Uma rede que começava dentro da Penitenciária Central do Estado (PCE), passava por mulheres que tinham acesso aos presos por meio de um projeto de evangelização e alcançava integrantes do Comando Vermelho (CV) em liberdade e foragidos. Paralelamente, dinheiro atribuído a integrantes da organização teria circulado por familiares, contas bancárias e terceiros.
Esse é o desenho que emerge dos documentos da Operação Fariseus e da denúncia apresentada pelo Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) contra seis pessoas. Mais do que os relacionamentos pessoais revelados pela investigação, o material aponta para uma estrutura que teria funcionado como ponte entre lideranças encarceradas e o lado de fora dos presídios.

No centro da apuração está a missionária Rhavenna Barcelos Cabeça de Almeida. Segundo a acusação, ela e a mãe, Orminda Carlos de Barcelos Almeida, utilizavam a atuação na “Equipe de Evangelismo Resgatando Vidas” para visitar unidades prisionais.
A condição de integrantes do projeto permitia acesso a vários presos, de diferentes raios, uma forma considerada mais eficiente do que tentar entrar nas unidades como familiar ou companheira de um único detento.
Para o Ministério Público, a atividade religiosa teria sido desvirtuada e facilitado a comunicação entre integrantes da facção que estavam presos, membros em liberdade e foragidos, além do transporte de objetos e mensagens. Rhavenna teria atuado no atendimento a pedidos de detentos e também na movimentação de recursos.
Acesso à cúpula
O relatório policial descreve um grupo de WhatsApp denominado “As Faixa Rosa Evangélica”, que reunia mulheres relacionadas ao projeto. De acordo com a investigação, integrantes do grupo mantinham relações pessoais, financeiras e afetivas com membros do Comando Vermelho.
O documento cita nomes considerados relevantes na estrutura da organização em Mato Grosso: Sandro da Silva Rabelo, conhecido como Sandro Louco; Paulo Witer Farias Paelo, o “WT”; Jonas Souza Gonçalves Junior, o Batman; e Renildo da Silva Rios, conhecido como “Velhote”, “Velho” ou “Chapa”.
Sandro Louco e WT aparecem no relatório como presos. Batman é apontado como foragido, enquanto Renildo está encarcerado na PCE.
Segundo a denúncia, Renildo é considerado um dos conselheiros e um dos fundadores do Comando Vermelho em Mato Grosso. Ele acumula 13 condenações que, somadas, ultrapassam 76 anos de prisão.
A investigação sustenta ainda que Rhavenna manteve relacionamento com Batman e teria recebido recursos enviados por ele durante o período em que permaneceu foragido. O documento cita uma viagem da missionária ao Rio de Janeiro e contatos com pessoas apontadas como integrantes ou apoiadores da facção. Também existem diálogos relacionados à fuga de Batman, ocorrida em setembro de 2024.
Posteriormente, Rhavenna passou a se relacionar com Renildo dentro da PCE.
Uma “lista” dos presos
Outro elemento chama a atenção para o grau de organização atribuído ao grupo.
Segundo o relatório policial, as mulheres dividiam entre si os presos que seriam visitados. Uma das investigadas teria afirmado que pretendia visitar um detento diferente a cada dia durante um feriado para que “nenhum ficasse brigado”.
Os investigadores também identificaram a existência de uma espécie de “lista da PCE”, organizada em ordem alfabética.
A relevância desse material para a investigação vai além das relações pessoais. Na avaliação dos investigadores, o acesso recorrente a diferentes presos criava um canal capaz de atravessar os setores da penitenciária e conectar detentos entre si e com pessoas do lado de fora.
O próprio caso de Renildo demonstra que os muros da unidade não impediam toda forma de comunicação. A Polícia Civil encontrou fotografias produzidas dentro do presídio com celular e registros de contato entre ele e Rhavenna.
No Dia dos Namorados, em 12 de junho, Renildo teria participado de uma videochamada de dentro da PCE. Na ocasião, segundo o relatório, Rhavenna recebeu presentes, dinheiro e uma viagem para Porto Seguro, na Bahia.
Da comunicação ao dinheiro
A segunda parte da estrutura investigada envolve recursos financeiros.
O Ministério Público denunciou Rhavenna, a mãe, duas irmãs, um primo e Renildo. As acusações variam entre participação em organização criminosa e lavagem de dinheiro.
Segundo o MP, o núcleo familiar de Rhavenna teria sido utilizado para movimentar e ocultar dinheiro atribuído a Renildo.
Rhuan Barcelos da Conceição, primo da missionária, seria responsável por guardar dinheiro em espécie em sua residência para posteriormente entregá-lo a Rhavenna. Anatany Nina de Barcelos Souza Alves, irmã dela, teria auxiliado na realização de depósitos e movimentações bancárias. A outra irmã, Lo Rhuama Barcelos de Almeida Gobbi, a “Lolo”, é acusada de participar da movimentação dos valores e receber benefícios financeiros e materiais.
A denúncia descreve um mecanismo de pulverização do dinheiro. Depois de recebidas, as quantias seriam distribuídas entre familiares ou depositadas em contas de terceiros, inclusive por intermédio de uma lotérica onde Anatany trabalhava.
O documento menciona transferências de diferentes valores, entre elas R$ 1 mil, R$ 1,24 mil, R$ 250, R$ 4 mil, R$ 3,7 mil e R$ 5 mil. Para o Gaeco, a divisão dos recursos entre contas diferentes teria a finalidade de reduzir o risco de bloqueios ou alertas bancários.
Entre os benefícios atribuídos ao esquema estão joias, flores, veículo e pagamento de despesas familiares. A denúncia menciona ainda conversa segundo a qual uma cirurgia plástica seria paga por um preso.
Uma ponte entre dentro e fora
Reunidos, os elementos permitem compreender a estrutura investigada pela Operação Fariseus em etapas.
De um lado estavam presos apontados como integrantes da cúpula do Comando Vermelho. O projeto religioso proporcionava às mulheres acesso a diferentes detentos. Segundo a acusação, esse contato teria extrapolado a assistência religiosa e passado a servir também para levar informações e atender solicitações.
No lado externo apareciam integrantes da organização em liberdade ou foragidos. E, em outra frente, familiares e terceiros teriam sido utilizados para receber, guardar, dividir e depositar dinheiro.
A acusação do Ministério Público, portanto, descreve uma rede que não dependia apenas de uma pessoa ou de uma única forma de comunicação. O funcionamento atribuído ao grupo combinava acesso físico aos presídios, celulares, mensagens, contatos externos e movimentação financeira.
É justamente essa conexão entre a cadeia e a rua que o Governo de Mato Grosso afirma pretender dificultar com a instalação de bloqueadores de sinais de celulares nas unidades prisionais. A Operação Fariseus mostra, porém, que interromper o sinal é apenas uma parte do desafio: a investigação aponta também para a necessidade de controlar os canais humanos utilizados para atravessar os muros do sistema penitenciário.


