Segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Saiba quem são os líderes do Comando Vermelho de MT que pagam R$ 80 mil por mês para se esconder no Rio

Investigação do GAECO revela que facção de Mato Grosso paga 'aluguel' mensal e envia armas de grosso calibre para ter proteção em comunidades cariocas. Três dos principais foragidos do estado estão no Rio.

Saiba quem são os líderes do Comando Vermelho de MT que pagam R$ 80 mil por mês para se esconder no Rio
Foto: Arquivo Colíder News
Pelo menos 15 membros de alta hierarquia do Comando Vermelho (CV) de Mato Grosso estão vivendo escondidos em favelas do Rio de Janeiro, garantindo refúgio em áreas controladas pelo tráfico mediante o pagamento de até R$ 80 mil mensais.

As descobertas fazem parte das investigações conduzidas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Estado de Mato Grosso e foram divulgadas pela Folha Press. O órgão aponta um deslocamento contínuo de lideranças da facção para o Sudeste.

O promotor-chefe do Gaeco, Adriano Roberto Alves, explicou a motivação da fuga: “Eles foram para o Rio porque aqui a polícia entra em qualquer lugar. Lá, não. É um território dominado, como a Faixa de Gaza – o Estado não tem soberania”.

Pagamento em dinheiro e armamento

Os valores cobrados pela estadia e proteção no Rio de Janeiro são altos: R$ 50 mil são pagos em dinheiro vivo, e o restante é quitado com o envio de fuzis, cujo valor de mercado varia entre R$ 20 mil e R$ 30 mil.

Documentos e celulares apreendidos revelam a dimensão dessa "parceria": somente neste ano, 16 armas de grosso calibre foram enviadas pelos criminosos de Mato Grosso para comunidades cariocas, como Rocinha, Vidigal, Penha e Complexo do Alemão. O transporte das armas foi feito por carro e, inclusive, por ônibus.

O promotor Alves detalhou que essa conexão entre o CV em Mato Grosso e no Rio envolve uma troca estratégica: "Eles mandam fuzis e drogas em troca de refúgio. É uma relação de parceria e dependência. Pagam caro por essa proteção e, em troca, continuam mandando no tráfico de Mato Grosso à distância."

Os líderes foragidos

Três dos 15 foragidos são apontados como lideranças cruciais na hierarquia do CV em Cuiabá e no interior de Mato Grosso. O Gaeco acredita que todos buscaram refúgio nas comunidades cariocas:

Jonas Souza Garcia Júnior, o Batman: Considerado a maior liderança do CV no estado fora das grades, com condenações que somam 49 anos. Recentemente, progrediu para o regime semiaberto, mas rompeu a tornozeleira eletrônica e fugiu. É conselheiro da facção e atua em diversos crimes, como tráfico, extorsão e jogos de azar.

Angélica Silva Saraiva de Sá, a Angeliquinha: Chefe do CV no Norte de MT, condenada a mais de 250 anos de prisão. Foi responsável por ordenar a execução de quatro pessoas suspeitas de ligação com o PCC.

Jéssica Leal da Silva, a Arlequina: Líder da facção em Juína e ligada aos chamados "tribunais do crime". Responde a dezenas de processos por tráfico, tortura e homicídio.

Angeliquinha e Arlequina fugiram juntas em 17 de agosto da Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto, em Cuiabá, serrando as grades da cela.

Procurada, a Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro (Seseg-RJ) informou, por meio de nota, que realiza ações permanentes contra o crime organizado, muitas em cooperação com outros estados. A pasta citou a recente Operação Contenção, que prendeu cerca de 100 criminosos, sendo 62 de outros estados — incluindo um nascido em Mato Grosso.

O promotor do Gaeco, no entanto, minimizou o impacto dessas ações sobre as lideranças do CV de Mato Grosso, destacando que nenhum dos principais líderes ou faccionados do estado foi morto na megaoperação.

O CV é a maior facção em MT, com cerca de 10 mil membros e movimentação de mais de R$ 1 milhão mensal. O promotor Adriano Alves concluiu que o maior desafio da segurança é a fragilidade das prisões.

"Prender é fácil. O difícil é impedir que continuem mandando de dentro da cadeia. Eles recebem visitas um dia sim, outro não, e seguem operando normalmente", afirmou.
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