A soja brasileira caminha para uma safra praticamente do mesmo tamanho da anterior em 2026/7. Nos cálculos da HedgePoint Global Markets, consultoria de commodities, a produção brasileira deve alcançar 181,7 milhões de toneladas, um crescimento de 0,1% em relação à temporada anterior. Desconsiderando temporadas de quebra, o avanço pode ser um dos menores em cerca de 30 anos.
Segundo a consultoria, depois de anos de expansão acelerada, custos elevados, margens menores e crédito mais restrito estão diminuindo o apetite do produtor por novas áreas.A HedgePoint estima que a área colhida avance apenas 0,9%, de 48,8 milhões para 49,2 milhões de hectares — cerca de 400 mil hectares adicionais. A produtividade média, por sua vez, pode recuar 0,8%, de 3,72 para 3,69 toneladas por hectare.Para Luiz Roque, coordenador de Inteligência de Mercado da consultoria, a combinação ajuda a explicar por que o crescimento perde velocidade.
“Você tinha margens de dois dígitos, três dígitos. Hoje a gente está falando de uma margem de 10%. Então, naturalmente, o produtor vai ficar mais receoso de fazer investimentos”, afirmou.
Uma combinação de fatores de cinco anos para cá levou a esse contexto, comoa queda no preço das commodities e a alta na produção, enquanto osprodutores fizeram grandes investimentos - mas o principal é o aumentodos custos, especialmente dos fertilizantes. Como o Brasil importa cerca de85% desses insumos, a valorização média do dólar nos últimos anos ampliouessa pressão.
"Os custos de produção nunca voltaram para os níveis anteriores, enquanto opreço das commodities voltou. Logo, o produtor continuou pagando mais caropara formar a lavoura", diz Joana Colussi, pesquisadora da Universidade dePurdue, nos Estados Unidos.
Um estudo dela, em parceria com outros pesquisadores, com fazendas-modeloem Mato Grosso - principal estado produtor -, mostra que os custos totaiscresceram 96%, passando de 172 dólares para 337 dólares por tonelada de2021 a 2025.
No mesmo período, a produção brasileira de soja cresceu 40%, em razão demelhor produtividade e da forte demanda internacional, especialmente daChina, principal compradora do grão brasileiro.
As margens caem desde 2021/2022 e, na atual safra, devem atingir 3,9% -eram 55,6% em 2020, avalia Carlos Cogo, CEO da Cogo Consultoria.Os números de Sorriso, em Mato Grosso, ajudam a dimensionar essa virada. Amargem média da soja chegou a se aproximar de 200% em 2021/22, períodomarcado pela disparada das commodities. Para 2025/26, a estimativa está em10% e, para 2026/27, em apenas 8%, segundo a Hedgepoint.
O custo de produção, que estava em R$ 46,40 por saca em 2017/18, devealcançar R$ 105,50 por saca em 2026/27. No mesmo intervalo, o preço médiorecebido pelo produtor teria avançado de R$ 67,10 para R$ 114 por saca.
Mais soja e menos investimento
A cautela do produtor contrasta com o desempenho das exportações. Atéagosto, o line-up brasileiro somava 95,2 milhões de toneladas, acima das 86,5milhões registradas no mesmo período de 2025. A HedgePoint projeta que osembarques alcancem 114 milhões de toneladas em 2026, o que representariaum novo recorde.
O resultado dá sequência ao avanço registrado no ano passado. Em 2025, emmeio à disputa comercial entre Estados Unidos e China, o Brasil exportoucerca de 108,6 milhões de toneladas de soja.
A China respondeu por aproximadamente 80% desse volume, com comprasentre 85 milhões e 87 milhões de toneladas.
Esse fluxo pode sofrer ajustes nos próximos meses com a entrada da nova safraamericana e o andamento das negociações entre Washington e Pequim.Donald Trump, presidente dos EUA e Xi Jinping, da China, devem se encontrarem setembro para tratar do tema.No ano passado, segundo Trump, a China se comprometeu a comprar 25milhões de toneladas dos EUA, em uma tentativa de resolver o impasse com opaís asiático.
Ainda assim, a força das exportações não deve ser suficiente para acelerarsignificativamente a expansão das lavouras brasileiras. A HedgePoint estimaum acréscimo de cerca de 400 mil hectares em 2026/27.
Roque, analista da consultoria. considera otimistas projeções que trabalhamcom um avanço próximo de 1,5 milhão de hectares diante das margens maisestreitas e das condições financeiras enfrentadas pelos produtores.
O crescimento também deve ser desigual pelo país. Norte e Nordeste tendem aregistrar os maiores avanços proporcionais. No Rio Grande do Sul, aconsultoria trabalha com maior cautela depois de sucessivas safrasproblemáticas afetarem a situação financeira dos produtores.
O clima acrescenta outra incerteza. A estimativa de 181,7 milhões de toneladasconsidera uma produtividade próxima da normalidade e ainda não incorporaeventuais perdas provocadas pelo El Niño.
Projeções da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA) estimaum fenômeno climático super forte a partir de setembro, período de plantio emalguns estados.A HedgePoint avalia que ainda é cedo para estimar qualquer quebra.O comportamento das chuvas entre setembro e outubro deve oferecerindicações mais claras sobre o desenvolvimento das lavouras e o tamanho dapróxima safra.
A perda de ritmo fica mais evidente quando comparada à expansão da últimadécada. Desde 2016/17, a área brasileira de soja cresceu 45%, de 33,9 milhõespara uma projeção de 49,2 milhões de hectares. No mesmo período, aprodução avançou de 114,9 milhões para 181,7 milhões de toneladas.
Por que a soja deve ter menor crescimento da produção em 30 anos no Brasil
Com custos elevados e margens menores, produtores reduzem investimentos, enquanto exportações seguem em níveis recordes



