Detentor do maior rebanho de gado de corte do país, animais destinados prioritariamente para o abate, Mato Grosso também é, por consequência, o maior produtor de couro de boi do Brasil.
Essa riqueza, que é um dos subprodutos valiosos das reses abatidas, movimenta, no país, cerca de R$ bilhões apenas com o abastecimento de curtumes espalhados por várias regiões. Locais onde o couro cru é preparado para servir de matéria-prima para uma infinidade de indústrias, que vão de calçados a vestuário, móveis, entre muitos outros produtos.
Por faltar no Estado uma rede maior de empresas voltadas ào preparo dessa matéria-prima de origem bovina, boa parte do ocuro que deixa Mato Grosso segue sem ser beneficiado, ou seja, curtido integralmente para ser utilizado por outras indústrias transformadoras.
Atividade, no entanto, enfrenta a concorrência dos sintéticos e foi alvo de questionamentos sobre impacto ambiental, mas aposta na durabilidade do produto e defende que ele é mais sustentável.
O couro está presente em vários objetos ligados ao uso cotidiano das pessoas ,como sapatos, cintos, bolsas e uma variedade enorme de acessórios..
É um dos produtos mais antigos da humanidade. Existem registros de uso da pele de animais há mais de 5 mil anos, e até antes, possivelmente, desde os primórdios de nossos ancestrais nas cavernas.
Para saber mais sobre a utilidade e importância econômica e social desse produto, leia matéria abaixo, do jornalista Rikardy Tooge, G1
No Brasil, o principal fornecedor de couro é o boi. O motivo é que aqui existe um dos maiores rebanhos do mundo: são mais de 214 milhões de animais, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Tem mais gado do que gente no país. E, com tanta oferta de animais, consequentemente, o Brasil é um dos grandes produtores mundiais de couro. É um setor que movimenta mais de R$ 8 bilhões por ano.
Atualmente, 80% da produção brasileira de couro é destinada ao mercado externo, sendo a China a principal compradora. Em 2019, a indústria foi alvo de questionamentos por partes de marcas estrangeiras em meio ao aumento de queimadas na Amazônia. Para este ano, a expectativa é que a produção brasileira seja menor por causa da queda no abate de animais no país por conta da pandemia do novo coronavírus.
Versatilidade
O boi é considerado um animal extremamente versátil, em que tudo dele é aproveitado. O algodão, por também ter essa qualidade, é conhecido como “boi vegetal”. Toda a cadeia produtiva da pecuária movimentou mais de US$ 157 bilhões em 2019. É uma das principais atividades do agronegócio brasileiro. Apesar de tantos usos possíveis com o animal, especialistas lembram que todo esse mercado só existe por um motivo: a alimentação.
“Os animais são criados por causa do alimento, da sua carne, para saciar a necessidade de comida. Nós damos destino a um produto que iria apodrecer e que teria que ser enterrado”, explica José Bello, presidente do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB).
Além do couro, existem outros destinos para os restos dos animais abatidos nos frigoríficos. O sebo pode ser usado na produção de biodiesel e produtos de higiene, por exemplo. Os ossos viram farinha que é utilizada na fabricação de ração para pets e aves.
Todo esse mercado, além do couro, como o processamento de sebo e ossos, é conhecido como reciclagem animal, uma atividade que também movimentou mais de R$ 8 bilhões no ano passado .
Onde o couro é usado?
Por definição, couro é a pele de qualquer animal que foi curtida. Esse processo de curtimento é necessário para que não apodreça após o abate. No Brasil, as peles mais comuns que passam pelos curtumes, a indústria do couro, são as de bovinos, porcos, cabras e ovelhas. Também há empresas que trabalham com peixes e jacarés, por exemplo, mas em escala menor.
A produção de couro no país segue a lógica do rebanho bovino, ou seja, está mais concentrada no Centro-Oeste. Como a pele é um material extremamente perecível, as indústrias precisam ficar próximas aos frigoríficos para que o produto não perca a qualidade.
Concorrência com o 'couro sintético'
O principal uso do couro bovino é na indústria de calçados. Outra parte segue para a indústria têxtil ou é utilizada na confecção de móveis residenciais e acabamento de automóveis.
Apesar do couro ter um mercado consolidado e séculos de conhecimento do público, a disputa com outros tecidos de origem vegetal ou sintéticos é um desafio para a atividade. “O setor de couro, nos últimos 5 anos, sofreu bastante com a entrada desses materiais”, reconhece José Bello, do CICB.
Um dos pontos de embate é a utilização do termo “couro sintético” ou “couro vegano”, tanto que existe uma lei federal que proíbe o uso do nome para produtos que não tenham origem animal. “O couro é tão nobre que tem muita gente querendo imitar. O sintético quer virar couro, mas o couro não quer virar sintético.”
Além da concorrência dos sintéticos, o algodão tem tomado uma parte de um mercado importante para o setor: a indústria de calçados. Isso porque se passou a usar mais tênis, especialmente os esportivos, do que sapatos. Mas o couro ainda tem uma aceitação boa no mercado de luxo e de acessórios, como carteiras, cintos e jaquetas.
“O couro é muito durável, quem não tem em casa aquela jaqueta ou bolsa de couro que existe há anos na família?”, questiona José Bello, do CICB.
Indústria diz que é sustentável
Os curtumes argumentam ainda que o couro é um material muito mais sustentável que seus concorrentes. “A maioria dos produtos veganos são de origem do petróleo. Cabe ao consumidor avaliar o que é mais sustentável: o couro ou um derivado de petróleo”, continua Bello. “Nós estamos em uma fase de reposicionamento do couro para mostrar que o couro é sustentável, muito mais do que artigos feitos com outros materiais, que duram pouco e geram mais resíduos”, completa.
Segundo dados das indústrias, no Brasil os frigoríficos produzem cerca de 1,5 milhão de toneladas de couro, fruto do abate dos animais. Isso daria 40 milhões de peças de couro. “Imagina se isso não fosse curtido? Faltaria cemitério para enterrar tanta pele”, afirma o presidente do CICB.
“O couro faz parte de uma economia circular, em que se aproveita tudo do boi, a indústria do petróleo ainda não completou esse ciclo. O couro não polui oceanos, por exemplo, o plástico e outros derivados do petróleo, sim”, acrescenta.
O couro e o meio ambiente
Apesar de afirmar que a atividade é sustentável, em 2019, o setor foi questionado por indústrias de roupas de outros países na mesma época em que notícias sobre o aumento de queimadas na Amazônia ganharam o mundo.
Como a pecuária é uma atividade muito concentrada nos estados da Amazônia Legal (Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão), a produção de couro entrou na mira das empresas estrangeiras.
Por que tem tanto gado na Amazônia?
Tanto que, entre agosto e setembro de 2019, duas empresas, a americana VF, dona das marcas Vans e Timberland, e a sueca H&M, uma das maiores varejistas de moda do mundo, suspenderam temporriente as compras do couro brasileiro. Elas queriam garantias de que o couro não contribui para danos ambientais.
O CICB diz que o volume negociado com essas empresas era pequeno e não soube informar se as vendas foram retomadas mais de um ano depois da crise.
De acordo com as fabricantes brasileiras, a cadeia produtiva do couro segue parâmetros de sustentabilidade por meio de dois programas de rastreabilidade: o Certificação de Sustentabilidade do Couro Brasileiro (CSCB) e o Leather Working Group (LWG, na sigla em inglês).


