O tráfico de drogas, as atividades ligadas ao garimpo e a lavagem de dinheiro por meio de empresas de fachada estão entre as principais fontes de recursos que teriam permitido a Angélica Saraiva de Sá, conhecida como “Angeliquinha”, acumular patrimônio e ampliar sua influência no crime organizado em Mato Grosso.
A informação foi divulgada pelo delegado Victor Hugo de Freitas, da Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Organizado (Draco), que investiga a atuação da mulher apontada como uma das principais lideranças de uma facção criminosa no Estado.
Segundo o delegado, as investigações identificaram movimentações financeiras expressivas relacionadas às atividades criminosas desenvolvidas principalmente nas regiões de Alta Floresta e Nova Bandeirantes, no extremo norte mato-grossense.
A suspeita é de que parte dos recursos obtidos com o tráfico de entorpecentes e outras atividades ilegais tenha sido movimentada por empresas de fachada, utilizadas para ocultar a origem do dinheiro e beneficiar pessoas próximas à investigada.
“Ela movimenta uma quantia de dinheiro muito alta com tráfico de drogas e outras atividades relacionadas à organização criminosa”, afirmou o delegado.
De acordo com Victor Hugo, a atuação da investigada também alcançava atividades relacionadas aos garimpos existentes naquela região do Estado.
“Ela beneficiava a família dela lavando dinheiro por meio de empresa de fachada”, acrescentou.
As declarações apontam para uma possível conexão entre o tráfico de drogas, a exploração mineral e mecanismos de ocultação de patrimônio. A investigação, entretanto, ainda precisa esclarecer a extensão dessas relações, identificar eventuais participantes e demonstrar a origem dos recursos movimentados.
OPERAÇÃO SHOWDOWN – A investigação sobre o patrimônio atribuído ao grupo ganhou força com a Operação Showdown, deflagrada em março deste ano pela Polícia Civil.
A operação identificou movimentações superiores a R$ 20 milhões em aproximadamente um ano e sete meses, consideradas incompatíveis com a renda declarada pelos investigados.
Ao todo, foram cumpridas 31 ordens judiciais, incluindo mandados de prisão e busca, sequestro de veículos e imóveis, bloqueios de contas bancárias e suspensão de atividades de pessoas jurídicas.
Entre os investigados estavam familiares de Angeliquinha, suspeitos de integrar uma estrutura de apoio financeiro e operacional à organização criminosa.
Para a Polícia Civil, o objetivo das medidas patrimoniais é impedir que recursos de possível origem ilícita continuem financiando as atividades da facção. A responsabilidade individual dos envolvidos e a origem dos bens dependem de comprovação nos processos judiciais.
CONEXÃO COM A BOLÍVIA – Outro ponto investigado é a permanência de Angeliquinha em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, onde foi localizada em uma residência de alto padrão após passar mais de um ano foragida.
A Polícia Civil suspeita que sua presença no país vizinho não estivesse relacionada apenas à tentativa de escapar da Justiça brasileira, mas também à possibilidade de participar de negociações de drogas e movimentações financeiras em benefício da facção.
A hipótese ainda não foi comprovada.
Os investigadores também procuram identificar quem teria financiado a estrutura utilizada pela foragida, incluindo imóveis, veículos e outros recursos.
Angeliquinha fugiu da Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto May, em Cuiabá, em agosto de 2025. Foi capturada pelas autoridades bolivianas, em cooperação com a Polícia Civil de Mato Grosso, no dia 22 de setembro deste ano.
Transferida de volta para Cuiabá na terça-feira (20), ela retornou à mesma penitenciária de onde havia fugido. A Justiça determinou sua permanência inicial por seis meses em Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), com restrições mais rigorosas de contato e circulação.
Angeliquinha acumula condenações que somam mais de 260 anos de prisão por diferentes crimes, incluindo homicídios, tráfico de drogas e organização criminosa.
A Polícia Civil pretende agora aprofundar o rastreamento dos recursos financeiros, identificar eventuais colaboradores e esclarecer como as atividades atribuídas ao grupo se conectavam aos garimpos do norte de Mato Grosso e às operações criminosas na Bolívia.


