Sábado, 10 de outubro de 2026

Batalha da Maria Antônia: o conflito que marcou a ditadura militar

Em 1968, alunos da USP e do Mackenzie protagonizaram uma violenta disputa na Rua Maria Antônia, com barricadas, coquetéis molotov e tiros

Batalha da Maria Antônia: o conflito que marcou a ditadura militar

A polarização política no Brasil não é um fenômeno recente. Durante a ditadura militar, instaurada após o golpe de 1964, divergências ideológicas provocaram confrontos nas ruas e nas universidades. Um dos episódios mais violentos ocorreu em outubro de 1968, quando estudantes da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Mackenzie, instituições vizinhas na região central da capital paulista, entraram em confronto na chamada Batalha da Maria Antonia.

O episódio durou dois dias e envolveu agressões físicas, barricadas improvisadas, pedras, paus e disparos de armas de fogo. A violência deixou prédios danificados e culminou na morte do secundarista José Guimarães, de 20 anos.

Maria Antônia dividida pela política

O confronto começou em 2 de outubro de 1968, quando estudantes do ensino médio organizaram um pedágio beneficente em frente à Faculdade de Filosofia da USP, na Rua Maria Antonia. A arrecadação seria destinada a organizações estudantis contrárias ao regime militar. Um grupo de alunos do Mackenzie, identificado com a direita e favorável à ditadura, tentou interromper a atividade, bloqueando a passagem de veículos e arremessando ovos podres contra os participantes.

A confusão mobilizou estudantes das duas universidades, que já mantinham relações tensas devido às diferenças políticas entre seus grupos. Enquanto a USP reunia militantes de esquerda e opositores do regime, o Mackenzie abrigava setores alinhados à direita. Segundo pesquisadores, integrantes do grupo paramilitar Comando de Caça aos Comunistas (CCC), conhecido por perseguir militantes de esquerda, também estudavam na instituição privada.

Cena de ‘A Batalha da Rua Maria Antônia’ – Globo Filmes

A disputa aconteceu em um momento de crescente insatisfação com a ditadura. Quatro anos após o golpe que derrubou o presidente João Goulart, manifestações estudantis exigiam a retomada da democracia. Em março daquele ano, o secundarista Edson Luís, de 18 anos, havia sido morto pela polícia durante um protesto no Rio de Janeiro. O assassinato desencadeou uma onda de mobilizações que culminou, em junho, na Passeata dos Cem Mil.

Barricadas, tiros e destruição

Na Rua Maria Antonia, a rivalidade política rapidamente se transformou em violência generalizada. Estudantes ergueram barricadas com entulhos e materiais encontrados nas proximidades, enquanto os confrontos incluíam pedradas, pauladas e o lançamento de objetos contra os adversários.

Na USP, os manifestantes liderados pelo então dirigente estudantil José Dirceu buscaram materiais em um canteiro de obras para utilizar como munição. Do lado do Mackenzie, estudantes armados dispararam contra os rivais. Coquetéis molotov também foram empregados durante os confrontos.

A polícia interveio de maneira truculenta, prendeu mais de 30 pessoas e dispersou os envolvidos. A violência, porém, deixou consequências graves. Os prédios das duas instituições sofreram danos, e a Faculdade de Filosofia da USP acabou incendiada após o lançamento de tochas no campus, quando os confrontos já haviam terminado.

O professor Fernando Henrique Cardoso, que lecionava naquele campus e se tornaria presidente da República décadas depois, teve sua sala invadida. Documentos de pesquisa foram destruídos durante os ataques.

A morte que marcou o episódio

A consequência mais trágica foi a morte de José Guimarães, atingido no peito por um disparo que partiu do lado do Mackenzie. O assassinato provocou indignação entre estudantes e ativistas. O corpo foi entregue à família, que permitiu que os colegas do jovem realizassem uma cerimônia em homenagem a ele.

A revolta desencadeou novos protestos, durante os quais manifestantes ocuparam ruas, reviraram veículos e incendiaram carros.

A Batalha da Maria Antonia tornou-se um símbolo da radicalização política que atravessava o país em 1968. Dois meses depois, em dezembro, a ditadura decretou o Ato Institucional nº 5 (AI-5), que ampliou os poderes do regime, restringiu direitos e abriu uma das fases mais repressivas da história brasileira.

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