As dunas de gesso do Parque Nacional White Sands, no Novo México, guardam evidências que podem transformar a compreensão sobre a chegada dos primeiros habitantes às Américas. Em meio à paisagem desértica, 61 pegadas humanas fossilizadas foram encontradas e datadas de aproximadamente 21 mil a 23 mil anos, segundo a datação por radiocarbono de camadas adjacentes de sementes de plantas.
A descoberta contrariou a visão predominante de que os humanos teriam chegado à atual América do Norte entre 13 mil e 16 mil anos atrás, vindos da Ásia através da Beríngia, uma antiga ponte terrestre que posteriormente ficou submersa.
Pegadas que ninguém acreditava serem humanas

Segundo a CNN, a história começou em 2009, quando David Bustos, gerente de recursos integrados de White Sands, avistou marcas que pareciam ser pegadas humanas nas margens do antigo Lago Otero.
As marcas estavam próximas de pegadas de mamute e apresentavam contornos semelhantes aos de um pé humano. Mesmo assim, Bustos teve dificuldade para convencer outros pesquisadores de que elas poderiam ser tão antigas quanto os rastros dos animais.

Alguns chegaram a sugerir que as marcas poderiam ter sido deixadas por um camelo escorregando na lama. Um ano depois, novas pegadas apareceram novamente próximas a rastros de mamute, mas ainda havia dúvidas sobre sua idade.
A situação mudou em janeiro de 2016, quando Bustos encontrou pegadas de mamute diretamente sobre pegadas humanas. Para ele, aquilo representava a evidência mais clara até então de que os dois grupos haviam coexistido.
Uma convivência com a megafauna

A sobreposição das pegadas também trouxe novas questões sobre a relação entre os humanos e os grandes animais da Era do Gelo.
Desde a década de 1960, teorias apontavam que a chegada dos humanos poderia ter contribuído para a extinção da megafauna na América do Norte. Porém, os rastros encontrados em White Sands sugeriram que humanos e esses animais conviveram por cerca de 10 mil anos antes do desaparecimento da megafauna.
As descobertas continuaram. Em determinado momento, Bustos encontrou uma pegada humana fossilizada dentro da trilha deixada por uma preguiça-gigante-de-harlan, animal que podia atingir três metros de altura e pesar mais de uma tonelada.
“Aí está, a confirmação: eles estavam lá ao mesmo tempo”, lembrou Bustos.
Datação foi alvo de questionamentos

A idade das pegadas também foi contestada por alguns arqueólogos. A principal questão era relacionada às plantas aquáticas utilizadas para a datação, que poderiam ter absorvido carbono dissolvido na água, fazendo com que os vestígios parecessem mais antigos.
Por isso, Bustos e Matthew Bennett, especialista em pegadas antigas da Universidade de Bournemouth, apresentaram novas evidências em um artigo de pesquisa publicado em 2023. O trabalho utilizou a datação por radiocarbono do pólen de coníferas e a análise de grãos de quartzo para reafirmar a idade apresentada anteriormente.
Desde então, novas pegadas continuam sendo encontradas em White Sands. Algumas revelam cenas que parecem registrar momentos da vida cotidiana, como uma mulher adulta carregando uma criança pequena durante uma jornada de mais de 1,5 quilômetro.
Outros rastros indicam crianças brincando em poças de água acumuladas em pegadas de preguiças-gigantes e grupos utilizando uma forma primitiva de travois, espécie de carrinho de mão sem rodas.

Atualmente, as trilhas fossilizadas não estão abertas ao público para reduzir o risco de danos aos sítios arqueológicos. Ainda assim, diversas pegadas humanas estão expostas em uma mostra no centro de visitantes de White Sands desde 2024.
Para Bustos, cada nova marca encontrada ajuda a revelar histórias de pessoas que caminharam pelo local milhares de anos atrás.


