Das capivaras para a produção de biocombustíveis
A conversão de resíduos agroindustriais em moléculas que ajudem na produção de biocombustíveis e bioquímicos não é uma tarefa fácil. Para produzi-las a partir de biomassa vegetal, é necessário extrair os açúcares, o que é complicado devido à estrutura vegetal bastante resistente.
Como solução, os pesquisadores brasileiros pensaram nos herbívoros, que se alimentam de capim e gramíneas, folhas estruturalmente parecidas com o bagaço da cana-de-açúcar e a palha de milho. O grande diferencial do grupo de animais é conseguir aproveitar os açúcares presentes nos materiais vegetais.
“Nós estudamos a capivara porque ela é um animal endêmico da América Latina. Temos buscado conectar as nossas singularidades de país e as nossas vantagens comparativas, como abrigar a maior biodiversidade do planeta e ter uma agricultura super bem estabelecida. Nenhum lugar do mundo tem isso”, explica Murakami em entrevista ao Metrópoles.
Além disso, o fato de as capivaras serem um herbívoro de vida híbrida – ou seja, viverem tanto na terra quanto na água – aumentou o interesse dos cientistas em entender como funcionava a microbiota do animal.
Foram coletadas amostras de duas partes intestinais de três capivaras. Em seguida, os cientistas realizaram testes robustos com técnicas genéticas minuciosas para descobrir quais microrganismos viviam no trato digestivo dos animais e quais estavam ativos na hora do aproveitamento dos açúcares, além de outros detalhes, incluindo a descoberta da função exata de cada enzima.
Por fim, foram encontradas duas famílias de enzimas totalmente novas para a ciência: a GH173 e a CBM89.
A GH173 tem maior potencial de atuação na degradação da lactose, podendo ser utilizada futuramente na indústria de alimentos e derivados do leite. Já a CBM89 é mais eficiente em tornar o aproveitamento da biomassa vegetal mais fácil, podendo ser usada na produção de biocombustíveis e etanol de segunda geração.
“Temos que olhar para o sistema digestivo da capivara como se ele fosse um grande biorreator. Entra de um lado a biomassa, que é um resíduo, e do outro lado sai energia. Para ela, essa energia são ácidos graxos e lipídios. Mas, e se em vez de pegar essa biomassa e obter ácidos graxos, aprendermos como ela a processa para gerar, de forma mais eficiente, etanol ou combustível de aviação sustentável?”, exemplifica Murakami.
A expectativa é que, a partir dessa e de outras pesquisas em que se aplica a biotecnologia com a fauna e flora brasileiras, possam ser criados produtos e serviços mais responsáveis ambientalmente.

Vitória no “Nobel do Brasil”
Murakami foi um dos vencedores do Prêmio FCW, uma premiação que reconhece personalidades, instituições e trabalhos de destaque na ciência, cultura e arte. Segundo o pesquisador, a honraria é mérito do trabalho dele e de toda a equipe do LNBR/CNPEM.
“Esse prêmio reconhece um esforço de 20 anos meu, de toda a equipe do CNPEM e de todos os colaboradores nacionais e internacionais que compartilham da mesma visão e nos permitiram fazer uma ciência altamente competitiva. A premiação coroou e premiou esse modelo de operação, mostrando que o Brasil pode ser protagonista. Nós somos a prova e a comprovação de que isso acontece”, avalia o diretor da instituição.
Na visão do pesquisador, em relação ao resto do mundo, o Brasil é um país superdotado para aplicar a bioeconomia, um tema que promete ganhar cada vez mais importância com o crescimento do aquecimento global. Porém, é necessário utilizar os recursos presentes para pôr em prática a vantagem brasileira – a pesquisa feita com as capivaras demonstrou parte da capacidade nacional.
“A pergunta que fica é: vamos querer continuar sendo um fornecedor de commodities ou vamos ser um país que gera tecnologia e entra no produto final? Já publicamos vários artigos em revistas de alto prestígio, como a Nature e a Science, o que demonstra que temos reconhecimento internacional e que o Brasil pode ser protagonista mundial em áreas estratégicas para a humanidade”, encerra Murakami.


