A direção estadual do Partido dos Trabalhadores (PT) repudiou ameaças de demissão, boicotes comerciais e manifestações de preconceito contra eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Mato Grosso. Em nota divulgada nesta terça-feira (27), a legenda petista cobrou providências do Governo do Estado, do Ministério Público, do Judiciário, da Defensoria Pública e das forças de segurança para investigar as denúncias e responsabilizar eventuais infratores.
A manifestação ocorre após alguns empresários que incoformados com a derrota de Flávio Bolsonaro (PL) defenderem boicotes a comerciantes de esquerda, a demissão de trabalhadores petistas e até restrições à contratação de pessoas por suas convicções políticas. Os relatos também incluem manifestações contra migrantes que chegam ao estado em busca de emprego.
“São práticas incompatíveis com os princípios democráticos e com o respeito à dignidade humana. Nenhum cidadão deve ser perseguido, perder seu emprego ou ter seu sustento ameaçado por causa de seu voto”, afirma o PT na nota.
A legenda também pediu que entidades empresariais do comércio, da indústria e do agronegócio se posicionem publicamente contra a perseguição econômica e a intolerância política. O partido defende que trabalhadores tenham seus direitos protegidos e que as denúncias sejam apuradas pelos órgãos competentes.
Ao defender medidas contra as práticas denunciadas, o partido argumenta que as divergências eleitorais não podem servir de justificativa para ameaçar empregos, restringir oportunidades profissionais ou discriminar cidadãos por sua origem.
“Mato Grosso precisa de paz, respeito e união. A prosperidade deve ser construída com trabalho e liberdade, jamais com medo, exclusão ou perseguição”, diz outro trecho da nota.
Além dos boicotes e perseguições, Mato Grosso registrou ao menos três casos de violência contra eleitores de Lula nos últimos dias. Em General Carneiro, um vereador foi preso por atirar contra pessoas que celebravam em uma lanchonete próxima à casa dele no domingo. Em Campo Novo do Parecis, um policial civil de 56 anos foi morto depois de uma confusão em que o suspeito perguntou se havia eleitores de Lula em um bar antes de abrir fogo. Em Cuiabá, na região do Distrito da Guia, dois irmãos morreram após desentendimento e troca de tiros em um bar, também com discussão sobre política, na noite de sábado (24).
BOICOTES A PETISTAS
Em Lucas do Rio Verde, mensagens atribuídas a integrantes de grupos de WhatsApp mostram uma mobilização para reunir nomes de comerciantes que teriam votado em Lula ou comemorado sua vitória nas urnas. A proposta era divulgar os estabelecimentos para incentivar consumidores a deixar de comprar nesses locais.
Nas conversas, participantes também defenderam a exoneração de servidores públicos e a recusa em contratar trabalhadores de esquerda. Uma das mensagens chegou a sugerir que ônibus com pessoas vindas de outras regiões fossem impedidos de entrar na cidade.
Quem também resolveu se manifestar foi a empresária Fernanda S. Vaz Ribeiro, nora do prefeito Miguel Vaz Ribeiro (Republicanos), que usou os stories do Instagram para defender a exoneração de petistas. “Que os PT sejam exonerados amanhã!”, disparou Fernanda.
Em nota, o prefeito Miguel Vaz afirmou que as opiniões publicadas nas redes sociais particulares de Fernanda Vaz Ribeiro, sua nora, não representam seu posicionamento. Ele também reiterou respeito à liberdade de expressão, ao livre pensamento e à pluralidade política.
O dono de restaurante do distrito de Caramujo, em Cáceres, afirmou que não aceita eleitores do PT em seu estabelecimento e defendeu que outros empresários adotem a mesma postura.
“Esse povo a gente tem que aprender a tratar como lixo. Esse povo é lixo”, declarou na gravação, na qual também relatou que não tolera petistas desde 2018 e que já orientava eleitores de esquerda a não frequentarem seu comércio.
O homem afirmou ainda que a própria filha é petista e disse que se recusa a comprar outro celular para ela por causa de suas posições políticas. No áudio, ele também pediu que pessoas com opiniões semelhantes às dele continuem mobilizadas contra os adversários.
Em Canarana, a empresária Angela Porto, proprietária de um 'puteiro' também publicou um vídeo com ataques a simpatizantes do PT. Na gravação, ela afirma que petistas não teriam dinheiro para gastar em seu estabelecimento e diz preferir a presença de representantes do agronegócio, comerciantes e empresários.
A empresária também associou o apoio ao partido à dependência de programas governamentais e afirmou que empresários vivem do próprio trabalho.
“Eu não gosto de petista não, meu Deus. "Se for pra me roubar a aposentadoria, pelo amor de Deus, eu vou queimar no fogo do inferno, né? Então não precisa disso não, amigo. Aqui é bolsonarista, tá? 'Ah, o Bolsonaro perdeu'. Mas quem perde mais é você, amigo. Pobre aí, ó. Que precisa de dinheiro pra comprar um farde (0:34) de feijão, um farde de arroz", emendou.
Angela ainda mandou os eleitores de Lula para a p* que pariu.
"A gente vive do trabalho da gente. Independente se é uma casa noturna ou qualquer outro comércio, a gente vive do mérito da gente. Entendeu? Então não preciso falar mais nada aqui não. Você já entendeu o recado, né? Eu não gosto de petista e eu quero que o petista vá pra puta que pariu, tá?", afirmou.
NOTA PT
Os relatos de violência política, perseguição e discriminação contra eleitores e apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em municípios de Mato Grosso são motivo de profunda preocupação. Denúncias de boicotes a estabelecimentos comerciais, ameaças de demissão, restrições à contratação de trabalhadores por suas convicções políticas e manifestações xenofóbicas exigem atenção e resposta firme das autoridades.
De várias cidades chegam relatos, divulgados pela imprensa, que dão conta de iniciativas para constranger comerciantes, trabalhadores e cidadãos em razão de suas escolhas eleitorais ou de sua origem regional. São práticas incompatíveis com os princípios democráticos e com o respeito à dignidade humana. Nenhum cidadão deve ser perseguido, perder seu emprego ou ter seu sustento ameaçado por causa de seu voto.
Mato Grosso é um estado construído pelo trabalho e pela contribuição de brasileiros de diferentes regiões. Acolheu empresários, produtores rurais e trabalhadores que aqui encontraram oportunidades para investir, empreender, prosperar e construir suas vidas. É contraditório que, em uma terra marcada pela força do trabalho e pela capacidade de acolher, surjam iniciativas de exclusão motivadas por divergências políticas ou preconceito regional.
A democracia não se limita ao voto: pressupõe respeito às diferenças, liberdade de consciência e igualdade de direitos. A pluralidade política não ameaça o desenvolvimento do estado. Ao contrário, é essencial para uma sociedade livre, justa e comprometida com a convivência pacífica.
Diante desse cenário, a direção estadual do Partido dos Trabalhadores, conclama o Governo de Mato Grosso, os parlamentares, as prefeituras e as instituições do sistema de Justiça — Ministério Público, Poder Judiciário, Defensoria Pública e forças de segurança — a atuarem, dentro de suas competências, na apuração das denúncias, na prevenção de novas ocorrências e na responsabilização de eventuais infratores. É indispensável garantir proteção integral aos trabalhadores e assegurar seus direitos, inclusive no acesso ao emprego e à renda.
Apelamos também às lideranças empresariais, às entidades representativas do comércio, da indústria e do agronegócio e à sociedade civil para que rejeitem publicamente qualquer forma de perseguição econômica, discriminação ou intolerância política.
Mato Grosso precisa de paz, respeito e união. A prosperidade deve ser construída com trabalho e liberdade, jamais com medo, exclusão ou perseguição. Defender a democracia é garantir que todos possam viver, trabalhar e empreender com dignidade, independentemente de seu voto ou de sua origem.
Cuiabá-MT, 27 de outubro de 2026.


