Nos últimos anos, uma série de descobertas arqueológicas realizadas na Turquia vêm transformando o conhecimento sobre os primeiros séculos do cristianismo. Espalhadas pela Anatólia, isto é, a região que corresponde à maior parte do território turco, as escavações mostram de maneira cada vez mais clara que aquele espaço foi um dos grandes centros de formação e expansão da nova religião.
Somente nos últimos dois anos, arqueólogos identificaram ao menos uma dúzia de igrejas até então desconhecidas, muitas delas datadas dos séculos 4 e 5 d.C., período em que o cristianismo deixava de ser uma fé perseguida para se consolidar como religião dominante do Império Romano.
Entre as descobertas mais impressionantes está uma antiga representação de Cristo encontrada na cidade de Iznik, antiga Niceia. Essa pintura foi identificada no interior de um túmulo familiar subterrâneo extremamente bem preservado e retrata Jesus como o “Bom Pastor” que carrega um carneiro sobre os ombros. O afresco, datado entre o início e meados do século 3 d.C., é considerado uma das imagens mais antigas de Cristo adulto já encontradas e provavelmente a mais bem preservada de todas.
A explicação para seu excelente estado de preservação está justamente no fato de que a tumba permaneceu praticamente selada por cerca de 1.800 anos. Com pouca circulação de oxigênio, os pigmentos sobreviveram quase intactos. Assim, as feições do rosto, as dobras da túnica e até os detalhes do animal aparecem de forma nítida. Também vale mencionar que a figura em questão oferece pistas da imagem que os primeiros cristãos tinham de Jesus: um homem sem barba, de cabelos curtos e que usava roupas refinadas típicas da elite romana da época.
Cristianismo, a religião oficial
De acordo com o portal Independent, as descobertas arqueológicas têm sido acompanhadas por novas pesquisas históricas que tentam explicar como o cristianismo conseguiu passar de um pequeno movimento religioso surgido na Judeia para a religião oficial do maior império do mundo antigo em apenas três séculos. Pode parecer contraditório, mas alguns estudos sugerem que a perseguição aos cristãos, embora provavelmente menos intensa e disseminada do que tradicionalmente se imaginava, teve papel importante na expansão da fé. E aqui vai a explicação: o martírio ajudava a fortalecer a identidade das comunidades e despertava curiosidade entre a população.
Pesquisadores também vêm analisando fatores sociais e demográficos. Alguns trabalhos indicam que os cristãos talvez apresentassem taxas menores de mortalidade durante epidemias devido à organização comunitária e ao cuidado com os doentes. Há também pesquisas que apontam que os primeiros sistemas cristãos de assistência social atraíam convertidos em períodos de crise econômica e instabilidade política no Império Romano.
Outra questão levantada está relacionada ao infanticídio feminino, uma prática relativamente comum em partes do mundo pagão que provocou desequilíbrios populacionais ao longo das gerações. Como os cristãos condenavam essa prática, suas comunidades poderiam ter crescido mais rapidamente em termos populacionais.
Um movimento anti-imperial
Ao mesmo tempo em que o cristianismo avançava, expandia-se também o culto imperial romano. Nesse sistema, lembra o Independent, imperadores eram venerados como figuras divinas — e escavações recentes na Turquia, realizadas em cidades antigas como Syedra, Bubon, Alabanda e Sagalassos, trouxeram à luz imensas estátuas e templos ligados a esse culto político-religioso. Entre os vestígios encontrados estavam esculturas monumentais dos imperadores Marco Aurélio e Adriano. Algumas delas, inclusive, chegavam a mais de quatro metros de altura e reforçavam visualmente a autoridade imperial sobre as populações locais.
Para muitos estudiosos, foi justamente o fortalecimento desse culto ao imperador que contribuiu para transformar o cristianismo em um movimento também anti-imperial. Ao recusar a adoração ao imperador, os cristãos passaram a representar uma ameaça política e ideológica ao sistema romano. Essa oposição apareceria de forma particularmente intensa no Livro do Apocalipse, texto escrito no final do século 1 d.C. por João de Patmos. Na obra, Roma é simbolizada como “A Besta”, enquanto o poder maligno que controlaria o império recebe o nome de “O Dragão”.
O Apocalipse foi direcionado a sete comunidades cristãs localizadas justamente no oeste da atual Turquia e escavações recentes em algumas dessas cidades vêm revelando detalhes extraordinários sobre a vida dos primeiros cristãos.
De uma igreja simples
Na antiga Laodiceia, arqueólogos encontraram uma raríssima igreja doméstica do século 4. Antes da construção de grandes basílicas, os cristãos costumavam se reunir em residências adaptadas para culto. Pouquíssimos exemplos desse tipo sobreviveram até os dias atuais, é importante mencionar.
Já em Sardes, outra das cidades citadas no Apocalipse, pesquisadores investigam uma enorme estrutura religiosa do início do século 4, possivelmente uma catedral. Com cerca de 45 metros de comprimento e dupla cúpula, o edifício pode ter influenciado tradições arquitetônicas posteriormente associadas à grandiosa Santa Sofia, em Constantinopla.
Em Esmirna, atual Izmir, estudiosos analisam inscrições cristãs antigas feitas nas paredes de um mercado romano. Algumas parecem mensagens codificadas produzidas em meados do século 2 d.C. Uma delas apresenta a palavra “Logos”, termo grego associado a Cristo e frequentemente traduzido como “Verbo”. Outra inscrição utiliza códigos numéricos. O número 800 aparentemente transmitia uma mensagem teológica ligada à fé cristã. Esses registros podem representar alguns dos exemplos mais antigos conhecidos de escrita cristã produzida fora dos textos bíblicos.
Mais ao norte, em Pérgamo, arqueólogos descobriram um frasco cerâmico do início do século 5 que parece retratar São Jorge matando um dragão, uma das mais antigas representações já encontradas do santo que séculos depois se tornaria padroeiro da Inglaterra.
Além disso, a cidade também guarda marcas da violência sofrida pelos cristãos primitivos. Pesquisas recentes no anfiteatro de Pérgamo indicam que o local, capaz de receber cerca de 25 mil pessoas, foi palco de execuções e martírios no final do século 2 d.C.
… a um bairro inteiro
Em Éfeso, uma das maiores metrópoles do mundo romano, arqueólogos escavaram um bairro inteiro preservado sob cinzas provocadas por um ataque persa nos séculos 6 e 7. Assim como Pompeia preservou aspectos do cotidiano pagão romano, Éfeso congelou no tempo um importante centro do cristianismo bizantino inicial. Por lá, os pesquisadores encontraram milhares de objetos, incluindo ânforas, alimentos carbonizados e até uma loja voltada à venda de lembranças religiosas para peregrinos cristãos. Pequenos recipientes usados para armazenar óleo sagrado ou água benta estavam entre os itens descobertos.
Pérgamo também voltou ao centro das atenções por causa de novas pesquisas sobre o chamado “trono de Satanás”, que conforme o Apocalipse, teria sido montado na cidade. O território foi o primeiro local do Império Romano onde o imperador Augusto autorizou oficialmente a construção de um templo para culto imperial, em 29 a.C.
Hoje, arqueólogos utilizam tecnologia digital para mapear o complexo religioso de Pérgamo e compreender melhor como funcionava esse espaço de veneração imperial. Vale mencionar também que muitos estudiosos acreditam que o famoso número 666, “o Número da Besta”, mencionado no Apocalipse, era uma referência codificada a imperadores romanos considerados inimigos do cristianismo.
Fonte: Giovanna Gomes l AH


