Quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Mesmo em período considerado feliz, cerca de 12% das mulheres grávidas têm ideação suicida

É comum falar em depressão e suicídio, mas nunca são associados ao período gestacional

Mesmo em período considerado feliz, cerca de 12% das mulheres grávidas têm ideação suicida
Foto: ReproduçãoFoto: Arquivo Colíder News

É comum falar sobre a depressão puerperal, mas em muitas ocasiões, essa doença pode ocorrer desde a gravidez. Isso porque, nesse período, a mulher está com os hormônios alterados, causando diversos sentimentos e sensações, ou seja, uma carga emocional muito grande.


Neste mês de conscientização sobre a depressão e o suicídio, o Setembro Amarelo, é preciso dizer que se engana quem acha que não existe essa possibilidade em grávidas. De acordo com um estudo da Revista Panamericana de Saúde Pública, de 2,7% a 12% de grávidas têm o sentimento suicida.

A gravidez é idealizada como um dos momentos mais felizes da vida de uma mulher. No entanto, para algumas, esse momento é de medo, nervosismo, estresse, etc. Segundo o Instituto Mater Online, os principais fatores para suicídio materno são gravidez na adolescência, gravidez não desejada, sofrer com violência física e sexual na infância, sofrer violência doméstica, além dos transtornos mentais durante a gestação.

A médica ginecologista e obstetra Cristiane Barros explica que esse quadro de tristeza durante a gravidez e pós-parto é chamado de ‘blues’. Além das alterações hormonais, a médica cita que existem diversos outros fatores que contribuem para a depressão, como as cobranças de si mesma, os palpites de pessoas, mudanças no dia a dia, etc. Cristiane diz que atende suas pacientes com a máxima atenção e, no momento do parto, tenta torná-lo o mais humanizado possível, até mesmo em cesarianas, pois o contato físico entre a mãe e o bebê quando nasce é de extrema importância.

“Isso ocorre nesse período gestacional e no pós-parto, devido às alterações hormonais, com uma queda brusca dos níveis de estrogênio. No pós-parto, a enzima quebra os neurotransmissores de serotonina, dopamina e noradrenalina, que além de serem responsáveis por transmitir os sinais entre as células nervosas, também influenciam nosso humor. Se o funcionamento dos neurotransmissores é afetado, a pessoa se sente triste e depois corre o risco de ficar deprimida”, explicou a médica.

Embora não haja dados concretos de suicídios maternos, uma pesquisa do Mater Online mostra que pelo menos 7,8% de mulheres grávidas já tiveram ideação suicida materna. Segundo Cristiane, é possível os próprios obstetras se confundirem com um quadro depressivo, blues ou ansiedade na grávida, pois os sintomas são parecidos. Por isso, é atribuido muitas vezes com os sintomas "normais" da gravidez. 

Durante a gestação, muitos ao redor de uma grávida têm a visão romântica daquele período e isso impede a mulher de pedir ajuda quando sente que sua saúde mental está abalada. E a mulher acaba carregando esse peso depois do nascimento do bebê, a chamada depressão pós-parto. Por isso, a importância de discutir a saúde mental da mulher desde a gravidez, pois são os primeiros passos para diminuir os índices de depressão pós-parto.

“É possível nós médicos confundirmos o blues com as alterações hormonais em uma gestante. Por isso, temos que ter total cuidado com as pacientes, atendê-las sempre com atenção extrema. Em alguns casos específicos, o melhor é um apoio multidisciplinar, com psiquiatra e psicólogo. Não devemos deixar passar despercebidos os casos de ansiedade, blues, depressão, tristeza excessiva na gestação. Procuro sempre orientar as minhas pacientes e tratá-las da melhor maneira possível”, disse a obstetra.

Conforme a Revista Panamericana, a ideação suicida durante o período gestacional é rara, no entanto, nunca pode ser descartada pelos profissionais que atendem uma gestante no seu pré-natal, pois traz a prevenção de tentativas de suicídio ou do suicídio.

No caso da farmacêutica Bianca Bonfim, de 27 anos, que teve seu filho Oliver Bonfim há 12 dias, ela não romantizou a sua gravidez e comentou ao HNT como foi o processo no período. Ela lembrou que a sua gravidez era considerada de alto risco por conta de alguns problemas de saúde. Logo no início, ela teve infecção urinária e teve que fazer o uso de vários antibióticos durante dois meses, despertando a preocupação, pois havia o risco de o bebê nascer prematuro. No terceiro trimestre, vieram as dores de fim de gestação, como nas costas, a falta de ar, dor na pelve, pressão alta, além de outros problemas.

Na gestação, eu tive o blues, sentia medo do parto e amamentação. Minha médica orientou a pesquisar sobre o assunto, ver vídeos e, ao ir tomando conhecimento das coisas, fui me acalmando até que eu entendi que não tem como adiantar as coisas, ia ser como era pra ser. No 8º mês, eu estava com a pressão descontrolada, foi necessário entrar com medicamentos e ficar observando, quando já começou a se falar no adiantamento do parto. Isso tudo foi pesando e me deixando angustiada”, comentou.

Bianca comentou que mesmo fazendo de tudo para segurar a gestação até o tempo correto, a bolsa estourou prematuramente, com 36 semanas, e foi necessário fazer o parto cesariana. Depois, a amamentação tem sido natural, segundo Bianca. Já sobre a sua recuperação da cirurgia e o puerpério, ela disse que é difícil explicar ou narrar o momento, pois os sentimentos que tem são uma descarga emocional muito grande. A farmacêutica contou que a vontade de chorar o tempo é incontrolável, qualquer coisa que acontece é um nervosismo e tristeza no extremo.

Quando se fala no cuidado do bebê e o pós-parto da mãe, todos já imaginam a rede de apoio que toda mulher necessita nesse período gestacional. Bianca contou que a sua rede de apoio tem sido seu marido Reinaldo Junior, sua mãe, sua irmã e a sogra, que têm sido essenciais para a sua recuperação e cuidados com o bebê, pois muitas vezes a atenção é voltada apenas ao bebê.

“Todo aquele medo que você sentia sobre a amamentação some quando você vê que é a única fonte de alimento do seu filho, você não pensa em outra coisa. Tive acompanhamento com uma consultora em amamentação que foi essencial para que eu pudesse conseguir amamentar de forma correta. Com 10 dias, eu acredito que os sintomas do blues diminuíram bastante. Às vezes, sinto vontade de chorar, mas não é como antes, a importância da rede de apoio e o auxílio da minha obstetra ajudaram que não agravasse. Eu só tenho a agradecer muito ao meu marido, que foi e tem sido de extrema importância nesse período, me auxiliando o tempo todo sem me julgar”, finalizou Bianca.

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Por fim, a obstetra disse que é importante as mulheres grávidas não ficarem receosas em comentar qualquer coisa que seja na consulta do pré-natal, pois pode ser muito ‘valiosa’ a informação.

PROCURE AJUDA

O Centro de Valorização da Vida (CVV) realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, email e chat 24 horas todos os dias. Ligue 188.

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