Quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Casos recentes reforçam padrão de atuação de facções com cativeiros e ‘tribunais do crime’ em Mato Grosso

Ocorrências registradas entre quinta e sexta-feira em Tangará da Serra e Campo Novo do Parecis impediram duas execuções atribuídas a organizações criminosas

Casos recentes reforçam padrão de atuação de facções com cativeiros e ‘tribunais do crime’ em Mato Grosso
Foto: Arquivo Colíder News
Os chamados "tribunais do crime" voltaram a mobilizar as forças de segurança de Mato Grosso nesta semana. Entre quinta-feira (30) e sexta-feira (31), duas operações policiais impediram execuções atribuídas a facções criminosas em Tangará da Serra e Campo Novo do Parecis, reforçando um padrão de atuação já identificado pelas autoridades, marcado por monitoramento das vítimas, sequestros, cativeiros e ordens de morte.

O caso mais recente ocorreu na madrugada de sexta-feira (31), em Campo Novo do Parecis. Após receber uma denúncia de que um homem havia sido sequestrado e seria executado, a Polícia Civil localizou uma residência utilizada como cativeiro. No imóvel, oito suspeitos foram presos em flagrante e a vítima foi resgatada antes de ser submetida ao chamado "tribunal do crime", prática utilizada por facções para julgar e punir pessoas acusadas de descumprir regras impostas pela organização.

Na noite anterior, quinta-feira (30), em Tangará da Serra, outra ação rápida da Polícia Militar evitou uma tentativa de homicídio. Dois adolescentes, de 16 e 17 anos, invadiram uma residência com a intenção de executar um morador. Conforme o boletim de ocorrência, os suspeitos faziam uma chamada de vídeo com outros integrantes da facção e exibiam, no celular, uma fotografia da vítima momentos antes da ação criminosa. A chegada da PM interrompeu o ataque, resultando na apreensão dos dois jovens, de uma pistola calibre .380, drogas e de uma motocicleta furtada utilizada na ação.

Embora os episódios tenham ocorrido em municípios distintos, investigadores observam características semelhantes na forma de atuação dos criminosos. Em ambos os casos, as vítimas foram previamente identificadas e a execução seria realizada sob ordens de integrantes da facção, evidenciando uma estrutura organizada e com divisão de funções.

Organização e controle - As investigações apontam que as facções têm recorrido a métodos cada vez mais estruturados para impor disciplina interna e controlar territórios. Antes da execução, é comum que as vítimas sejam monitoradas, sequestradas e levadas para imóveis utilizados como cativeiros, onde aguardam a decisão das lideranças criminosas.

O uso de chamadas de vídeo, fotografias e aplicativos de mensagens também passou a integrar a dinâmica dessas ações, permitindo que ordens sejam transmitidas e o cumprimento das determinações seja acompanhado à distância.

No caso de Tangará da Serra, a chamada de vídeo realizada pelos suspeitos antes da tentativa de execução é um exemplo desse modelo de comunicação. Já em Campo Novo do Parecis, a rápida intervenção da Polícia Civil impediu que a vítima permanecesse sob domínio dos criminosos até a execução.

Desafio para as forças de segurança - Autoridades da área de segurança pública avaliam que esse tipo de ocorrência representa um dos maiores desafios no combate ao crime organizado. Em muitos casos, as vítimas desaparecem antes mesmo de familiares registrarem boletins de ocorrência, e testemunhas evitam colaborar por medo de represálias.

As duas operações realizadas nesta semana demonstram, porém, a importância das denúncias anônimas e da atuação integrada das forças policiais. Em Campo Novo do Parecis, a informação recebida pela Polícia Civil permitiu localizar o cativeiro e prender oito suspeitos. Em Tangará da Serra, a resposta rápida da Polícia Militar impediu que a tentativa de homicídio fosse consumada.

As investigações continuam para identificar outros integrantes das organizações criminosas e esclarecer quem determinou as execuções frustradas.
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