Quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Governo estuda aumentar etanol na gasolina para até 35%

Com mudança da mistura, biocombustível ganhará maior participação no consumo total, independentemente da escolha do motorista na bomba

Governo estuda aumentar etanol na gasolina para até 35%
ReproduçãoFoto: Arquivo Colíder News

O Brasil discute um novo avanço na política de biocombustíveis: elevar para até 35% a mistura de etanol na gasolina, medida conhecida como E35. O tema ganhou destaque na última semana, durante evento da consultoria Datagro, que reuniu representantes do governo, da indústria automotiva e especialistas em motores para discutir os impactos técnicos e econômicos da mudança.

Atualmente, a gasolina comercializada no país contém 30% de etanol anidro (E30). A proposta de elevar o teor para até 35% faz parte das diretrizes da Lei do Combustível do Futuro, marco regulatório que busca ampliar o uso de energias renováveis e reduzir emissões no setor de transportes.

Segundo Marlon Arraes, diretor do Departamento de Biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia, o processo para alterar a mistura exige uma série de testes técnicos e etapas regulatórias antes de qualquer decisão final.

“A alteração do teor de mistura precisa ser aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) e exige a comprovação da viabilidade técnica. Por isso estamos estruturando um plano de testes com participação da indústria, especialistas e órgãos de governo”, explicou.

Ensaios laboratoriais e testes de campo

O plano de trabalho inclui a realização de ensaios laboratoriais e testes de campo para avaliar os impactos da nova mistura em veículos e motocicletas. Parte dos estudos será financiada por programas de pesquisa e também por parcerias com a indústria.

Experiência semelhante já foi realizada em mudanças anteriores na gasolina brasileira, como quando a mistura passou para E27. Agora, os testes devem avaliar percentuais superiores a 30%.

De acordo com Renato Romil, gerente da divisão de motores e veículos do Instituto Mauá de Tecnologia, os estudos devem seguir metodologia parecida com a utilizada anteriormente.

“No E30 testamos veículos de diferentes tecnologias, desde modelos mais antigos até os mais modernos, incluindo carros com injeção direta e motocicletas. A ideia é repetir esse processo para o E35 e ampliar os testes de durabilidade”, disse.

Os ensaios buscam identificar possíveis impactos no desempenho, consumo, emissões e funcionamento dos motores.

Um dos fatores que favorecem a discussão é o perfil da frota brasileira. Hoje, mais de 80% dos carros leves vendidos no país são flex, capazes de rodar tanto com gasolina quanto com etanol.

Apesar disso, o consumo do etanol hidratado ainda está abaixo do potencial. Segundo especialistas, muitos motoristas optam pela gasolina quando o preço do etanol supera cerca de 70% do valor da gasolina, relação considerada referência para compensar a diferença energética entre os combustíveis.

Com o aumento da mistura na gasolina, o etanol passa a ter maior participação no consumo total, independentemente da escolha do motorista na bomba.

Além disso, o aumento do teor pode trazer benefícios técnicos.

“Quando elevamos a presença de etanol na gasolina, melhoramos a qualidade do combustível e também o desempenho dos motores, além dos ganhos ambientais”, afirmou Romil.

Biocombustíveis ganham peso na descarbonização

Para o setor automotivo, a ampliação do uso de etanol é vista como uma estratégia importante para reduzir emissões sem elevar significativamente o custo dos veículos.

Representantes da indústria destacam que a descarbonização do transporte demanda soluções que considerem não apenas as emissões do escapamento, mas todo o ciclo de vida do combustível.

Nesse contexto, os biocombustíveis ganham relevância, especialmente em países com grande produção agrícola, como o Brasil.

A discussão ocorre em um momento em que diversos países revisam suas políticas energéticas diante das pressões climáticas e das incertezas no mercado global de petróleo.

Oportunidade estratégica para o Brasil

Especialistas apontam que o país tem uma vantagem competitiva na produção de biocombustíveis, principalmente etanol de cana-de-açúcar.

O Brasil possui mais de 40 anos de experiência no uso de altas misturas de etanol, desde o lançamento do Programa Nacional do Álcool (Proálcool) na década de 1970.

Para o governo, ampliar a mistura pode reforçar a segurança energética, reduzir emissões e ampliar o mercado para a cadeia sucroenergética.

A decisão final sobre o novo percentual dependerá dos resultados técnicos dos testes e da análise de impacto regulatório. Caso seja aprovada, a mudança poderá representar um dos maiores avanços recentes na política de biocombustíveis do país.

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