Grandes construções antigas costumam ser feitas de pedra e resistir à vista de todos, como pirâmides e templos. No leste do Acre, perto de Rio Branco, centenas de figuras geométricas escavadas na terra passaram séculos escondidas sob a floresta e só apareceram quando o desmatamento moderno abriu o terreno. Hoje, esses geoglifos mudam o que se sabia sobre os povos antigos da Amazônia.
O que são os geoglifos do Acre?
São estruturas escavadas no solo, formadas por valetas e pequenas muretas de terra que desenham figuras geométricas. Segundo o dossiê apresentado pelo Brasil à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), elas se concentram no leste do estado, entre nascentes, igarapés e áreas alagáveis ligadas aos rios Acre e Iquiri.
As formas incluem círculos, quadrados, elipses, octógonos e figuras em U. Os construtores preferiam os pontos mais altos do terreno, muitas vezes na borda dos platôs, com vista ampla do entorno. Os primeiros registros surgiram no fim da década de 1970, e a dimensão do fenômeno só ficou clara quando o desmatamento deixou o chão exposto e as figuras puderam ser vistas do alto.
Novas descobertas sobre o passado amazônico. O vídeo é do canal TV Norte Acre, que conta com milhares de inscritos, e apresenta o registro de novos geoglifos no estado após um estudo publicado pela revista Science:
Qual o tamanho dos geoglifos do Acre?
As maiores estruturas rivalizam com as obras monumentais pré-colombianas mais impressionantes das Américas, conforme estudo publicado em 2017 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), com participação da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Acre (UFAC). Os números ajudam a entender a escala.
1Até 11 metros de larguraÉ a largura máxima das valetas, o equivalente a uma rua de mão dupla.2Até 4 metros de profundidadeFundo suficiente para esconder uma pessoa adulta de pé.3De 100 a 300 metros de diâmetroOs maiores recintos teriam espaço para cerca de três campos de futebol enfileirados.4Até seis recintos por sítioAlguns locais reúnem várias figuras lado a lado, formando conjuntos complexos.5Cerca de 13 mil km²É a área do Acre ocupada pelas mais de 450 estruturas conhecidas em 2017.A contagem não para de crescer. O dossiê da UNESCO de 2015 registrava 306 sítios com 410 estruturas, e pesquisas posteriores já falam em quase 500. Menos de 20 deles, porém, foram estudados a fundo pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
Como os povos antigos construíram sem derrubar a floresta?
Abrindo apenas clareiras pequenas e temporárias. O estudo da PNAS mostrou que uma floresta de bambu domina a região há pelo menos 6 mil anos e que os construtores não queimaram grandes áreas de mata, nem para erguer os geoglifos nem para plantar.
Em vez disso, eles transformaram a floresta aos poucos, favorecendo espécies úteis como as palmeiras. A Universidade de Reading, no Reino Unido, que participou da pesquisa, descreve o resultado como uma espécie de supermercado pré-histórico de produtos da mata. A ironia é evidente: obras feitas com tão pouco impacto só vieram à tona por causa de um desmatamento muito maior, ocorrido no fim do século XX.

Para que serviam os geoglifos?
A interpretação mais aceita é que eram espaços rituais. Pesquisa divulgada pela Universidade de Helsinque, na Finlândia, situa a construção e o uso entre cerca de 3 mil e mil anos atrás e mostra que os povos indígenas do Acre ainda tratam esses locais como sagrados, evitando usá-los para moradia ou plantio.
A autoria segue em aberto. O dossiê da UNESCO aponta uma possível ligação com povos dos grupos Arawak e Takana, como os Manchineri e os Apurinã, e considera os geoglifos a evidência mais durável e visível da presença indígena antiga no estado.
Onde ver um geoglifo perto de Rio Branco?
O exemplo mais conhecido fica no Sítio Arqueológico Jacó Sá, a cerca de 50 km da capital acreana. Com aproximadamente 2.500 anos e um traçado que lembra a bandeira do Brasil, ele foi o primeiro geoglifo tombado pelo IPHAN, em 2018, e representa simbolicamente todo o conjunto.
Os sítios abertos à visitação ficam justamente nas cercanias da cidade, e a melhor leitura das formas acontece do alto ou com guias locais, que explicam o desenho que nem sempre se percebe do chão. Desde 2015, os geoglifos do Acre estão na Lista Indicativa do Brasil ao Patrimônio Mundial.
A floresta que guardava uma história escrita no chão
Os geoglifos desmontam a ideia de uma Amazônia intocada antes da chegada dos europeus. Mostram povos capazes de mover toneladas de terra com precisão geométrica e, ao mesmo tempo, de conviver com a floresta por milênios sem destruí-la.
Você precisa conhecer Rio Branco e ver de perto essas marcas que esperaram séculos sob as árvores para contar quem viveu ali antes de todos nós.


