Francisco Rodrigues de Oliveira Junior, de 37 anos, morreu após procurar atendimento na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro Pascoal Ramos, em Cuiabá, na noite do último sábado (7). O homem, que trabalhava no setor financeiro de uma empresa, estava com forte dor de garganta e muita fraqueza.
Ele morreu pouco tempo depois de dar entrada na unidade. Parentes apontam possível descaso no atendimento, afirmam que receberam versões diferentes dos profissionais da UPA e cobram investigação para esclarecer o que aconteceu dentro da unidade de saúde.
Calita Ramos de Sousa, namorada de Francisco, informou ao FOLHAMAX que ele chegou na UPA por volta das 21h30, acompanhado dela e do cunhado. Já muito debilitado, ele mal conseguia caminhar. “A gente pediu uma cadeira de rodas porque ele estava com muita dificuldade de andar. O rapaz falou para a gente dar uma andada no corredor para ver se encontrava uma”, contou.
Ela afirma que, mesmo após procurar pelos corredores da unidade, nenhuma cadeira de rodas foi encontrada. Ao voltar à recepção e pedir ajuda novamente, recebeu a mesma orientação. “Ele falou assim: ‘vocês que têm que procurar’”, relatou.
Sem conseguir o equipamento, a namorada diz que precisou avisar na triagem que o namorado estava passando mal dentro do carro. Com a ficha já feita, ela recebeu autorização para levá-lo até a sala.
O cunhado então ajudou Francisco a caminhar até o local, apoiado, por causa da fraqueza. Na triagem, a pressão e a glicemia foram verificadas, mas a saturação não pôde ser medida. “Ela tentou medir a saturação, mas o aparelhinho não funcionava. Mexia no fio, colocava em outro dedo e não funcionava”, relatou.
Segundo a namorada, ao perceber que a glicemia estava muito baixa, o paciente foi encaminhado para a sala de emergência. Ao chegar ao local, a família afirma que não havia maca disponível. “Não tinha uma maca disponível. Arrumaram uma cadeira dessas normais e meu irmão ficou segurando ele para ele não cair, porque ele estava muito ruim”, disse.
Ela conta que os profissionais verificaram novamente a glicemia, que estaria em 34, e tentaram acesso venoso para medicação. Durante o atendimento, a namorada afirma que um líquido foi colocado à força na boca dele. “Chegou na maior brutalidade do mundo, batendo no queixo dele e falando ‘abre a boca’”, afirmou.
MEDICAÇÃO E SUICÍDIO
Francisco ainda conversava com dificuldade, mas estava consciente, segundo a família. A situação teria mudado depois de receber medicação na veia. “Ele começou a falar coisa com coisa. Começou a fazer conta, um monte de conta, e começou a gritar e se esticar na cadeira”, contou.
Logo depois, o estado dele teria piorado. Nesse momento, a mãe do paciente foi chamada, mas os familiares acabaram retirados da sala.
Algum tempo depois, por volta das 22h30, a família recebeu a notícia da morte. Segundo a namorada, para a mãe de Francisco, foi dito que ele morreu durante uma lavagem estomacal.
Já para ela e outros parentes, a equipe afirmou que a morte ocorreu durante uma intubação. “Falaram que foram itubar ele e começou a voltar muito sangue no tubo. Disseram que tentaram por 20 minutos, mas não tinham sangue para repor”, relatou.
Conforme Calita, a família também questionada a presença de um hematoma no quadril do paciente. De acordo com a namorada, a equipe teria avisado que o roxo já existia quando ele chegou na unidade, o que é contestado pelos familiares. “É mentira. Quem ajudou ele a se vestir fui eu e meu irmão e ele não tinha nenhum hematoma”, afirmou.
Segundo a namorada, chegou a ser cogitada pelo médico que atendeu Francisco a hipótese de suicídio, o que os parentes rejeitam. “Ele estava na fase mais feliz da vida dele. Jamais ia tirar a própria vida”, disse.
Ela relatou ainda que durante o atendimento o médico estava nervoso, mas quando foi informar a morte estava calmo sugerindo que o profissional tenha tomado algum medicamento para se tranquilizar. "E aí o médico, enquanto estava fazendo lá o atendimento dele, estava muito bruto com a falta de educação extrema. Depois, quando ele foi dar a notícia do óbito, ele estava totalmente calmo, tranquilo e deu para perceber que na mão dele ele havia recebido uma medicação", suspeita
Calita lamentou o descaso e pediu o caso da morte do namorado seja investigado. "Tinha uma criança do corredor sendo atendida, deitada numa maca e jogado, largado lá, sabe? E a mãe tentando encontrar alguém para dar atenção para a criança. A criança gritando de dor, passando muito mal. Está um descaso tão grande, tão grande que a gente só quer que ninguém passe. Nenhuma família, nenhum paciente passe pelo que a gente passou e pelo que ele passou nas mãos daquele médico lá naquela UPA. Assim, eu não gosto nem de recordar como ele foi tratado. E, assim, a gente presenciar tudo isso sem poder fazer nada", lamentou.


