Quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Medeiros atribui vazamento de áudios a Gilmar Mendes e anuncia que pedirá investigação contra ministro

Em entrevista exclusiva ao RepórterMT, candidato ao Senado pelo PL relata bastidores de conversa com o prefeito de Diamantino e confirma que protocolará representação contra o ministro do STF.

Medeiros atribui vazamento de áudios a Gilmar Mendes e anuncia que pedirá investigação contra ministro

O deputado federal e candidato ao Senado por Mato Grosso, José Medeiros (PL), abriu o jogo após a repercussão de trechos de áudios de conversas privadas que vieram a público nesta semana. Em entrevista exclusiva concedida ao ReporterMT.

hoje (22), Medeiros atribuiu o vazamento ao ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), admitiu frustração com a situação e anunciou que irá formalizar um pedido de investigação contra o magistrado.

A polêmica começou após o vazamento de dois áudios. No primeiro, o deputado bolsonarista afirma que não ataca do STF. No segundo áudio, ele afirma que seu eleitor é aquele que “ora para alienígena e bebe detergente”. As falas, segundo ele, foram tiradas do contexto com o objetivo de prejudicar sua campanha eleitoral.

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Segundo Medeiros, as mensagens fazem parte de um diálogo mantido com o prefeito de Diamantino, Chico Mendes (União Brasil), que é irmão do ministro Gilmar Mendes. O candidato explicou que buscou aproximação com Chico para que o ajudasse a marcar uma audiência com Gilmar Mendes, após ter conhecimento de que poderia ser alvo de uma operação policial.

Após tomar conhecimento dos boatos, decidiu buscar o próprio magistrado para checar a procedência das informações, seguindo a máxima de que boatos devem ser cortados na raiz. "Chegou até mim o seguinte, que [uma liderança política] teria comentado [...] que haveria uma operação na minha casa, sabe? A mando do Gilmar. Bom, como a forma como o STF tem conduzido as coisas, eu realmente me assustei. Eu falei, poxa... Liguei para o Chico e falei: Chico, eu preciso de uma audiência com o Gilmar. Tem como você conseguir? E ele me atendeu muito bem", explicou o deputado.

O candidato ao Senado continuou narrando como se deu o encontro em Brasília. "E ele conseguiu, fui lá no ministro. Falei: ministro, dizem que boato se mata na fonte e tal, quero saber o que está acontecendo. Ele desconversou e falou: não, não tem nada disso e tal. Conversei com ele ainda sobre uma questão também dos indígenas (...) Voltei tranquilo de que não haveria tal da operação, né?", detalhou.

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No entanto, para Medeiros, a exposição das gravações para a imprensa têm clara motivação eleitoral na reta final da disputa para o Senado em Mato Grosso. Ao comentar a forma como se sentiu com a exposição de sua conversa particular, Medeiros não escondeu o incômodo. "Lógico que a gente fica bastante frustrado de ver essas coisas acontecerem e, sinceramente, eu não esperava", desabafou.

Os áudios

Na segunda-feira (21) vazou o primeiro áudio. Na gravação, Medeiros comentava estratégias de campanha e ponderava sobre a separação entre o respeito institucional e a fiscalização dos ministros.

Uma coisa que eu tenho feito: por exemplo, eu não ataco o STF, viu, Chico. Meu marketing aqui tinha feito um negócio, eu falei: olha, quero que corte tudo. Eu não leio um texto para gravação que tenha qualquer coisa mencionando o STF. Se vocês pedirem para eu esculhambar com Alexandre de Moraes, pode me ligar até no meio da noite, que eu faço isso. Mas não me peça para falar de outros ministros e tal. Só para dizer que nunca mencionei o nome do ministro Gilmar. Já fui até criticado por isso e falei: não me peçam para fazer isso”.

No segundo áudio vazado hoje (22), Medeiros diz que seu eleitor é aquele que “ora para alienígena e bebe detergente”.“Você sabe que o meu eleitor é aquele eleitor que ora para alienígena e bebe detergente, né? Esse eleitor, Chico”.

Ouça: 

As expressões usadas pelo candidato fazem referência a episódios que viralizaram nas redes sociais envolvendo apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro. A menção aos “alienígenas” remete às imagens de manifestantes que, após as eleições de 2022, apareceram com celulares apontados para o céu durante protestos em frente a quartéis. As cenas foram compartilhadas nas redes como se o grupo estivesse pedindo uma “intervenção alienígena”, versão que acabou transformada em meme.

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Já a referência ao detergente está relacionada a um vídeo divulgado em 2026, no qual um apoiador de Bolsonaro aparece levando à boca um frasco do produto durante uma manifestação de apoio a uma fabricante Ypê que havia sido alvo de uma medida sanitária da Anvisa.

Pedido de investigação

Diante do desgaste provocado pela divulgação dos áudios, o candidato ao Senado afirmou que não vai recuar e decidiu antecipar medidas jurídicas contra o ministro Gilmar Mendes. Medeiros confirmou que protocolará formalmente um pedido de investigação para apurar relações empresariais e institucionais ligadas ao magistrado. "O que eu vou te falar aqui é que vou pedir investigação sobre Gilmar Mendes. Pode colocar aí tudo, tá?", declarou.

Para embasar a medida, Medeiros justificou que a representação serve para equiparar a fiscalização sobre as instâncias de poder, utilizando como argumento apurações recentes solicitadas por outros integrantes da Corte a exemplo do pedido feito pelo ministro Flávio Dino envolvendo o Instituto Iter e o ministro André Mendonça.

Medeiros citou as investigações da Polícia Federal envolvendo o Banco Master, gerido por Daniel Vorcaro. O parlamentar aponta questionamentos sobre os acordos firmados entre a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e o Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), fundado por Gilmar Mendes, além de citar as polêmicas em torno do Fórum de Lisboa, o conhecido "Gilmarpalooza", contratos com a JBS e auditorias que expuseram repasses milionários a escritórios de advocacia ligados a ex-diretores do instituto, a exemplo do caso envolvendo a advogada Dalide Corrêa e o banqueiro Daniel Vorcaro.

"O ministro Flávio Dino pediu investigação sobre o Instituto Iter do ministro André Mendonça, né? Então eu estou protocolando um pedido de investigação em relação ao ministro Gilmar Mendes e o seu instituto, em relação a relacionamentos empresariais, em relação à JBS, em relação à CBF, em relação à questão do Gilmarpalooza... Eu penso que é necessário a gente deixar isso tudo claro.", disparou Medeiros.

Segundo o candidato, a iniciativa demonstra coerência com sua postura política de fiscalização dos atos de autoridades públicas, rechaçando a pecha criada após o vazamento dos áudios. "Já entrei com pedido de impeachment de Flávio Dino, Alexandre [de Moraes], [Luís Roberto] Barroso, Edson Fachin... As críticas sempre faço a pessoas, não à instituição", reforçou.

A repercussão do caso decorre principalmente do perfil ideológico de José Medeiros, conhecido por ser um dos principais bolsonaristas em Mato Grosso e a aposta direta do senador Flávio Bolsonaro (PL) para a disputa ao Senado no estado, o que gerou estranheza entre eleitores e aliados devido ao histórico de discursos públicos extremamente ácidos, severos e frequentes contra o Supremo Tribunal Federal e seus magistrados.

Outra polêmica

O vazamento ocorre dias após Medeiros se ver envolvido em outra polêmica. Postagens relembram que em 2019, Medeiros apareceu em vídeo comemorando a eleição de Alcolumbre para a Presidência do Senado, chamou sua vitória de “renovação” e disse que Mato Grosso torcia por ele. Alcolumbre retribuiu. Chamou Medeiros de “irmão”, “amigo de todas as lutas” e afirmou publicamente que o então senador havia ajudado em sua chegada ao comando da Casa.

Agora, em campanha para voltar ao Senado, Medeiros acusa Alcolumbre de falhar no enfrentamento ao STF e afirma que pretende até disputar contra ele a Presidência da Casa. Só que a fala não ficou apenas no vídeo antigo.

Ruth Yamamoto Medeiros, esposa do candidato, é servidora da Prefeitura de Rondonópolis cedida ao Senado desde 2019 e permanece lotada na estrutura da Presidência da Casa, hoje novamente comandada por Alcolumbre.

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