A prisão de uma liderança de facção criminosa em Assunção, no Paraguai, e outras duas ações policiais realizadas em Mato Grosso ajudam a revelar uma estrutura que vai muito além da venda de drogas.
Investigações apontam uma rede organizada em diferentes níveis, com comando, administração de dinheiro, gerentes responsáveis pelo abastecimento de cidades e mecanismos próprios de cobrança e punição.
Os casos, registrados praticamente no mesmo intervalo, permitem montar partes desse organograma.

No topo aparece João Batista Vieira dos Santos, conhecido como “Virgulino”, preso na quinta-feira (3), na capital paraguaia.
Ele é apontado pelas investigações da Polícia Civil como uma das lideranças do Comando Vermelho em Mato Grosso e estava foragido da Justiça.
Na outra ponta, um homem e uma mulher foram presos em Cuiabá sob suspeita de exercerem funções de gerência do tráfico e fornecimento de entorpecentes para uma facção em Arenápolis, Nortelândia e municípios da região Médio-Norte.
E, em Barra do Garças (509 km a Leste de Cuiabá), policiais militares interromperam um suposto “tribunal do crime”, libertando um homem que teria sido sequestrado no próprio local de trabalho para ser “julgado” pela organização criminosa.
Os episódios ocorreram em cidades diferentes e fazem parte de investigações distintas. N
ão há, nas informações disponíveis, indicação de que os três casos pertençam à mesma cadeia de comando.
Em conjunto, porém, eles mostram diferentes funções atribuídas pelas investigações às organizações criminosas que atuam no Estado: liderança, financiamento, gerenciamento territorial, distribuição de drogas e disciplina interna.
COMANDO NO PARAGUAI - A prisão de Virgulino foi resultado de uma ação que atravessou fronteiras.
Participaram a Gerência de Combate ao Crime Organizado (GCCO/Draco), a Gerência de Polinter e Capturas (Gepol), a Polícia Nacional do Paraguai e a Drug Enforcement Administration (DEA), dos Estados Unidos.
Localizado utilizando documentação falsa, João Batista estava foragido de Mato Grosso.
As investigações atribuem a ele um histórico que reúne diferentes frentes do crime organizado.
Em outubro de 2025, quase duas toneladas de maconha foram apreendidas em uma chácara vinculada ao investigado.
Quatro pessoas foram presas naquela ocasião.
A polícia também o relaciona a um roubo a instituição financeira na modalidade conhecida como “Novo Cangaço”.
Outro episódio chama atenção pela dimensão da operação.
Em 2022, Virgulino foi citado em investigação sobre a escavação de um túnel de aproximadamente 257 metros, construído a partir de uma residência de Cuiabá em direção à Penitenciária Central do Estado (PCE).
Segundo as investigações, a estrutura seria utilizada para resgatar integrantes da facção presos na unidade.
Mesmo depois de deixar Mato Grosso, segundo a Polícia Civil, ele teria continuado exercendo atividades relacionadas à organização.
Após permanecer por um período no Rio de Janeiro, as investigações chegaram ao Paraguai.
DINHEIRO SOB CONTROLE - É na investigação sobre o chamado “Raspa Brasil Nacional” que aparece com maior clareza a dimensão financeira atribuída à atuação de Virgulino.
Segundo a GCCO/Draco, ele seria coordenador estadual do esquema e participaria da definição de diretrizes financeiras e da expansão da atividade em Mato Grosso.
Monitoramentos registraram o investigado transportando banners e materiais utilizados para divulgação das raspadinhas.
A investigação encontrou ainda uma estrutura de controle administrativo.
Virgulino exigiria planilhas de estabelecimentos comerciais, quantidade de bilhetes distribuídos, valores arrecadados e percentuais de repasse.
Aparelhos celulares analisados pelos investigadores também teriam revelado videochamadas e comunicações com outros integrantes do esquema.
O sistema descrito pela polícia sugere uma atividade acompanhada por indicadores de arrecadação e prestação de contas.
Quando alguma determinação não era cumprida, segundo a investigação, havia orientação para acionar a chamada “disciplina” da facção.
Mesmo foragido, Virgulino teria continuado participando de videochamadas, transmitindo orientações e fazendo cobranças a outros integrantes.
GERENTES NO INTERIOR - Enquanto uma investigação chegou ao Paraguai atrás de uma liderança, outra alcançou um nível diferente da estrutura.
Um casal foi preso em Cuiabá na quarta-feira (2), investigado por envolvimento na gerência do tráfico de drogas em Arenápolis, Nortelândia e região.
Os mandados são decorrentes da Operação Ultimato, deflagrada em agosto contra um núcleo de facção criminosa.
Segundo a investigação, os dois deixaram a região onde atuavam e passaram a residir em Cuiabá.
Foram localizados pela Delegacia de Arenápolis com apoio da Gerência Estadual de Polinter.
A Polícia Civil afirma que o casal exercia funções de gerência do tráfico e fornecimento de entorpecentes para a organização criminosa.
As diligências continuam para localizar outros investigados e identificar a estrutura envolvida no comércio de drogas na região.
O episódio ajuda a mostrar como as investigações identificam funções intermediárias entre as lideranças e a comercialização local dos entorpecentes.
Outro componente da atuação das facções apareceu em Barra do Garças.
Desta vez, não relacionado diretamente à administração financeira ou ao abastecimento de drogas, mas ao exercício de um sistema clandestino de punição.
Um homem teria sido sequestrado no próprio local de trabalho e levado à força para uma casa abandonada no bairro Serrinha.
Quando policiais chegaram ao imóvel, encontraram a vítima com as mãos amarradas para trás e cercada por três homens.
Segundo o relato feito à polícia, ele estava sendo ameaçado de morte e seria submetido a um suposto “julgamento” pelo chamado tribunal do crime.
Dois suspeitos foram presos, enquanto outros conseguiram fugir.
A ocorrência foi registrada por crimes que incluem organização criminosa, tortura mediante sequestro, sequestro e cárcere privado.
A lógica descrita nesse tipo de ocorrência fecha outra parte do circuito atribuído às facções: além de obter recursos e administrar mercados ilícitos, grupos criminosos recorrem a mecanismos próprios de coerção para impor suas determinações.


