Ela pediu que seu nome não fosse divulgado, mas decidiu tornar público seu relato como forma de alertar outras pessoas sobre os riscos da dependência em jogos e apostas.
Ela poderia ter permanecido em silêncio. Poderia simplesmente tentar reconstruir a própria vida longe dos olhos de outras pessoas e guardar para si uma história marcada por perdas, dívidas, problemas de saúde e sofrimento emocional. Mas decidiu fazer diferente. Procurou o Portal Alegrete Tudo, pediu que seu nome fosse preservado e contou, em detalhes, como uma experiência que começou de maneira aparentemente banal acabou se transformando em um dos períodos mais difíceis de sua vida.
É uma alegretense que fala. Uma mulher que reconhece os próprios erros, que não tenta retirar de si a responsabilidade pelas escolhas que fez, mas que também quer chamar a atenção para um problema que, segundo ela, ainda é tratado por muita gente como brincadeira, diversão ou simplesmente uma maneira de tentar ganhar dinheiro. Para ela, porém, o resultado foi muito diferente. “Perdi minha paz, minha saúde mental e física. Perdi minhas economias e me endividei com parentes”, conta.
O pedido para que sua identidade seja preservada não diminui a força do relato. Pelo contrário. A personagem decidiu expor uma parte extremamente dolorosa de sua vida justamente porque acredita que sua experiência pode servir de alerta para outras pessoas que estejam começando a apostar ou que já percebam que estão perdendo o controle.
Tudo começou em um salão de beleza
A história começou de uma forma que, à primeira vista, poderia parecer absolutamente comum. Ela estava em um salão de beleza quando foi apresentada ao jogo. Não imaginava, naquele momento, que aquela experiência aparentemente casual poderia desencadear uma sequência de acontecimentos que posteriormente afetaria sua vida financeira, sua saúde, sua rotina e suas relações.
O contato com o chamado “Jogo do Tigrinho” aconteceu nesse ambiente. O jogo ganhou enorme popularidade no Brasil nos últimos anos, inserido em um universo maior de plataformas digitais que oferecem diferentes modalidades de apostas e jogos online. A facilidade de acesso pelo celular é uma das características desse mercado: a pessoa não precisa se deslocar até um estabelecimento específico e pode apostar praticamente a qualquer hora.
O problema aparece quando o jogo deixa de ocupar um espaço de entretenimento e passa a controlar a rotina do jogador. O próprio Ministério da Saúde passou a tratar o tema como uma questão de saúde pública. Segundo a pasta, o chamado transtorno do jogo é caracterizado pela dificuldade de controlar o impulso de apostar mesmo diante de prejuízos financeiros, familiares, profissionais e emocionais. Entre os sinais estão ansiedade, culpa, isolamento social e dificuldades para interromper o comportamento.
Foi exatamente essa transformação que a alegretense diz ter experimentado.
“Naquele dia eu estava assinando minha ruína, meu pior pesadelo”, afirma.
Quando o jogo deixa de ser jogo
No começo, como acontece com muitas pessoas, havia a expectativa de ganhar. A possibilidade de obter dinheiro rapidamente pode ser um dos elementos que tornam as apostas atraentes, especialmente quando o acesso é simples e imediato. Mas o que parecia uma oportunidade passou, pouco a pouco, a ocupar um espaço cada vez maior na vida da entrevistada.
Ela conta que perdeu as economias e passou a contrair dívidas com familiares. O dinheiro que deveria atender às necessidades da vida cotidiana começou a ser comprometido pelas apostas, criando uma situação que, posteriormente, se tornou ainda mais difícil de controlar.
A consequência não foi apenas financeira. Ela afirma que a situação começou a afetar sua saúde física e mental e que, atualmente, enfrenta problemas que atribui diretamente ao período em que esteve envolvida com o jogo.
“Perdi minha paz, minha saúde mental e física.”
O Ministério da Saúde confirma que os impactos das apostas problemáticas podem ultrapassar muito a questão financeira. Um guia nacional lançado pela pasta em janeiro deste ano relaciona os problemas associados às apostas online a situações como ansiedade, depressão, endividamento e ruptura de vínculos.
Ou seja: não se trata apenas de perder dinheiro. Para algumas pessoas, o jogo pode desencadear um processo capaz de comprometer a saúde, a convivência familiar, o trabalho e a própria percepção que o indivíduo tem de sua vida.
“Eu sei que jogava porque eu queria”
Um dos aspectos mais fortes do depoimento é a maneira como a entrevistada reconhece a própria responsabilidade.
Ela não tenta dizer que foi obrigada a jogar. Não afirma que outra pessoa colocou o celular em sua mão ou a obrigou a fazer apostas. Ao contrário, faz questão de reconhecer que tomou suas próprias decisões.
“Eu sei que jogava porque eu queria. Não estou eximindo minha culpa.”
Mas essa consciência não impede que ela questione o comportamento de pessoas que, segundo seu relato, apresentam as plataformas a outras pessoas e podem receber benefícios pelas indicações.
É nesse ponto que surge uma das expressões mais fortes utilizadas por ela: “amigos da onça”.
Na sua avaliação, existem pessoas que simplesmente não compreendem o tamanho do problema que podem estar ajudando a criar. Mas também acredita que existem outras que conhecem os riscos e, mesmo assim, continuam indicando as plataformas porque obtêm algum tipo de vantagem.
“Tem gente que não tem noção do que isso faz, mas tem espertalhões que sabem e se aproveitam dos outros”, afirma.
O relato, nesse aspecto, chama atenção para uma característica importante do universo das apostas digitais: a divulgação por meio de redes sociais, influenciadores e indicações pessoais ajudou a aproximar essas plataformas do cotidiano de milhões de brasileiros. O que antes poderia parecer distante passou a ser oferecido diretamente na tela do celular.
“Você traz sorte para mim”
Entre tantas lembranças, uma frase ficou particularmente marcada.
A pessoa que apresentou o jogo à alegretense teria dito que ela “trazia sorte”.
Naquele momento, a frase foi recebida de maneira positiva. Ela ficou feliz com o comentário. Com o passar do tempo, entretanto, passou a interpretar aquela situação de outra maneira.
“O mais irônico foi que um dia a pessoa que me indicou disse que eu trazia sorte para ela. Eu fiquei feliz naquele dia, mas depois entendi que trazia sorte para ela enquanto a desgraça caía na minha vida.”
É uma lembrança que resume, para ela, o sentimento de ter percebido tarde demais que algumas relações estabelecidas ao redor das apostas podem ter interesses diferentes daqueles que o jogador imagina.
Em determinado momento, ela chegou a procurar a pessoa que havia lhe apresentado o jogo. Não para negar sua responsabilidade, mas porque esperava algum reconhecimento diante do sofrimento que estava enfrentando.
Esperava, pelo menos, um pedido de desculpas.
Não recebeu.
As consequências chegaram à vida cotidiana
Hoje, a entrevistada diz viver uma realidade completamente diferente daquela que tinha antes de se envolver com as apostas. O problema financeiro se somou às consequências emocionais e físicas, criando uma situação que tornou tarefas simples do cotidiano extremamente difíceis.
Ela relata que tem medo de sair de casa e que enfrenta episódios de pânico. Conta que não consegue sequer ir ao mercado normalmente e que, quando precisa sair, muitas vezes passa mal.
Quando a saída é para procurar atendimento médico, a dificuldade permanece.
O quadro também trouxe uma consequência especialmente dolorosa: segundo ela, atualmente não possui dinheiro sequer para realizar o tratamento médico de que necessita.
“Hoje não tenho dinheiro nem para fazer meu tratamento médico.”
A família, entretanto, permanece ao seu lado. Ela aponta os filhos como sua principal base e reconhece que o apoio familiar tem sido fundamental para enfrentar o momento.
“Minha família é minha base. Meus filhos me apoiam.”
Ainda assim, admite que a recuperação não começou da maneira que gostaria. Diz que ainda não conseguiu reunir forças para iniciar o tratamento e reconhece que já teve recaídas.
O jogo como problema de saúde
O relato da alegretense ocorre justamente em um momento em que o Brasil passou a tratar de maneira mais estruturada os problemas relacionados às apostas.
Em 2026, o Ministério da Saúde lançou uma campanha nacional de orientação sobre os riscos das apostas online e passou a ampliar a oferta de atendimento especializado. A orientação oficial destaca que apostar por mais tempo ou gastar mais dinheiro do que o planejado, pensar frequentemente em jogos, além de perceber alterações no humor, no sono, na rotina ou nas relações, são sinais que merecem atenção.
O governo também criou mecanismos para quem percebe que perdeu o controle. Uma dessas ferramentas é a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, que permite ao próprio cidadão solicitar o bloqueio de suas contas nas plataformas de apostas autorizadas. O sistema também impede a abertura de novas contas com aquele CPF e interrompe o recebimento de publicidade direcionada das empresas de apostas.
A existência dessas ferramentas demonstra uma mudança importante na maneira como o problema passou a ser encarado: não apenas como uma questão de responsabilidade individual, mas também como uma situação que pode exigir prevenção, tratamento e acompanhamento profissional.
O SUS também entrou nessa discussão
Uma das principais novidades é a ampliação do atendimento pelo Sistema Único de Saúde.
Desde agosto de 2026, o SUS passou a oferecer até 100 mil teleatendimentos mensais em saúde mental para pessoas com necessidades relacionadas a jogos e apostas e também para seus familiares. O atendimento é remoto, sigiloso e feito por profissionais capacitados, incluindo psicólogos e enfermeiros.
O acesso pode ser feito pelo aplicativo Meu SUS Digital. O serviço funciona como uma porta de entrada para a Rede de Atenção Psicossocial e pode orientar o paciente sobre os próximos passos do cuidado.
O Ministério da Saúde também disponibiliza um autoteste que ajuda a pessoa a refletir sobre sua relação com jogos e apostas. A ferramenta não é um diagnóstico médico, mas pode ajudar a identificar sinais que merecem atenção.
Para a alegretense que conversou com o PAT, buscar ajuda é justamente uma das mensagens mais importantes que gostaria de deixar.
“Peçam ajuda.”
Uma história que ainda está sendo reconstruída
A entrevistada sabe que ainda terá uma longa caminhada pela frente. O dinheiro perdido não retorna de uma hora para outra. As dívidas continuam existindo. Os problemas de saúde precisam ser tratados. E as consequências emocionais de tudo o que aconteceu não desaparecem simplesmente porque a pessoa decidiu parar.
Ela também sabe que pode haver recaídas.
Mas existe algo diferente agora: ela reconhece o problema.
E, principalmente, decidiu falar sobre ele.
Não quer que sua história seja contada para despertar pena. Tampouco pretende se apresentar como alguém que não teve responsabilidade pelas próprias escolhas. O que ela quer é que outras pessoas percebam que existe uma linha tênue entre apostar ocasionalmente e perder o controle sobre o comportamento.
Sua experiência mostra que essa linha pode ser ultrapassada sem que a pessoa perceba imediatamente.
O que começa com uma aposta pode se transformar em outra aposta para recuperar o dinheiro perdido. Depois, uma nova tentativa para recuperar o que foi perdido na anterior. E o ciclo pode se tornar cada vez mais difícil de interromper.
É justamente por isso que o Ministério da Saúde orienta que sinais de perda de controle sejam levados a sério e que a busca por ajuda aconteça o quanto antes.
“Espero que ninguém passe pelo que estou passando”
Ao final do seu relato, a alegretense não pede dinheiro, não pede exposição e não pede que ninguém seja identificado.
Pede apenas que sua experiência seja ouvida.
Ela quer que outras pessoas tenham cuidado antes de entrar em um caminho que, para ela, trouxe consequências que jamais imaginou enfrentar.
“Espero que ninguém passe pelo que estou passando.”
Também deixa uma mensagem para aqueles que hoje podem estar vivendo uma situação semelhante, mas ainda sentem vergonha de admitir que o jogo deixou de ser diversão.
“Fica o alerta.”
E há, ainda, uma frase que revela que, apesar de tudo, existe nela o desejo de reconstruir a própria vida:
“Que Deus me ajude e me proteja de pessoas mal-intencionadas e eu possa refazer minha vida e ter saúde novamente.”
A mulher que procurou o Portal Alegrete Tudo pediu que seu nome fosse preservado.
O PAT respeita esse pedido.
Mas sua história merece ser conhecida.
Porque, por trás das telas dos celulares, dos anúncios, das promessas de dinheiro rápido e da aparente diversão, existem pessoas reais. Pessoas que podem perder dinheiro, saúde, relações, tranquilidade e, em casos mais graves, a própria esperança.
E é justamente por isso que o alerta dessa alegretense precisa ser levado a sério.
Fica o alerta.
Onde buscar ajuda
O Ministério da Saúde orienta que pessoas que estejam enfrentando problemas relacionados a jogos e apostas podem procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS), um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) ou utilizar o teleatendimento disponível pelo SUS. O atendimento também pode incluir familiares e pessoas da rede de apoio.
Para quem deseja interromper o acesso às plataformas autorizadas, o Governo Federal mantém a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, que permite bloquear as contas de apostas vinculadas ao CPF.


