Segunda-feira, 5 de outubro de 2026

'Hoje, a Polícia Civil não está preparada para atuar no Novo Cangaço', diz Stringueta

Em entrevista ao HiperNotícias, o delegado contou um pouco sobre a sua trajetória em casos de Novo Cangaço

'Hoje, a Polícia Civil não está preparada para atuar no Novo Cangaço', diz Stringueta
Foto: Arquivo Colíder News

O delegado Flávio Stringueta afirmou que a Polícia Civil de Mato Grosso não está preparada para atuar em roubo de bancos na modalidade Nova Cangaço. Em entrevista ao HiperNotícias, a autoridade policial explicou que confia mais nos policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) para a captura e resolução nesse tipo de crime.


Durante a conversa, Stringueta falou um pouco da experiência dele em casos de Novo Cangaço, enquanto estava à frente da Gerência de Combate ao Crime Organizado (GCCO) e as perspectivas para a Polícia Civil nos próximos casos.

No bate-papo, o delegado comentou sobre o último roubo a banco na cidade de Nova Bandeirantes (1.200 km de Cuiabá).

Após a ação criminosa, nove ladrões foram mortos e cinco foram presos pelas forças de segurança. A seguir você confere o bate-papo com o delegado, que foi feito cinco dias após o roubo a banco em Nova Bandeirantes:

HiperNotícias: O que é o Novo Cangaço? Por que esse nome?

Stringueta: “O Novo Cangaço recebeu esse nome porque tem a aparência das ações dos antigos cangaceiros do Nordeste. Esses cangaceiros chegavam à cidade, dominavam esse município por um tempo e as saqueavam. Nesses roubos, eles levavam aquilo que era necessário como: dinheiro e mantimentos. O Novo Cangaço acontece de maneira semelhante, mas com a intenção de saquear os bancos. Durante o período que eles estão nessa cidade, praticamente para tudo. Eles fazem os escudos humanos na frente das agências evitando as ações das polícias. Efetuam disparos e ficam ali o tempo necessário para retirada do dinheiro dos cofres. Quando eles fogem, eles levam os reféns até uma determinada altura e costumam colocar fogo nos veículos em pontos estratégicos para impedir que a polícia os persigam, como aconteceu lá em Nova Bandeirantes. Lá, eles fizeram isso em uma ponte e isso atrapalhou a ação policial”.

HiperNotícias: Quando essa modalidade chegou em Mato Grosso? Quais foram os responsáveis por trazer esse tipo de crime ao estado?

Stringueta: “Eu não sei o ano exato que chegou em Mato Grosso, pois eu não estava na GCCO, mas foi na época de 2000. A gente sabe que quem trouxe essa modalidade para Mato Grosso foi o ‘Nenezão’, o Lindomar Alves de Almeida. Acredito que ele tenha morrido já, em 2019. Ele que trouxe essa modalidade. E ela ( o Novo Cangaço) foi tendo adeptos, outras organizações criminosas passaram a imitá-lo”.

HiperNotícias: Qual foi o ano que mais teve roubo na modalidade Novo Cangaço em Mato Grosso?

Stringueta: “O auge do Novo Cangaço no estado foi em 2012 quando eu já estava na GCCO. Em um ano tivemos 12 ataques, uma média de um por mês. Na época, nós identificamos que existiam, pelo menos, três quadrilhas que praticavam esses crimes. Eram grupos independentes, cada uma com seus criminosos e modos bastantes semelhantes, mas nós (a Polícia Civil) percebíamos que era grupos diferentes. Naquela época, alguns foram presos, outros mortos em confronto com o Bope”.

Alan Cosme/HiperNoticias

policia civil/gcco

Alan Cosme/HiperNoticias

HiperNotícias: Esses ataques demoraram muito tempo?

Stringueta: “Em 2013 foi derrocada. Foi o último ano que nós tivemos cangaço aqui. Ocorreu na cidade de Vila Rica (1.320 km de Cuiabá). Aí, de lá pra cá, não tivemos mais. Também naquela época o líder do bando foi morto em confronto com o Bope e outras oito pessoas foram presas pela GCCO junto à Polícia de Tocantins.

HiperNotícias: Por que esses crimes são, geralmente, realizados em cidades bem afastadas da capital? É para impedir a chegada rápida do policiamento especializado?

Stringueta: “Principalmente pelas rotas de fuga e as distâncias do reforço policial mais especializado. Não acredito, estrategicamente, que seria viável um roubo desse em uma cidade grande ou próxima como: Sinop (500 km de Cuiabá), Alta Floresta (800 km da Capital), que possui uma polícia mais numerosa que dá conseguir fazer um cerco mais rápido. Além disso, a ação do cangaceiro tem que ser muito meticulosa (em caso de cidade próxima à capital). Se sair uma coisa errada atrapalha toda fuga deles e expõe muito”.

HiperNotícias: O que acha do Bope? Qual tem sido a atuação do batalhão especializado nesse tipo de crime?

Stringueta: “O Bope aqui em Mato Grosso é referência em confronto em selva. O Bope é algo que por muito tempo intimidou a vinda do Novo Cangaço pra cá, desde 2013, e espero que volte a intimidar. O Bope, durante muito tempo, se especializou em confrontos na selva. Eles (os policiais do Bope) dão curso em todo o Brasil sobre esse assunto. Uma vez, quando eu trabalhava na GCCO, nós pegamos uma interceptação telefônica, que um criminoso falava para o outro: ‘Não venha para Mato Grosso que aqui o negócio é estreito. O pessoal mata’”.

HiperNotícias: O que mais afastou os criminosos do Novo Cangaço de Mato Grosso? Acha que esses criminosos possam ter mudado para outro tipo de crime?

Edson Rodrigues

delegado flavio stringueta

Edson Rodrigues

Stringueta: “Na nossa análise, houve uma migração dos criminosos de ataques a banco, tanto roubos a banco como na modalidade Novo Cangaço para crimes mais rentáveis e de menos risco, como por exemplo o roubo e furto de defensivos agrícolas. Na minha época, quando eu trabalhava na GCCO, a quadrilha que mais tirou dinheiro de um terminal bancário foi R$ 500 mil. Hoje, uma fazenda pode ter R$ 2 milhões em defensivos agrícolas. É muito mais rentável. No Novo Cangaço o custo é muito grande perto do benefício”.

HiperNotícias: Você acha que o roubo a banco ocorrido em Nova Bandeirantes possa ter ligação com o fato de você ter saído da GCCO, pois o crime aconteceu pouco tempo após a sua saída.

Stringueta: “Eu gostaria que sim, pois iria demonstrar todo o respeito que os criminosos tinham por mim e a minha equipe, mas eu não tenho como afirmar isso, pode ter sido uma mera coincidência. Eles poderiam estar organizando essa ação criminosa e acabou culminando com uma época após a minha saída. O que eu posso dizer é que por falta de planejamento da diretoria não há hoje na GCCO um delegado que já tenha atuado no Novo Cangaço, sequer com sequestro. Quando eu assumi a GCCO tinha a delegada Ana Cristina Feldner, que já tinha atuado. Hoje, só há dois policiais na GCCO que atuaram no Novo Cangaço e sequestro. Houve, na minha visão, uma falta de planejamento estratégico”.

HiperNotícias: Você acha que a Polícia Civil está preparada para atuar em casos de Novo Cangaço?

Stringueta: “Não está (preparada para atuar em casos de Novo Cangaço). Como eu te disse, houve uma mudança completa do efetivo que atuou no Novo Cangaço. Só em 2012, eu e a minha equipe atuamos em 12 roubo na modalidade do Novo Cangaço. Nós tínhamos um know how muito grande para investigar cangaço. O que eu sei e confio é que o Bope tem condições de dar a resposta. O Bope, sim, tem habilidade, conhecimento e técnica para dar essa resposta. A Polícia Civil não. Na GCCO, tem apenas dois policiais, que não dá para disseminar experiência”.

HiperNotícias: Quando a Polícia Civil terá essas condições?

Stringueta: “Eu digo que, no atual momento, a Polícia Civil não tem condições. Mas, com o tempo, sim. Mas, como eu disse, eles (da Polícia Civil) vão ter que patinar até tomar conhecimento desde que o Novo Cangaço retorne ao estado. A Polícia Civil não tem conhecimento técnico, investigativo para atuar nesses casos”.

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HiperNotícias: Foi um erro a diretoria da Polícia Civil ter te tirado da GCCO?

Stringueta: “Houve um erro de planejamento sim em me tirar da GCCO. Mas, um acomodamento, pois o Novo Cangaço aparentava estar extinto, embora eu sempre dizia que estava adormecido, eu tinha usado essa expressão. Eu imaginava que eles poderiam retornar há algum tempo, pois estava acontecendo em volta, em outros estados”.

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