Segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Grupo usava MT como base para rota aérea internacional de drogas

Investigação aponta estrutura com aviões, pistas clandestinas e apoio terrestre para trazer cocaína e armas da Bolívia e do Peru; piloto ligado ao esquema teria realizado nove operações internacionais em apenas três meses

Grupo usava MT como base para rota aérea internacional de drogas

Uma estrutura formada por aeronaves próprias, pistas clandestinas e equipes de apoio em terra, inclusive em Mato Grosso, teria sido utilizada por uma organização criminosa para transportar drogas e armas da Bolívia e do Peru para o Brasil. A engrenagem é investigada pela Polícia Federal na Operação Bóreas e funcionaria também como uma espécie de prestadora de serviços para diferentes grupos criminosos.

Novos elementos da investigação mostram a frequência das viagens. Márcio Rabello Mesquita Theodoro, apontado como um dos pilotos do esquema, teria participado de nove operações internacionais em um período de aproximadamente três meses, entre novembro de 2024 e fevereiro de 2025.

INFO operação bóreas

 

As investigações indicam que a logística não se restringia aos voos. Depois de cruzar a fronteira, a organização utilizaria suporte terrestre especialmente em Mato Grosso, Tocantins e Mato Grosso do Sul, criando uma estrutura para recepção e movimentação das cargas trazidas do exterior.

O modelo investigado pela PF envolvia planejamento das viagens, utilização de aeronaves, pistas clandestinas e apoio em solo. A suspeita é de que o grupo disponibilizava essa estrutura para diferentes organizações criminosas mediante pagamento.

A dimensão da capacidade de transporte apareceu de forma concreta em fevereiro de 2025, quando Márcio foi preso em flagrante após pousar um Cessna 210M, prefixo PS-PIX, em uma pista rural no Tocantins. Dentro da aeronave foram encontrados aproximadamente 475 quilos de cloridrato de cocaína e pasta-base, além de pequena quantidade de maconha ou haxixe.

NOVE OPERAÇÕES EM TRÊS MESES - O levantamento das investigações indica que as nove operações atribuídas ao piloto ocorreram em um intervalo relativamente curto, entre novembro de 2024 e fevereiro de 2025.

Os voos partiam de áreas relacionadas à Bolívia e ao Peru, tradicionais pontos de origem da cocaína transportada para o Brasil. A investigação também apura transporte de armas pela mesma estrutura logística.

O material disponível até agora, entretanto, não permite afirmar que todas as nove viagens transportaram a mesma quantidade de droga encontrada no avião apreendido em 2025. Também não há, nas informações consultadas, um balanço consolidado do volume total de cocaína e armas movimentado especificamente nessas nove operações.

Por isso, a apreensão de aproximadamente 475 quilos deve ser tratada como um dos episódios documentados da investigação, e não multiplicada pelo número de viagens para estimar a quantidade total transportada.

A prisão do piloto ocorreu quando a aeronave pousou irregularmente em uma pista na zona rural de Caseara, no Tocantins. Outros suspeitos também estavam no local.

MATO GROSSO NA LOGÍSTICA - Mato Grosso aparece na investigação como uma das áreas utilizadas para apoio terrestre da estrutura aérea, ao lado de Tocantins e Mato Grosso do Sul.

A localização exata das pistas clandestinas eventualmente utilizadas no Estado, porém, não está detalhada nas informações públicas consultadas. Esse é um dos pontos ainda necessários para dimensionar o peso de Mato Grosso dentro da rota.

A investigação também busca identificar o destino das cargas depois que entravam no território brasileiro. Reportagens baseadas nos elementos da apuração apontam ramificações do esquema para abastecimento de outros mercados, inclusive fora do país, mas a reconstrução completa de cada um dos nove voos não está disponível publicamente.

A Operação Bóreas foi deflagrada pela Polícia Federal em agosto para desarticular a organização suspeita de atuar no tráfico internacional de drogas e armas. Na primeira fase foram cumpridos três mandados de prisão preventiva e três de busca e apreensão, além de medidas para apreensão de aeronaves e bloqueio e sequestro de patrimônio.

NÚCLEO FINANCEIRO CHEGOU A CUIABÁ - A investigação chegou diretamente a Cuiabá por meio da advogada e empresária Thatiana Rabelo Mesquita Theodoro, irmã de Márcio.

Segundo a Polícia Federal, ela teria atuado no núcleo financeiro e patrimonial do grupo, auxiliando na movimentação e ocultação de recursos cuja origem os investigadores atribuem ao tráfico internacional. A suspeita é de que contas bancárias, joias e imóveis tenham integrado mecanismos para dificultar o rastreamento do dinheiro.

Thatiana foi presa preventivamente durante a Operação Bóreas, mas teve a liberdade concedida pela Justiça Federal dois dias depois. Ela nega participação nos crimes investigados.

Durante as buscas realizadas em Cuiabá, agentes encontraram aproximadamente R$ 84 mil em espécie, além de joias, relógio, telefone celular e veículo. A apreensão desses bens, isoladamente, não comprova origem criminosa; essa vinculação é objeto da investigação.

A defesa de Thatiana sustenta que ela não integra organização criminosa e questionou as medidas adotadas contra a empresária. A própria investigada afirmou, durante audiência de custódia, que desconhecia os motivos de sua prisão e acreditava ter sido alcançada pela apuração em razão da relação familiar com Márcio.

ROTA AINDA TEM PONTOS A ESCLARECER - A documentação conhecida permite desenhar a estrutura geral investigada pela Polícia Federal: Bolívia e Peru como pontos de origem; transporte por aeronaves; utilização de pistas clandestinas; apoio terrestre em estados como Mato Grosso, Tocantins e Mato Grosso do Sul; distribuição das cargas e posterior movimentação e ocultação dos recursos.

Mas ainda há lacunas importantes.

Não estão consolidados publicamente o volume transportado em cada um dos nove voos, todas as aeronaves utilizadas, a localização das pistas clandestinas em Mato Grosso, o valor cobrado por cada operação, a identificação de todas as organizações que contratariam o serviço e o montante total que teria passado pelo esquema de lavagem.

Essas respostas serão fundamentais para determinar o tamanho da engrenagem e, principalmente, qual era a importância de Mato Grosso na rota internacional investigada pela Polícia Federal.

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