Quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Hospital do Câncer de MT suspende tratamentos por falta de dinheiro

Conforme o balanço da unidade, o débito chega a R$ 6,8 milhões, acumulados desde junho de 2018.

Hospital do Câncer de MT suspende tratamentos por falta de dinheiro
Foto: Arquivo Colíder News
Mesmo com a sessão marcada, pacientes oncológicos estão voltando para casa sem fazer a quimioterapia. Eles estão sendo dispensados do Hospital do Câncer de Mato Grosso, sem expectativa de retorno, com a justificativa de que o problema é a falta de dinheiro para comprar os remédios.


Conforme o balanço da unidade, o débito chega a R$ 6,8 milhões, acumulados desde junho de 2018.


No valor, estão os repasses por serviços, incentivos e ainda emendas parlamentares que caíram na conta da Prefeitura de Cuiabá, mas que não teriam sido transferidas para o hospital, que atendeu 107.326 pessoas somente no ano passado.


Responsável técnico pelo setor Hematológico, o médico André Crepaldi diz que as quimioterapias foram suspensas esta semana porque não há mais como custear o serviço.


Atualmente, 600 pacientes estão com tratamento em andamento e foram diretamente atingidos pela decisão.



Os estoques não têm mais remédios para realização de quimioterapias no setor de hematologia  (Foto: Freepik)

“O impacto logo será sentido nos demais setores do hospital e em muitos serviços nos quais o hospital é referência, como de oncologia infantil”, avalia o profissional.



Segundo Crepaldi, os prejuízos da paralisação são incalculáveis e vão, desde a demora na cura, até a aceleração da morte, uma vez que, em casos graves, o tumor pode aumentar e a doença evoluir.


Balanço detalhado

Entre os débitos da Prefeitura de Cuiabá com o Hospital do Câncer estão:


Incentivo de Valorização por Qualificação Profissional (desde julho de 2018) – R$ 693.422

Serviços de endoscopia/coloscopia (desde setembro de 2019) – R$ 276.455

Serviços ambulatoriais (novembro e dezembro de 2019) – R$ 3,6 milhões

Serviços em média e alta complexidade (dezembro de 2019) – R$ 168.526

Emenda parlamentar que caiu na conta da prefeitura dia 26 de dezembro – R$ 1,6 milhão

Emenda parlamentar que caiu na conta da prefeitura dia 30 de dezembro – R$ 400 mil.


 Prefeitura de Cuiabá tem débitos somados desde 2018 e não há prazo definido para pagar (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Desespero de quem corre contra o tempo

No grupo de pessoas atingidas estão incluídos pacientes de Cuiabá e também do interior. Alguns estão começando o tratamento e outros foram surpreendidos no meio do processo.


Desespero de quem corre contra o tempo

No grupo de pessoas atingidas estão incluídos pacientes de Cuiabá e também do interior. Alguns estão começando o tratamento e outros foram surpreendidos no meio do processo.


O estudante Matheus Silva Oliveira, 24, conta que chegou para fazer a terceira sessão de quimioterapia no setor de hematologia e foi informado que não haveria medicação. Na ocasião, a recepção estava repleta de pacientes, que também ficaram desesperados com a situação.


“Eu falei com a minha médica e ela disse que, dependendo do tempo de atraso, pode haver reflexos no meu tratamento. Quero apenas continuar e poder me curar”, desabafa.


Segundo o paciente, o que mais o deixou preocupado foi a falta de expectativa quanto ao retorno. Os funcionários encaminharam os pacientes para a Ouvidoria e, lá, nada de concreto foi passado.


“Disseram apenas que precisamos esperar um retorno, porém não sabemos até quando”, relembra.


Apenas um problema recorrente

Presidente do MT- Mamma, Cleuza Dias conta que a situação dos pacientes oncológicos tem piorado muito nos últimos anos. Na avaliação dela, isso aconteceu por conta de um desequilíbrio. Enquanto o número de pacientes aumenta, o serviço público diminui o número de atendimento e de leitos.


Ela explica que casos como o de Matheus foram recorrentes ao longo do ano passado. E os problemas não são apenas no Hospital do Câncer, mas sim no sistema público como um todo.


“Tivemos uma paciente que morreu porque ficou três dias acomodada no pronto-atendimento, esperando um leito de UTI. Ela faleceu sem conseguir”, relata.



Santa Casa não tem mais as portas abertas, o que reduziu os locais de socorro aos pacientes (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)


A falta de acesso é justificada pela redução de leitos no Hospital do Câncer, Pronto-socorro de Cuiabá, bem como em outras unidades que antes recebiam os pacientes vindo do Sistema Único de Saúde (SUS).


Outra questão foi a mudança do atendimento no hospital Santa Casa de Misericórdia. Antes, a unidade recebia as pessoas de portas abertas. Agora, apenas regulados pela Secretaria de Estado de Saúde (SES).


Manifestação

Devido ao cenário cada vez mais complicado, a organização está promovendo a 7ª Marcha Rosa em Cuiabá.


Dias lembra que, mesmo a cor sendo alusiva ao câncer de mama, o objetivo é dar voz aos doentes oncológicos e exigir o cumprimento da lei, bem como a humanização dos serviços.


Aos interessados, a 7ª Marcha Rosa em Defesa dos Direitos da Pessoa com Câncer em Mato Grosso será neste sábado (7).


Concentração: a partir das 7h30

Local: Praça Alencastro

Vestimenta: camiseta rosa ou branca

O que a Prefeitura diz?

A reportagem do LIVRE entrou em contato com assessoria de imprensa da Prefeitura de Cuiabá para saber a versão da administração do município sobre o caso, mas até a publicação desta matéria, não obteve retorno.


O espaço continua aberto a manifestações.
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