Uma mulher atacada com um canivete na garganta pelo ex-marido. Outra agredida dentro de casa por um ex-companheiro que, segundo ela, não aceita o fim do relacionamento. Uma residência incendiada enquanto duas meninas dormiam no imóvel, após ameaças dirigidas à mãe. E, em Sinop, uma mulher que precisou fugir de casa depois de ser agredida e ameaçada de morte com uma faca.
Quatro ocorrências registradas entre a madrugada de sábado (22) e a manhã deste domingo (23), em Mato Grosso, revelam diferentes manifestações de um mesmo problema: a violência praticada contra mulheres dentro ou em decorrência de relações afetivas.

Os episódios ocorreram em Sinop, Cuiabá e Campo Verde. Em três deles, os suspeitos eram companheiros ou ex-companheiros das vítimas. Em outro, além da mulher ameaçada, duas crianças ficaram expostas ao risco dentro da residência incendiada.
O caso mais grave ocorreu em Campo Verde. Uma mulher de 33 anos foi atingida com um golpe de canivete na garganta na noite de sábado, depois de se recusar a conversar com o ex-marido, de 31 anos. O crime foi registrado pela polícia como tentativa de feminicídio.
Segundo o boletim de ocorrência, a vítima estava em um estabelecimento no Centro da cidade quando o homem se aproximou. Diante da recusa dela em conversar, ele teria sacado o canivete e desferido o golpe, provocando um corte profundo.
A intervenção de pessoas que estavam no local impediu a continuidade do ataque. Populares imobilizaram o suspeito e o mantiveram detido até a chegada da Polícia Militar. Testemunhas disseram aos policiais que o homem demonstrava intenção de matar a vítima. Ele foi preso e encaminhado à Polícia Civil, juntamente com a arma utilizada no crime.
AGRESSÃO EM CUIABÁ
Horas depois, já na madrugada deste domingo, outro episódio foi registrado no Jardim Florianópolis, em Cuiabá.
Uma mulher de 25 anos relatou ter sido agredida pelo ex-marido, de 38, ao retornar do trabalho. De acordo com o boletim, o relacionamento havia terminado havia aproximadamente sete meses e o homem não aceitava a separação.
A vítima contou que encontrou o ex dentro da residência. Ele teria conseguido entrar após pedir a chave ao sobrinho dela. Quando a mulher chegou, segundo o relato, foi atingida com socos na boca e no couro cabeludo, sofrendo ferimentos nos lábios.
Além das agressões, ela informou ter recebido ameaças de morte pessoalmente e por mensagens. O suspeito fugiu. A mulher disse à polícia que o ex-marido utiliza tornozeleira eletrônica e manifestou interesse em solicitar medidas protetivas de urgência.
CASA INCENDIADA
Outro episódio ocorrido em Cuiabá ampliou o risco para além da ex-companheira. Um homem de 25 anos é procurado pela polícia suspeito de incendiar a residência onde ainda vivia com a ex enquanto as duas filhas dela, de 8 e 13 anos, dormiam no imóvel.
Segundo o registro, o casal estava separado, mas o homem permanecia na residência enquanto procurava outro lugar para morar. Na noite de sexta-feira (21), a mulher saiu e deixou as meninas sob os cuidados de uma vizinha.
A mãe relatou ter recebido ligações e mensagens do ex questionando onde ela estava e ameaçando colocar fogo na casa com as filhas dentro. Pouco depois, as próprias meninas telefonaram pedindo socorro e dizendo que o homem estava incendiando o imóvel.
As crianças disseram à polícia que o suspeito teria tentado impedir que deixassem a residência. Com ajuda do filho de uma vizinha, conseguiram escapar sem sofrer queimaduras. A casa, porém, foi consumida pelo fogo e a família perdeu praticamente todos os pertences. O suspeito fugiu. O caso foi registrado como tentativa de homicídio e incêndio.
AMEAÇA COM FACA EM SINOP
A sequência começou ainda na madrugada de sábado, em Sinop, onde uma mulher de 49 anos procurou a Polícia Militar depois de fugir de casa para escapar do companheiro, de 44 anos.
Quando localizada pela PM, ela estava nervosa e apresentava lesões visíveis no rosto. A mulher relatou morar havia aproximadamente cinco meses com o suspeito. Depois de os dois retornarem de um bar, ele teria começado a agredi-la com empurrões e socos.
Na sequência, segundo o relato, o homem pegou uma faca, avançou em sua direção e ameaçou matá-la. A vítima conseguiu sair da residência e fugir pelas ruas do bairro até acionar a PM. O suspeito não foi encontrado e ela foi encaminhada à delegacia.
VIOLÊNCIA PERSISTENTE
A sucessão de episódios ocorre em um Estado que já enfrenta indicadores elevados de violência contra mulheres. Em 2025, Mato Grosso registrou 53 feminicídios, alta de 11%, além de 241 tentativas de feminicídio, crescimento de 38,7%. No mesmo período, foram contabilizados 9.954 casos de lesão corporal contra mulheres.
A procura pela proteção do Estado também dimensiona o problema. Em 2025, foram 18.273 pedidos de medidas protetivas. Até 10 de agosto deste ano, já haviam sido registrados 11.454 pedidos.
Em outra frente, a Operação Mulher Segura contabilizou 1.097 prisões em 76 dias, indicador da dimensão da atuação policial relacionada à violência doméstica e familiar.
Os quatro episódios ocorridos em menos de 24 horas mostram ainda um elemento recorrente: a violência não necessariamente começa no momento da agressão física. Em parte dos casos, os registros policiais descrevem ameaças, controle sobre a vítima, dificuldade de aceitar o fim do relacionamento e escalada da violência até ataques potencialmente letais.


