Terça-feira, 6 de outubro de 2026

Filha de pais surdos, ela se realiza como interprete de Libras

Maysa Souza Faleiro Corrêa largou curso de Fisioterapia para se dedicar à linguagem de sinais

Filha de pais surdos, ela se realiza como interprete de Libras
Foto: ReproduçãoFoto: Arquivo Colíder News

A intérprete de Libras Maysa Souza Faleiro Corrêa, de 31 anos, é filha de pais surdos, o que a torna uma “Coda” ("child of deaf adults"), expressão em inglês que define filhos ouvintes de pessoas que não escutam.



 

Em razão disso, mesmo sendo ouvinte, sua língua materna é a Libras, que partiu do convívio com seus pais; já a língua portuguesa foi apresentada pelos ouvintes da família.

 

Recentemente, o termo e a comunidade Coda receberam destaque por conta de “CODA”, que ganhou o Oscar de melhor filme em 2022.

 

Maysa conta que a profissão de intérprete de Libras se deu por influência de uma amiga da igreja que fez sua inscrição em uma prova de proficiência em Libras-ProLibras, e que aquele foi o divisor de águas responsável por estreitar laços entre ela e a profissão


Mesmo nervosa e sem tempo de estudar, resolvi fazer a prova, de modo a testar meus conhecimentos, mas sem intuito de trabalhar no ramo. Fiquei super feliz quando fui aprovada. Tenho esse certificado até hoje guardado, como recordação”, relata Maysa, que é pedagoga, tradutora e intérprete de Libras.

 

Trabalhando na época como recepcionista e estudando Fisioterapia, em meados de 2010 ela recebeu uma ligação da Secretaria de Educação de Cuiabá, oferecendo uma vaga para intérprete em uma escola municipal devido a escassez de profissionais certificados na época.

 

Já em período de experiência na escola, ao final do ano recebeu sua avaliação final de desempenho, e junto a ela uma grande proposta de sua coordenadora: “Você não tem interesse em trabalhar na área?”

 

“O fato de eu estar gostando de trabalhar no ramo fez com que trancasse a faculdade de Fisioterapia e me matriculasse em um curso na área da educação. Fiz Pedagogia enquanto trabalhava como intérprete de Libras nível médio. E com o passar dos anos fui estudando, me profissionalizando, agregando conhecimento, experiência e ocupando um espaço inimaginável”, diz


Para Maysa, que é fluente em Libras, comunicar-se na comunidade surda “é tranquilo”, os cursos entram para ter um embasamento téorico e formalizar a profissão.

 

Maysa teve a oportunidade de atuar como professora por 12 anos e, apesar do longo período de experiência lecionando, enfatiza que atualmente seus esforços estão voltados apenas para atuação de tradução e interpretação de Libras.


História


A Língua Brasileira de Sinais, ao contrário do que muitos acreditam, não deriva da gramática da Língua Portuguesa. Na verdade é oriunda do francês.

 

Em 1760 surgiu em Paris a primeira escola pública para surdos, com o crescimento e constante e esforços em estudos na criação da língua pelos europeus.

 

D. Pedro II, que possuía um neto que havia nascido surdo e preocupado com educação deele, buscou um professor que soubesse ensinar em língua de sinais e criou a primeira escola de Libras no Brasil, hoje conhecida como INES.

 

A Libras é dotada de uma gramática constituída a partir de elementos constitutivos das palavras ou itens lexicais e de um léxico (o conjunto das palavras da língua) que se estruturam a partir de mecanismos morfológicos, sintáticos e semânticos que apresentam especificidade mas seguem também princípios básicos gerais.

 

Escassez de profissionais

 

A intérprete ressalta a escassez de profissionais qualificados, do reconhecimento da classe, de uma melhor remuneração e uma fiscalização mais adequada dos profissionais que estão atuando na área. É que, segundo ela, muitos utilizam a língua para uma comunicação informal na comunidade surda, ou aplicam sinais de modo equivocado devido a falta de aperfeiçoamento e experiência. 

 

“Não basta saber Libras, precisa estar habilitado para trabalhar em diferentes demandas e sempre procurar se qualificar para uma valorização da classe. Porém, pelo fato dos empregadores não conhecerem Libras, acabam contratando profissionais desqualificados por um preço menor. Assim todo o empenho para inclusão do surdo se desfaz, pois o surdo continua não recebendo a mensagem devida”, pontou.

 

Libras na sala de aula

 

Acredita-se que quanto mais ouvintes aprenderem a se comunicar em Libras, mais inclusa na sociedade a comunidade surda vai estar, pois atualmente, para qualquer necessidade que o surdo tenha, ele precisa de um intérprete auxiliando a comunicação.

 

Ainda segundo a intérprete, a grande maioria dos interessados em aprender a língua de sinais são pais que possuem filhos surdos, profissionais da área da educação e profissionais da área da Libras que queiram se especializar em ramos fora da sua zona de conforto.


A intérprete aproveitou para compartilhar alguns casos divertidos que protagonizou enquanto exercia sua profissão.

 

“Uma vez interpretei em evento grande e o palestrantante começou a falar sobre assuntos aleatórios como coisas que se fazem no banheiro. E ao entrar nesse assunto, ele voltou seu olhar para mim e ficou vendo como eu iria fazer a interpretação do que ele disse, com um sorriso irônico na cara. Todos começaram a rir”, relembra.


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Em outro caso ela se viu interpretando um lambadão, o que fez com que mesmo tímida, se rendesse ao ritmo contagiante da da baixada cuiabana.

 

“Sou um pouco tímida, mas como a vergonha não paga conta, aceitei fazer um job de ultima hora, substituir uma colega e ela disse que seria a fala do Governador, enfim acabou que teve um show de lambadão. Em cima do palco, com aquela multidão à minha frente, interpretando, fez com que dançasse ‘moreninha não é capaz de colocar a bumbum no chão’. Imagina como eu fiquei?”, riu ao recordar.

 

 

Algumas das  instituições que oferecem cursos de Libras:

 

CASIES - Centro de Apoio e Suporte á Inclusão da Educação Especial

UFMT - Universidade Federal de Mato Grosso

SENAI - Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial

SEBRAE - Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas


FONTE:https://www.midianews.com.br/cotidiano/filha-de-pais-surdos-ela-se-realiza-como-interprete-de-libras/424572


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