A Marinha do Brasil e a Embraer decidiram unir forças para criar algo que o país nunca teve, uma aviação naval não tripulada de projeto nacional. As duas instituições firmaram um acordo de cooperação técnica para desenvolver uma linha de drones embarcados nas categorias 3, 4 e 5, além de estudar o emprego de aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical, num movimento que o setor já apelidou de Embraer Naval.
A ideia é ambiciosa. Trata-se de preparar o terreno para um futuro navio-aeródromo multifunção, capaz de operar aeronaves tripuladas e autônomas no mesmo convés. Em vez de comprar tecnologia pronta no exterior, o Brasil aposta em construir a sua, com a empresa que já o colocou no seleto clube de fabricantes de caças e cargueiros militares.
O que prevê o acordo
A parceria, conduzida pela Diretoria de Aeronáutica da Marinha, prevê uma família de drones versáteis. Eles poderão decolar e pousar na vertical, num perfil embarcado em que recebem motores elétricos nas asas, ou operar como aeronaves de asa fixa convencionais, a partir de bases em terra. Essa flexibilidade é o que permite imaginar o mesmo equipamento servindo tanto a um navio quanto a uma unidade costeira.
O acordo inclui ainda o estudo do emprego militar dos e-VTOL, as aeronaves elétricas de decolagem vertical desenvolvidas pela subsidiária de mobilidade da Embraer, e a oferta do A-29 Super Tucano para a aviação naval. É um plano de trabalho que começa a transformar conceito em produto, talhado para o ambiente de operações no mar.
Por que isso muda o jogo para a Marinha
A Marinha do Brasil já vinha testando drones de vários tipos, incluindo veículos submarinos autônomos e até drones kamikaze em desenvolvimento pelo Corpo de Fuzileiros Navais. Faltava, porém, um parceiro industrial capaz de integrar tudo isso numa linha nacional e escalável. É aí que entra a Embraer, que já mantém entendimento semelhante com a Força Aérea para um veículo aéreo não tripulado avançado.
O timing é estratégico. Num cenário em que a defesa da Amazônia Azul exige vigiar uma imensa área marítima com recursos limitados, drones autônomos são a forma mais barata e eficiente de multiplicar olhos sobre o oceano, assunto que já abordamos na reportagem sobre como a Marinha usa datas e símbolos para defender a soberania na Amazônia Azul. O detalhamento do acordo foi publicado pelo portal Infodefensa.
O salto da autonomia tecnológica
O valor do projeto vai além do equipamento. Desenvolver drones navais em casa significa formar engenheiros, criar empregos qualificados e, principalmente, não depender de fornecedores estrangeiros que podem impor restrições em momentos críticos. É a mesma lógica de soberania que move o Gripen nacional e o PROSUB, agora aplicada ao mundo dos sistemas não tripulados.
Se o plano avançar, o Brasil poderá entrar numa fronteira tecnológica que define a guerra do século, a da autonomia. Um futuro navio-aeródromo operando drones de projeto nacional sobre o Atlântico Sul seria um salto de capacidade comparável ao do submarino nuclear. A Embraer Naval ainda é um começo, mas é o tipo de aposta que separa os países que compram defesa dos que a constroem.


