A adolescente de 14 anos executada pelo Comando Vermelho (CV) em Lucas do Rio Verde (354 km de Cuiabá), era uma “faccionada mirim” e acabou marcada para morrer depois de abandonar o CV e migrar para a facção rival, o Primeiro Comando da Capital (PCC). Claudia Geovana Dourado de Oliveira, que já tinha sido apreendida por envolvimento com tráfico de drogas, também teria ameaçado outras garotas ligadas ao grupo do qual fazia parte.
As revelações foram feitas pelo delegado Arthur Almeida, responsável pelas investigações sobre o sequestro e assassinato da adolescente, durante entrevista ao Cadeia Neles, nesta segunda-feira (17). Segundo ele, Claudia já mantinha contato com criminosos, tinha se relacionado com integrantes de facção e acabou sentenciada ao “Tribunal do Crime”.
“Bom, essa garota, apesar de ser muito jovem, ela já vinha se envolvendo aí com a facção criminosa. Então, ela tinha tido alguns relacionamentos com faccionados, ela já havia sido presa por tráfico de drogas, apreendida no caso”, afirmou o delegado. Ainda conforme Arthur, depois de integrar inicialmente uma facção de origem carioca, a adolescente teria mudado de lado.
A troca teria sido o estopim para o “decreto” de morte. “E, em determinado momento, ela passou a migrar aí para a facção rival. Então, passou a fazer sinais relacionados a essa outra facção, relacionados com indivíduos também da outra facção. E ameaçar outras garotas dessa facção, a qual ela pertencia antes”, explicou.
Segundo o delegado, a ordem para matar Claudia teria partido de integrantes da organização criminosa que estão escondidos no Rio de Janeiro. A investigação aponta que pelo menos seis pessoas participaram diretamente do crime.
“Então, como a gente conhece o chamado aí, o Tribunal do Crime, acabou decidindo por decretar essa jovem”, disse Arthur.
ARRANCADA DO HOTEL
Claudia desapareceu no dia 6 de agosto, depois de ser sequestrada de um hotel em Lucas do Rio Verde. Câmeras de segurança registraram toda a movimentação dos criminosos.
De acordo com o delegado, três homens e uma mulher chegaram ao local em um carro. Primeiro, a mulher e um homem de boné branco entraram no estabelecimento e ameaçaram o recepcionista para descobrir em qual quarto a adolescente estava.
Depois de descobrirem o quarto, a mulher voltou ao carro e chamou outro integrante do grupo, que usava boné preto. Ele entrou no hotel, tirou Claudia do quarto e levou a adolescente para o veículo.
“Então, depois que eles descobrem qual é o quarto, a mulher volta no carro, chama mais um participante, que é esse de boné preto, e ela indica o quarto. Então, ele vai e retira a adolescente. Em seguida, todos os três retornam para o veículo e vão para a região de mata onde essa menina acabou sendo torturada”, relatou o delegado.
O corpo foi localizado na quinta-feira (13), em uma área de mata às margens da BR-163, na região de Sorriso, na divisa com Lucas do Rio Verde. Claudia estava com as mãos amarradas e uma corda no pescoço. Havia ainda sinais aparentes de agressões e indícios de asfixia. A causa da morte será confirmada pelos exames periciais.
A polícia conseguiu chegar aos suspeitos e descobriu que parte do grupo já estava tentando escapar de Mato Grosso. Três envolvidos foram presos durante uma ação integrada da Polícia Civil e da Polícia Rodoviária Federal (PRF), quando viajavam em um carro de aplicativo com destino ao Rio de Janeiro.
Eles haviam saído da rodoviária de Cuiabá e pretendiam chegar ao estado fluminense, onde, segundo a investigação, se encontrariam com outros integrantes da organização criminosa.
A abordagem ocorreu na BR-158, em Paranaíba (MS), depois que a Delegacia Especializada de Roubos e Furtos (Derf) de Lucas do Rio Verde repassou as informações à PRF.
A jovem de 22 anos apontada como uma das envolvidas teria contratado o transporte por aplicativo por R$ 1,5 mil. O plano, porém, acabou desmoronando antes de eles chegarem ao Rio.
“E eles passam as ordens para os indivíduos que estão aqui. Então, nesse momento nós temos três desses, pelo menos sete suspeitos ou envolvidos”, afirmou Arthur.
Antes disso, um homem apontado como responsável pelo transporte da adolescente já havia sido preso em flagrante. Ele estava com o Fiat Mobi branco usado na ação e alegou ser motorista de aplicativo e não saber o que estava acontecendo. A polícia, entretanto, conseguiu rastrear os envolvidos e pediu a prisão preventiva dos demais suspeitos.
A investigação aponta que o crime não teria sido decidido apenas pelos criminosos que aparecem nas imagens do hotel. Segundo Arthur, integrantes ligados à liderança da facção no Rio de Janeiro teriam determinado a execução e repassado a ordem para criminosos que estavam em Lucas do Rio Verde.
“A gente sabe que tem pelo menos seis pessoas envolvidas diretamente ali. Não são só as que aparecem na imagem. Mas existem, com a liderança do Rio de Janeiro, quem fez esse decreto", informou.


