Quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Bandidos recorrem à harmonização facial para tentar despistar a Polícia

Criminosos querem mudar fisionomia para despistar a Polícia, mas muitos acabam sendo presos mesmo assim

Bandidos recorrem à harmonização facial para tentar despistar a Polícia
Foto: Arquivo Colíder News
Se antigamente eles tinham uma alcunha para chamar de sua, hoje os bandidos entram na onda da harmonização facial. Mas não se trata apenas de estética, como fazem pessoas públicas, a exemplo de Vini Jr., que mostram o procedimento ao mundo. Na surdina, os criminosos apelam para a harmonização facial numa tentativa de despistar a Polícia. É o caso de Walace de Brito Trindade, o Lacoste, apontado como líder do tráfico do Morro da Serrinha, em Madureira, que é procurado há dez anos e muda tanto de rosto que, às vezes, chega a complicar a própria identificação pelos investigadores.

De acordo com o major Maicon Pereira, porta-voz e subcoordenador de Comunicação da Polícia Militar, o procedimento dificulta o reconhecimento, mas existem outras formas de identificar os suspeitos, como a papiloscopia. "Os bandidos fazem harmonização às escondidas. Eles não querem que ninguém saiba. Ainda assim, com o trabalho de investigação, é possível prender", diz o policial, acrescentando que os profissionais que realizam os procedimentos geralmente não sabem que o paciente é um criminoso procurado.

"Seria bom que a legislação mudasse e as pessoas precisassem se identificar para esses procedimentos", afirma, lembrando o caso de Luís Carlos de Lomba, o Chocolate, suspeito de ser um dos chefes do Terceiro Comando Puro (TCP), no Complexo da Maré, preso em Itaperuna, no Noroeste do Estado, em 2025, quando buscava justamente transformar o rosto.

O major explica que os bandidos fazem o procedimento sem chamar atenção, na tentativa de apagar o histórico criminal, mas que ainda assim é possível encontrá-los. "Uma outra forma de identificar esses criminosos é por meio da papiloscopia e do sistema de reconhecimento facial que temos nas câmeras. Os policiais têm acesso a isso pelos smartphones, por meio de um aplicativo da Polícia Militar, e também há viaturas equipadas com câmeras de tecnologia embarcada", diz o policial.

Segundo o major, essas câmeras contam com reconhecimento facial e leitura de placas. "Então, criminosos com mandado de prisão pendente, mesmo que tenham feito harmonização, conseguem ser identificados por esse sistema, que reconhece a simetria do rosto ao comparar com o banco de dados. Às vezes há uma foto da pessoa quando ainda era adolescente ou no início da juventude, e hoje, aos 50 anos, o sistema consegue detectar que aquele bandido, ainda jovem na imagem registrada, cometeu o crime — tudo graças à simetria facial."

Para o policial, é necessário mudar a legislação para que a pessoa, ao entrar em uma unidade de saúde para fazer harmonização facial, seja obrigada a apresentar um documento. "Se isso fosse exigido, seria uma forma a menos de burlar a polícia", diz.
Novas tecnologias

Há 36 anos na Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, o oficial Jones fala sobre o absurdo que os bandidos vêm cometendo atualmente. "A biomedicina está sendo utilizada por criminosos de alta periculosidade para harmonizar seus rostos, tornando ainda mais difícil sua identificação pela Polícia e pelas câmeras instaladas em diversos pontos da cidade", pontua.

O oficial afirma, no entanto, que os bandidos desconhecem que há outras ferramentas tecnológicas usadas pela Polícia Civil para ajudar na identificação — e, principalmente, na localização desses criminosos quando eles deixam os redutos onde se escondiam.

"A PCERJ, como as demais polícias investigativas do país, está sempre em busca de novas tecnologias que possam ajudar a localizá-los e prendê-los, tenham eles feito harmonização facial ou não", finaliza.

O depoimento do oficial Jones não é por acaso: muitos bandidos têm recorrido a essa técnica e, mesmo assim, não conseguem despistar a polícia por muito tempo. Além de Chocolate, a polícia prendeu André Costa Barros, o André Boto, integrante de uma milícia na Zona Oeste do Rio, que também fez harmonização facial na tentativa de despistar as investigações — mas acabou preso pela Polícia Civil após ter a nova imagem mapeada.

Outro caso foi o de Lindomar Reges Furtado, conhecido no tráfico nacional, que recorreu a preenchimentos faciais, lentes dentárias e transplante capilar para circular com documentos falsos, mas nada disso adiantou: ele acabou capturado.

Em outubro de 2020, a polícia prendeu o traficante Lenon Oliveira do Carmo, em Fortaleza. Apontado como autor de homicídios em Manaus, estava foragido desde 2018. De acordo com a polícia, para escapar das autoridades o homem passou por cirurgias plásticas no rosto e assumiu uma nova identidade, passando a se chamar Aylon Soares Cardoso.

Conhecido como Cara Quadrada, Eduardo Miranda de Souza foi preso em abril de 2024, quando tentava fazer uma cirurgia plástica para mudar a fisionomia em uma clínica na Vila Virgínia, em Itaquaquecetuba, em São Paulo. O bandido era procurado pela Justiça por roubo de carga e foi capturado pelo Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic).
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