Quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Nevasca rara cobriu o Deserto do Atacama em agosto; entenda

Duas tempestades cobriram o Deserto do Atacama de neve em agosto; Nasa divulga imagens

Nevasca rara cobriu o Deserto do Atacama em agosto; entenda

O Deserto do Atacama, um dos lugares mais secos da Terra, teve áreas cobertas por um raro manto de neve em agosto de 2026, após duas tempestades de inverno consecutivas no norte do Chile. O fenômeno chamou atenção pela extensão: a neve avançou dos Andes em direção ao oeste, atravessou o núcleo hiperárido do deserto e chegou perto do litoral do Pacífico.

Antes e depois no planalto de Chajnantor

Registros feitos pelos satélites Landsat 8 e 9 nos dias 6 e 14 de agosto mostram a transformação da paisagem no planalto de Chajnantor, dentro do complexo vulcânico Altiplano-Puna. A região abriga o observatório ALMA, um dos conjuntos de radiotelescópios mais poderosos do planeta. Com a neve e os ventos fortes, o observatório suspendeu temporariamente as operações e colocou as antenas em modo de proteção contra intempéries.

Segunda tempestade ampliou a área coberta

Na segunda quinzena de agosto, outra tempestade levou a neve para uma área ainda maior. Uma imagem obtida pelo satélite Terra em 19 de agosto mostra uma extensa faixa branca partindo dos Andes, atravessando uma das regiões mais áridas do planeta e alcançando áreas próximas ao litoral, ao sul da cidade portuária chilena de Antofagasta. Observatórios astronômicos instalados na faixa costeira também suspenderam operações durante o evento.

A neve no Atacama não é inédita. A região já registrou episódios semelhantes em 2011 e 2025. Segundo a Nasa, eventos assim ocorrem apenas algumas vezes por década, ou podem passar uma década sem acontecer. O diferencial deste ano foi a extensão excepcional da cobertura, que chegou muito mais perto do Pacífico do que o comum.

O que explica a nevasca no Atacama

A maior parte da precipitação de inverno da região vem de sistemas conhecidos como baixas isoladas, que se separam da corrente de jato e ocasionalmente atingem o norte do Chile. Foi o que ocorreu em 2025, segundo René Garreaud, cientista atmosférico da Universidade do Chile. No fim de agosto de 2026, a tempestade também se originou de uma baixa isolada, mas o sistema se desprendeu de uma área de baixa pressão excepcionalmente grande, que se estendia por uma enorme porção do Hemisfério Sul, desde a ponta da América do Sul até as regiões subtropicais.

A perturbação atmosférica combinada à umidade costeira abundante gerou precipitação em uma faixa incomumente ampla, alcançando alto-mar, a costa, o interior do Atacama e a Cordilheira dos Andes. Garreaud afirmou que os totais atingiram uma magnitude raramente vista em uma região extremamente árida. Em algumas áreas, a precipitação ocorreu como chuva: em Taltal, na costa norte do Chile, foram quase 40 milímetros em três dias, cerca de dez vezes a média anual.

El Niño e os impactos no Chile

As fortes chuvas provocaram deslizamentos de terra e enchentes repentinas em partes do norte do Chile. O Serviço Nacional de Prevenção e Resposta a Desastres (Senapred) informou que milhares de pessoas foram afetadas e que centenas de casas sofreram danos significativos.

Para Garreaud, o fortalecimento do El Niño é o pano de fundo para o inverno anormalmente úmido no centro-norte do Chile. Além das tempestades de agosto, um evento importante em julho já havia causado impactos na região de Norte Chico. Durante o El Niño, a alta subtropical do Pacífico, que normalmente mantém a região seca, enfraquece, enquanto uma alta de bloqueio tende a se formar no Pacífico Sul, perto da ponta do continente. Juntas, essas mudanças deslocam a trajetória das tempestades do Hemisfério Sul em direção ao equador.

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