Uma investigação da Polícia Civil revelou que integrantes de uma facção criminosa planejavam ataques contra policiais em Primavera do Leste como forma de retaliação às ações das forças de segurança contra membros do grupo. O caso levanta uma questão que agora passa a exigir atenção das autoridades: se as facções em Mato Grosso estão ampliando sua atuação para além do tráfico e das disputas entre criminosos e passando a direcionar ações contra agentes do Estado.
O plano foi identificado na Operação Cerberus, conduzida pela Delegacia de Homicídios e Delitos Gerais de Primavera do Leste. Foram cumpridos quatro mandados de prisão preventiva e quatro de busca e apreensão.
Segundo a Polícia Civil, os investigados teriam participado de reuniões e tratativas destinadas à preparação de ações violentas contra policiais. Os ataques não chegaram a ser executados, mas seriam uma resposta à atuação das forças de segurança contra integrantes de uma facção criminosa em Mato Grosso.
A investigação também identificou outros integrantes do grupo envolvidos na obtenção de armas de fogo, um dos pontos que reforçaram a suspeita de preparação para os atentados.
Ataque não saiu do planejamento
As informações divulgadas até agora não detalham quais policiais seriam alvos, quantos atentados estavam sendo planejados nem como seriam executados.
Também não foi informado se havia data definida, locais previamente escolhidos ou acompanhamento da rotina dos agentes.
A Polícia Civil afirma, entretanto, que encontrou elementos sobre reuniões e tratativas relacionadas aos ataques e conseguiu identificar pessoas envolvidas na obtenção de armamento.
Com as buscas, os investigadores pretendem apreender celulares, computadores, documentos, anotações, valores e outros materiais capazes de esclarecer a extensão da preparação. A Justiça também autorizou acesso aos dados armazenados nos dispositivos eletrônicos, incluindo mensagens, registros de chamadas e informações de aplicativos de comunicação.
Essa análise deverá mostrar se o plano permanecia em uma fase inicial ou já havia avançado para etapas operacionais.
Outro caso mostra monitoramento
O Cerberus não aparece isolado no cenário policial desta semana.
Na mesma quinta-feira (27), a Operação Tentáculos, também com atuação em Primavera do Leste, identificou uma estrutura de facção em que alguns integrantes seriam responsáveis pelo monitoramento de equipes policiais.
A investigação encontrou divisão de funções que incluía fornecimento e distribuição de drogas, venda varejista, apoio logístico, movimentação financeira, administração de grupos de comunicação e acompanhamento das forças de segurança.
As duas investigações tratam de estruturas diferentes e, com as informações públicas disponíveis, não é possível afirmar que exista ligação entre elas.
A coincidência, porém, chama atenção para dois comportamentos identificados pelas autoridades: em um caso, faccionados acompanhariam a movimentação policial; em outro, integrantes são investigados por planejar ataques contra os próprios agentes.
Mudança de comportamento?
Os dados disponíveis ainda são insuficientes para afirmar que Mato Grosso enfrenta uma mudança generalizada na estratégia das facções.
A Operação Cerberus demonstra a existência de um plano específico de retaliação em Primavera do Leste. Para saber se há uma tendência mais ampla seria necessário comparar o caso com outras investigações, ameaças e atentados registrados contra policiais nos últimos anos.
A própria atuação das forças de segurança pode gerar reações pontuais de grupos criminosos sem necessariamente representar uma alteração estrutural no padrão de atuação das organizações.
O sinal, entretanto, merece ser acompanhado justamente porque a preparação de ataques a policiais acrescenta outra dimensão ao enfrentamento ao crime organizado.
As facções deixam de representar risco apenas por meio da disputa territorial, do tráfico e das execuções entre rivais quando passam também a direcionar inteligência, armas e planejamento contra quem atua na repressão.
Retaliação
Segundo a Polícia Civil, os ataques planejados em Primavera do Leste teriam como motivação a resposta às operações realizadas contra integrantes da facção.
Esse componente é relevante porque indica uma tentativa de reagir diretamente à pressão policial.
O nome “Cerberus” faz referência ao cão de três cabeças da mitologia grega associado à vigilância do mundo dos mortos. Na investigação, o foco está justamente nos integrantes que estariam participando da preparação de ataques e na identificação de outros possíveis envolvidos.
As diligências continuam sob responsabilidade da Delegacia de Homicídios e Delitos Gerais de Primavera do Leste. A análise dos aparelhos apreendidos deverá indicar quem determinou as ações, como os alvos eram escolhidos, de onde viriam as armas e até que ponto o planejamento havia avançado.
O resultado dessa apuração também poderá ajudar a responder à questão que surge a partir do Cerberus e do Tentáculos: se o monitoramento e a preparação de ataques contra policiais são episódios localizados ou se já fazem parte de uma estratégia mais ampla das facções em Mato Grosso.


