Quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Rússia oferece ao Brasil tecnologia de pequenos reatores nucleares capazes de levar energia às regiões mais isoladas do país e apresenta até usinas atômicas flutuantes

Rússia apresenta ao Brasil pequenos reatores nucleares, unidades flutuantes e cooperação tecnológica enquanto o país avalia novas soluções para regiões remotas, avança em projetos próprios e amplia negociações internacionais sobre energia atômica, seguran

Rússia oferece ao Brasil tecnologia de pequenos reatores nucleares capazes de levar energia às regiões mais isoladas do país e apresenta até usinas atômicas flutuantes
Foto: Arquivo Colíder News
A Rússia apresentou ao governo brasileiro possibilidades de cooperação envolvendo reatores nucleares de pequena potência, unidades flutuantes de geração elétrica e tecnologias destinadas a regiões remotas, segundo informações divulgadas pela RT e reproduzidas pela Revista Fórum.

As propostas foram mencionadas durante a passagem pelo Brasil de Nikolay Patrushev, assessor do presidente Vladimir Putin e presidente do Colegiado Marítimo da Rússia.

A visita ocorreu em meio a uma agenda bilateral mais ampla envolvendo energia nuclear, segurança marítima, ciência e cooperação tecnológica.

Rússia oferece pequenos reatores ao Brasil
Segundo a Revista Forum, Patrushev afirmou que Moscou estaria disposta a compartilhar experiência adquirida no desenvolvimento de reatores nucleares de pequena escala.

Entre as tecnologias mencionadas aparecem sistemas da família Elena e projetos russos de usinas nucleares flutuantes.

O objetivo seria fornecer eletricidade e calor por longos períodos em locais onde a conexão às grandes redes de transmissão é difícil ou economicamente pouco atraente.

Patrushev descreveu essas soluções como uma espécie de “bateria nuclear”, destacando a possibilidade de operação prolongada e baixa necessidade de intervenção humana.

A expressão, entretanto, deve ser entendida como uma comparação feita pelo representante russo.

Tecnicamente, esses sistemas não são baterias convencionais, mas instalações nucleares que utilizam a energia liberada por combustível nuclear para produzir calor e, dependendo da configuração, eletricidade.

Elena foi projetado justamente para regiões isoladas
A Rússia trabalha há anos em projetos de pequena potência para comunidades afastadas de sua própria infraestrutura energética.

Uma das versões mais recentes é denominada Elena-AM, evolução do conceito Elena.

Segundo informações técnicas divulgadas pela Rosatom, o projeto possui potência térmica prevista de 7 MW, vida útil de aproximadamente 40 anos e geração elétrica mínima de 200 kW por meio de conversores termoelétricos.

O sistema foi concebido principalmente para localidades remotas e de difícil acesso que não possuem redes convencionais de aquecimento ou fornecimento confiável de combustíveis.

Isso significa que não se trata de um substituto direto para grandes centrais como Angra 1 ou Angra 2.

A lógica é diferente: instalar unidades muito menores próximas aos consumidores, especialmente em regiões nas quais construir centenas ou milhares de quilômetros de linhas de transmissão pode ser complexo.

No caso brasileiro, a Amazônia aparece naturalmente entre as regiões potencialmente compatíveis com esse conceito, devido à existência de localidades isoladas e sistemas elétricos que ainda dependem de geração térmica local.

Rússia também possui usina nuclear flutuante em operação
Outro modelo mencionado nas discussões é o de instalações nucleares construídas sobre estruturas flutuantes.

A Rússia já opera a Akademik Lomonosov, instalada na região de Chukotka, no extremo leste do país.

A unidade entrou em operação comercial em 2020 e utiliza dois reatores, servindo como referência para uma nova geração de instalações flutuantes desenvolvidas pela Rosatom.

Em 2026, a estatal informou que avançava na fabricação de novos reatores RITM-200S destinados a futuras unidades flutuantes.

O assunto não apareceu pela primeira vez nas relações entre Brasília e Moscou durante a visita de Patrushev.

Em maio, o embaixador russo no Brasil, Alexey Labetsky, afirmou que os dois governos discutiam um novo acordo de cooperação em energia nuclear e citou especificamente a possibilidade de projetos de usinas nucleares flutuantes no território brasileiro.

Segundo o diplomata, as negociações ainda envolviam questões técnicas e estavam em fase de discussão.

Brasil já estuda pequenos reatores por conta própria
A possível parceria com Moscou encontra o Brasil em uma situação diferente da existente há alguns anos.

O governo brasileiro já iniciou formalmente estudos para avaliar a entrada de pequenos reatores modulares, conhecidos pela sigla SMR, e microrreatores na matriz energética nacional.

Em janeiro de 2026, o Comitê de Desenvolvimento do Programa Nuclear Brasileiro criou um grupo técnico destinado a estudar infraestrutura, regulamentação e requisitos necessários para receber essas tecnologias.

O Ministério de Minas e Energia instalou o grupo em abril e, em julho, informou que os trabalhos haviam avançado para a etapa de diagnóstico técnico e territorial dos possíveis usos no país.

A Comissão Nacional de Energia Nuclear também informou que o Brasil trabalha no desenvolvimento de seu primeiro microrreator nuclear nacional.

As Indústrias Nucleares do Brasil começaram em janeiro os testes das varetas de combustível destinadas ao protótipo desse projeto.

Segundo a INB, a tecnologia é pensada justamente para áreas isoladas, comunidades ribeirinhas e pequenas cidades afastadas dos grandes centros, com produção de combustível experimental prevista a partir de 2027.

China também entrou na disputa pelos pequenos reatores
A Rússia não é o único país interessado nesse mercado brasileiro.

Em 1º de julho, a ENBPar assinou um protocolo de intenções com a China National Nuclear Corporation Overseas para estudar a produção de pequenos reatores modulares no Brasil.

O documento prevê cooperação para avaliar o desenvolvimento industrial da tecnologia no país exclusivamente para fins pacíficos.

Na prática, o movimento coloca empresas russas, chinesas e iniciativas nacionais diante de um mercado que ainda está em estágio preliminar e dependerá de decisões regulatórias, econômicas e políticas antes que qualquer instalação comercial seja construída.

Tecnologia russa também apareceu nas conversas sobre a Marinha
A agenda apresentada por Patrushev também possui uma dimensão marítima.

Antes das conversas políticas de alto nível, o assessor russo manteve contatos relacionados à cooperação bilateral, e sua visita aparece registrada oficialmente em agendas do governo brasileiro.

As discussões russas mencionaram ainda a experiência brasileira com tecnologia nuclear naval.

O Brasil desenvolve no Centro Industrial Nuclear de Aramar, em Iperó, São Paulo, o Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica, o LABGENE, protótipo terrestre da planta que deverá equipar o futuro submarino brasileiro de propulsão nuclear.

Em 2026, a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear confirmou que a instalação continua em construção e será utilizada para validar sistemas associados à futura propulsão nuclear naval brasileira.

O submarino, denominado Álvaro Alberto, terá propulsão nuclear, mas armamento convencional.

O Ministério da Defesa ressalta que o programa está submetido aos compromissos brasileiros de utilização pacífica da tecnologia nuclear.

Cooperação nuclear entre Brasil e Rússia já avançou em 2026
A visita também ocorre depois de uma aproximação formal entre os dois países na área nuclear.

Em fevereiro, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o primeiro-ministro russo Mikhail Mishustin assinaram uma declaração conjunta que prevê ampliar a cooperação no uso pacífico da energia nuclear, incluindo ciclo do combustível e radioisótopos para aplicações médicas.

Em maio, representantes dos dois governos voltaram a discutir energia nuclear durante reunião da comissão intergovernamental Brasil-Rússia, enquanto Moscou confirmou interesse em ampliar a atuação da Rosatom no mercado brasileiro.

Fonte: Alisson Ficher l Revista Sociedade Militar
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