Sexta-feira, 16 de outubro de 2026

No Dia da Visibilidade Lésbica, mulheres retratam preconceito no trabalho

A minha supervisora na época era quem puxava esses comentários com outros funcionários, e enquanto eu não disse pra ela que eu era lésbica, er

No Dia da Visibilidade Lésbica, mulheres retratam preconceito no trabalho
Foto: Arquivo Colíder News

No Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, comemorada neste sábado (29), mulheres retrataram ao Hipernotícias situações de discriminação e preconceito no ambiente de trabalho. Assédio e lesbofobia (violência contra lésbicas) fizeram e ainda fazem parte da vida profissional da psicóloga de Cuiabá, Ana Carolina Oliveira, 24 anos, que afirma não recordar de um lugar onde não tenha sido discriminada por sua orientação sexual.

“No meu primeiro trabalho, aos 16 anos, em um call center, eu me sentia uma espécie de alien, como se eu fosse um objeto de estudo. Eu, na minha bancada, eram vários cochichos. A minha supervisora na época era quem puxava esses comentários com outros funcionários, e enquanto eu não disse pra ela que eu era lésbica, era como se ela não sossegasse. Ela queria ouvir da minha boca, ficava me jogando muitas indiretas”, relata ao HNT.

O preconceito baseado na sua orientação sexual também foi motivo de constrangimento em outros ambientes profissionais. A psicóloga afirma ainda que aos 17 anos trabalhou em um escritório de contabilidade onde chegou a ser assediada sexualmente.

“O meu chefe fazia muito isso, olhava para os meus seios, para a minha bunda. Ele tinha muito a questão de fetichização, ele começava a perguntar questões muito pessoais. Foi um lugar que acabou comigo e me rendeu muito terapia. Eu me sentia extremamente assustada naquele lugar. Eu acha que em qualquer momento ele poderia fazer alguma coisa comigo. Ele assistia filmes pornôs no computador dele. Eu fiquei 3 anos lá e não sai porque eu achei que não iria conseguir pagar a faculdade, eu tinha que dar conta das coisas, de materiais”, afirma Ana Carolina.

Trabalhando em uma instituição de ensino, ela recorda que em certo ponto, um colega de trabalho cortou contato após descobrir sobre a sua sexualidade. “Ali era o preconceito velado, do não dito, em que você não se sente bem. São os olhares, as pessoas me advertiam muito. Eu me sentia muito mal, mas não conseguia ir para o enfrentamento. Eu evitava ir ao banheiro com as mulheres professoras, porque eu tinha receio de qualquer coisa, de que as pessoas pudessem me acusar de alguma coisa”. 

Outra mulher que relata a lesbofobia velada é a publicitária Priscila Campos, de 29 anos. Ela diz que nunca passou por situações explícitas, mas que sempre teve que lidar com comentários machistas e olhares constrangedores.

Priscila Campos

 A publicitária Priscila Campos, 29, relata que já sofreu episódios de constrangimentos por causa da sua sexualidade.

“Eu já sofri lesbofobia de forma mais implícita, nos olhares. Nos olhares foi o que mais aconteceu, principalmente quando eu era casada. As pessoas perguntavam quem era o homem, que provavelmente devia ser eu. Fora do ambiente de trabalho também, na rua, já me chamaram de sapatão, macho-fêmea. Isso aí era de praxe, hoje em dia é mais o olhar, em qualquer lugar que eu vou. Eu recebo no mínimo umas cinco olhadas, dos pés à cabeça”.

A publicitária também possui diagnóstico de depressão, ansiedade e bipolaridade. Atualmente, ela faz tratamentos com medicamentos e afirma que a lesbofobia que já sofreu pode ter tido influência.

“A minha psicóloga diz que não dá para a gente identificar, ao certo, a principal raiz. Eu cresci na igreja, então quando eu comecei a sentir atração por mulheres eu me condenei. Eu orava, fazia vigílias, jejum, perdia perdão para Deus. Isso por 3 anos. Já tentei suicídio, não só por causa disso. Mas o início dos problemas psicológicos vieram daí, de que é errado amar alguém do mesmo sexo”. comenta.

De acordo com o Grupo Estadual de Crimes Contra a Homofobia, entre 2019 até o dia 27 de agosto de 2020 foram registrados três suicídios de mulheres lésbicas em Mato Grosso e três homicídios. Ao total, foram 42 ocorrências de outros tipos envolvendo lésbicas este ano, contra 37 no ano passado.

Dados do Dossiê do Lesbocídio, feito pelas pesquisadoras Milena Carneiro, Maria Clara Dias e Sunane Soares, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), apontam que as diversas violências sofridas por conta da orientação sexual podem resultar no suicídio.

“Tal situação de isolamento, desamparo, desinformação e sistemáticas reprovações e retaliações, movidas por consecutivas tentativas de heterossexualização da lésbica, podem levar a uma condição de incapacidade de construção de uma autoestima positiva e estável. Nestes casos é comum a desistência da busca por enquadramento que culmina no suicídio”, ressalta o Dossiê.

De acordo com o trabalho, em 2014, Mato Grosso foi responsável por 19% do número total de mortes de mulheres lésbicas no Brasil, seguido da Paraíba, com 13%. Contudo, em mortes acumuladas do mesmo período até 2017, o estado aparece com 3%, enquanto São Paulo lidera com 20%.

No dia 13 de junho de 2019, o Supremo Tribunal Federal determinou que a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero é crime pela Lei 7.716/89, que também pune racismo. Os crimes contra a comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais) podem resultar em pena de um a três anos, além de multa.

Esta informação foi útil?Compartilhe com seus contatos.
22ª Festa do Carneiro
Publicidade 22ª Festa do Carneiro Conhecer parceiro