A paixão e o interesse por cerveja artesanal está rendendo frutos para o engenheiro mato-grossense Vander Eduardo Teixeira. Em outubro, ele foi premiado no Brasil Beer Cup na categoria Brazilian Beer Ervas e Especiarias, com sua Consagrada 3 Way, uma cerveja caseira com pimentas brasileiras.
O concurso, que aconteceu em outubro deste ano, em Florianópolis (SC), é de porte nacional, e o cervejeiro, que já colecionava 13 prêmios em diversos campeonatos, levou mais essa para atestar a qualidade de suas produções.
Até então, o concurso era destinado somente às cervejarias de maior porte, tanto é que outras mato-grossenses também foram classificadas no evento, como a Louvada, a Cuyabana e a Xaraés.
“Eles abriram uma categoria só para caseiros, porque queriam valorizar a cerveja brasileira. Para competir, eu tinha que fazer uma cerveja ou com lúpulos, maltes e fermento brasileiros, ou com madeira brasileira, ou com especiarias brasileiras”, explica.
“[A minha que venceu] É uma saison, cerveja estilo belga. Coloquei o nome de 3 Way porque fiz de três formas. Em uma brassagem, fiz a saison clássica, em outra eu adicionei uma levedura selvagem, e essa que ganhou, com as pimentas”, continuou.
Segundo o engenheiro, na receita foi utilizada uma infusão em vodca de pimentas pretas e brancas, que ficaram “maturando” por cerca de duas semanas, até a cerveja ficar pronta. E no momento do envase, a solução foi inserida.
“Nesse concurso havia jurados do mundo inteiro. Aí eles fazem a avaliação em cinco parâmetros: aroma, aparência, sabor, sensação de boca e a nota final”.
“As melhores passam para a segunda etapa. E aí eles vão mais no feeling mesmo, só provando para saber quais são as campeãs”.
Essa não é a primeira vez que Vander venceu em âmbito nacional nesse estilo, com uma cerveja de pimentas, disse ele. Em 2020, no Segundo Pa?reo Boot Boller de Cerveja Caseira, a premiada de ouro foi sua cerveja com pimentas do Camboja.
“Eu já tinha feito ela. Mas parei em junho do ano passado, e fiquei sem fazer cerveja por quase um ano. Voltei agora, e a primeira coisa que eu queria fazer era repetir a receita”.
“Não tinha o intuito de enviar para esse campeonato, mas eu vi a divulgação, e como já estava com ela em mente para fazer, pensei: “Vou fazer e mandar!”.
“Muito feliz com o resultado”, diz Vander, que não pôde comparecer presencialmente no evento, e acompanhou a premiação por live.
A Consagrada
Vander é formado em Engenharia Civil e, por volta de 2017 começou a produzir cerveja em uma área de sua casa. Segundo ele, o interesse foi de fato despertado quando comprou uma edição da revista Superinteressante que ensinava como fazer cerveja em casa.
“É uma revista antiga. Comprei, ficou lá em casa e um dia eu falei: “Vou experimentar fazer”. Fui comprando os insumos, estudei bastante, foi mais por curiosidade mesmo”.
“Tem muito engenheiro que virou cervejeiro, engenheiro eletricista, civil, conheço bastante gente. Acho que é porque é um trabalho de paciência, resolução de problemas, envolve muita gambiarra, função de equipamento”.
A produção de Vander, que começou de forma rústica, com panelões de alumínio no fogão, resultava em cerca de 20 litros de cerveja. Hoje, o engenheiro já tem um espaço próprio em sua casa, com equipamentos automatizados e consegue produzir até 100 litros de cerveja.
“Antes eu fazia na edícula nos fundos. Com o tempo fui aprendendo mais, investindo, comprei uma panela automatizada, e aí do ano passado para cá, fiz uma reforma em toda a área de lazer, e construí um espaço só pra cervejaria”.
“Hoje tenho tudo automatizado, elétrico, com bomba, válvulas, mas eu comecei na panela mesmo, caldeirão de alumínio, colher, mexendo. Era raiz mesmo”, relembrou.
Sem planos de expansão
Vander garante que a produção da cerveja é somente um hobby, principalmente porque não tem como equilibrar ter um emprego e uma cervejaria grande. Tanto é que hoje ele tem os sábados para realizar a produção.
“Vários amigos perguntam “E aí, vamos fazer?”. Mas graças a Deus, meu trabalho me consome bastante e eu consigo me virar bem. Eu teria que escolher… é uma profissão que não pode ter outra”.
“Então, eu teria que abandonar meu trabalho para abrir a cervejaria, coisa que eu não pretendo. Mais para frente, quem sabe… Não sei no futuro, mas hoje não pretendo comercializar”.
O Bier Punkt
Dedicado no hobby, Vander se formou em sommelier de cerveja e hoje também faz avaliação de cervejas caseiras no Bier Punkt Cultura Cervejeira, mesmo lugar que o ajudou a aprimorar suas produções.
“Fui um dia com minha esposa tomar uma cerveja lá e estava o [Vinicius] Masutti e o Camilo [Pio Saes], que faleceu, avaliando no balcão. Na outra sexta eu levei a minha cerveja, que estava ruim para caramba, e eles falaram que precisava melhorar isso, melhorar aquilo”.
“Fiz o curso de sommelier, e comecei a avaliar. Eu, Masutti e Camilo. Eu acho que é uma coisa muito boa, porque você consegue ver o que está errado, melhorar. Isso me ajudou muito, e é uma dica que eu dou para todo cervejeiro caseiro: “Leva lá para a gente, que a gente avalia”.
O engenheiro conta ainda que a primeira cerveja com pimenta produzida por ele foi avaliada por Camilo e Masutti, que o direcionaram para categorizá-la no estilo correto, de ervas e especiarias. Nisso, Vander recebeu medalha de ouro no Festival de Cerveja Caseira.
“Eles abrem quinta, sexta e sábado durante o almoço. O cervejeiro só precisa levar, preencher uma fichinha com a categoria, data de fabricação. Eles têm uma câmara fria, e vai estocando. Daí a gente faz a avaliação”.
Cenário cervejeiro de Mato Grosso
Apesar de elogiar vários colegas cervejeiros artesanais, o panorama de Vander é que o Brasil, como um todo, ainda está em processo de desenvolvimento nessa categoria.
“Agora que está começando. Aqui em Cuiabá tem várias muito boas, é um mercado muito bom para expandir. A tendência é crescer cada vez mais”.
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“Mas tem muita gente boa que já ganhou prêmios em campeonatos. A Cuyabana, do Dom Barzotto, até um ano atrás ele era caseiro. É um dos caras que é mentor da galera homebrewer de Cuiabá”.
“Tem o Marcelo, hoje ele é cervejeiro da Heresia, mas ele era caseiro. O Rafael Pontel, da Attocervejaria Manassés, João Lima, da Cervejaria Simbiose”, elogia.





