Chame de motim, marcha patriótica, facada nas costas ou traição, mas os embates entre Yevgeny Prigozhin e o presidente Vladimir Putin começaram a se desenhar há oito meses, quando o chefe do grupo de mercenários Wagner expressou publicamente o descontentamento em relação às diretrizes do Ministério da Defesa.
“Todos esses canalhas do Exército russo deveriam ser enviados para a linha de frente com armas e pés descalços”, manifestou-se Prigozhin, em outubro passado, numa crítica aberta ao ministro Sergei Shoigu pela retirada das forças russas dos territórios ocupados.
Desde então, Prigozhin fez circular a frustração crescente em relação à morosidade das forças russas em Bakhmut e Soledar, à burocracia militar e à falta de munições para o seu exército de renegados.
No mês passado, cercado de corpos de soldados mortos, o chefe do grupo paramilitar ameaçou retirar-se de Bakhmut, alegando estar sem armas e suprimentos. Foi acusado de traição pelo ministro Shoigu, a quem renovou suas críticas por planejar mal a invasão e embaraçar os militares russos.
O impasse aparentemente se converteu em ruptura nesta sexta-feira (23), quando Prigozhin fez duros ataques à liderança militar russa, por estar “atolada em corrupção, mentiras e burocracia”.
Anunciou também ter tomado o controle de Rostov, o centro de comando crucial para a guerra que o Kremlin empreende há 16 meses na Ucrânia, e prometeu marchar em direção a Moscou.
Agora alvo direto do chefe do grupo paramilitar, Putin reagiu, horas mais tarde, descrevendo as forças mercenárias como traidoras e convocando os soldados a abandonarem seu comandante. “Somos patriotas de nossa pátria”, reagiu Prigozhin.
Ainda que fracasse em seus objetivos, Prigozhin já promoveu estragos: expôs a dura realidade da frente militar russa, que Putin tentou ocultar da população.
Um dos rostos mais proeminentes da guerra e muito longe de ser um pacifista, o chefe do Wagner se dirigiu diretamente aos russos, assegurando que o número de mortos é de três a quatro vezes maiores do que o relatado pelo Kremlin, assim como as perdas de território.
Como especificou o historiador britânico Lawrence Freedman, do Instituto de Guerra do King’s College, Prigozhin tem reconhecimento entre a população, além de comandar 25 mil homens no palco da guerra.
No seu entender, ele não articula um golpe contra Putin, mas quer remover Shoigu do cargo e mudar as estratégias da guerra. “De qualquer forma, após o discurso de Putin, Prigozhin está em confronto direto com o presidente russo. Um deles será perdedor”, analisa.
Nesse embate, não há inocentes, mas duas poderosas máquinas de propaganda em ação.
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Junte-se ao Grupo do Colidernews no Signal.“As principais fontes de informação são um Exército que mente sobre tudo; um senhor da guerra dono de uma infame fábrica de trolls e que mentiu sobre ela por anos; e o Kremlin. E a Rússia destruiu a mídia; então, não há boas fontes independentes”, resumiu o jornalista Max Seddon, chefe do escritório do jornal “Financial Times” em Moscou.


