siena pode ser usada também
como base para conhecer outras localidades do interior, transformando aquilo
que seria apenas uma excursão em uma etapa própria da viagem.
Onde se hospedar
Se a ideia for dormir em Siena, a primeira escolha deve ser o centro histórico,
especialmente para quem chega de trem ou ônibus e quer fazer praticamente tudo
caminhando. Hospedar-se nas proximidades da Piazza del Campo, da Via Banchi di
Sopra ou da Piazza Salimbeni coloca o visitante no coração da cidade e permite
sair à noite sem depender de transporte. Naturalmente, essa comodidade costuma
aparecer no preço, principalmente nos períodos de maior movimento e nas datas
próximas ao Palio. Para quem está de carro, porém, eu não escolheria o hotel
apenas pela distância até a Piazza del Campo. Nesse caso, pode ser mais interessante
ficar próximo das entradas do centro histórico ou das muralhas, verificando
antecipadamente se a hospedagem possui estacionamento ou orientações
específicas para hóspedes com veículo. Siena é uma cidade em que estar a dez ou
quinze minutos a pé do centro não representa grande problema, e às vezes essa
pequena distância ajuda a reduzir bastante o preço da diária.
Siena é cara ou barata?
Siena não está entre os destinos mais baratos da Itália, mas também não
considero uma cidade particularmente cara quando comparada a destinos como
Veneza, Roma ou áreas muito valorizadas de Florença. O maior impacto no
orçamento costuma estar na hospedagem, especialmente para quem faz questão de
ficar no coração do centro histórico durante a alta temporada. Em compensação,
boa parte da experiência de Siena é gratuita: caminhar pelas ruas medievais,
conhecer as contrade, entrar na Piazza del Campo, observar a arquitetura e
descobrir os mirantes não custa nada. Os gastos aumentam para quem decide
visitar os museus, subir em torres e conhecer os espaços internos do complexo
do Duomo.
Na alimentação, a mesma regra vale para praticamente toda cidade turística
italiana: sentar-se exatamente nos pontos de maior movimento normalmente custa
mais. Um almoço de frente para a Piazza del Campo pode sair consideravelmente
mais caro do que uma refeição algumas ruas adiante. Vale caminhar um pouco e
procurar pequenas trattorias, osterias e estabelecimentos frequentados também
pelos moradores. Entre os pratos que aparecem com frequência estão os pici, uma
massa grossa típica da região, além de carnes, embutidos e doces tradicionais
como os ricciarelli, feitos à base de amêndoas. O próprio turismo oficial de
Siena inclui pici, carnes, vinhos e produtos locais entre as experiências gastronômicas
características da cidade.
Quanto tempo reservar
Para conhecer apenas os pontos principais, um dia inteiro funciona muito bem.
Já para quem gosta de entrar nos monumentos, caminhar com calma, experimentar a
gastronomia e observar a cidade sem ficar olhando o relógio, duas noites formam
um roteiro muito mais agradável. Siena também pode ocupar uma posição
estratégica em uma viagem mais extensa, principalmente para quem pretende
explorar de carro o interior da região. Nesse caso, a cidade deixa de ser
apenas uma atração de algumas horas e passa a servir como ponto de partida para
outros destinos, vinhedos e pequenas cidades históricas.
O mais curioso é que muita gente chega a Siena atraída pela Piazza del Campo ou
pelo famoso Palio e vai embora sem saber que passou a poucos metros de uma
instituição fundada quando o Brasil ainda nem havia sido oficialmente alcançado
pelos portugueses. O Monte dei Paschi surgiu em 1472, 28 anos antes da chegada
da frota de Pedro Álvares Cabral ao território brasileiro, e continua
funcionando até hoje. É esse contraste que torna a história tão interessante:
no meio de uma cidade que preserva torres, palácios, igrejas e ruas medievais
está uma instituição financeira que conseguiu atravessar mais de cinco séculos.
E talvez seja justamente essa a melhor maneira de descobrir Siena. Primeiro vem
a curiosidade de conhecer a cidade onde funciona o banco mais antigo do mundo.
Depois, quando se chega ali, percebe-se que o banco é apenas uma das histórias
escondidas em um destino que cabe perfeitamente em um bate e volta desde
Florença, mas que facilmente convence o visitante a ficar por mais tempo.
* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG



