Diversas empresas de data centers se animaram para avançar comprojetos após a aprovação do Redata no Congresso, mas omovimento já levanta uma dúvida entre os investidores e técnicos daindústria de energia.
Vai ter espaço pra todo mundo na rede elétrica?
Os data centers, principalmente os hyperscale voltados à AI,consomem enormes volumes de eletricidade, por vezes comparáveisa grandes cidades.
A atração dessa infraestrutura digital para o País inclusive começoua ser articulada por empresas de geração renovável como uma saídapara a atual sobreoferta de energia eólica e solar decorrente de anosde investimentos incentivados por subsídios.
"Existe um excesso de energia, mas acho que vai ser rapidamenteconsumido. Vai precisar até de mais capacidade de geração. Paramim o gargalo do setor é a principalmente a transmissão," SerafimAbreu Junior, o CEO da NextStream Data Centers, disse ao BrazilJournal.
Enquanto as sobras de energia renovável estão concentradas noNordeste, o plano da NextStream, controlada pela gestora britânicaActis - e de diversas outras empresas de tecnologia - está voltadopara o Sudeste.
"Existe uma natural preferência por ficar perto das principaismetrópoles. Esse corredor entre São Paulo e Campinas é onde amaioria dos provedores de nuvem, e agora os hyperscale, estãoplanejando seus projetos. Precisa trazer essa energia para cá," disseAbreu, que também já foi diretor da Scala Data Centers, além de CFOe vice-presidente da IBM Brasil.
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), que precisa analisartodos projetos de data centers e aprovar sua conexão à rede,pretende divulgar ainda este ano um mapa de quais regiões têmcapacidade para receber novas instalações.
"Encontrar espaço na rede para cargas desse porte não é algo trivial,"o diretor de Planejamento do ONS, Alexandre Zucarato, disse numevento recente da MegaWhat.
Em São Paulo, por exemplo, "o cenário é extremamente complexo",com a rede "esgotada" após anos sem expansão nas instalações detransmissão necessárias para conectar grandes cargas, segundo odiretor do ONS.
E mesmo no Nordeste, o Piauí e o Ceara - que estao atraindoprojetos de data centers devido a incentivos fiscais em suas Zonas deProcessamento de Exportação - também têm limitações técnicas.
Além disso, o Redata prevê um prazo de cinco anos para seusbenefícios fiscais.Se faltar geração, uma nova usina pode ser construída maisrapidamente, mas o ciclo completo desde os estudos até aconstrução de uma nova linha de transmissão é de no mínimo cincoa sete anos.
"Em cinco anos, a capacidade de transmissão é praticamenteinelástica," disse Zucarato.
O Governo chegou a receber pedidos de conexão à rede de projetosde data centers com um total de 80 gigawatts em demanda - seria osuficiente para praticamente dobrar o consumo de energia no País.
Boa parte, porém, eram projetos considerados "especulativos" - apósa cobrança de garantias financeiras, restaram cerca de 10 GW paraavaliação pelo ONS. Desses, 3 GW já estão com contrato de uso darede assinado e 2 GW tiveram conexão aprovada. Outros 5 GW aindaestão em análise.
Se as geradoras contavam com a demanda dos data centers pararesolver o problema da sobreoferta, os projetos de infraestruturadigital devem acabar fomentando também os investimentos emtransmissão.
Nesse setor, as empresas têm todo interesse e capacidade paraparticipar da construção das novas linhas necessárias, porém éimportante discutir formas de acelerar o planejamento da expansãoda rede, disse a presidente da Associação Brasileira de Transmissorasde Energia (Abrate), Talita Porto.
"Temos que coordenar a estratégia. As coisas hoje estão em outravelocidade. Uma linha que está sendo construída agora começou aser estudada há 10 anos atrás. Uma outra questão é equipamento.Você consegue colocar um data center em um ano e meio. Mas aentrega de um transformador leva no mínimo dois anos."
Os riscos de uma expansão mal planejada, porém, não são baixos.
Um único grande data center pode ter uma demanda de 2 GW -superior à capacidade da maior unidade geradora em operação emuma usina no País, no caso o reator de Angra 2, de 1,3 GW.
Sem medidas de segurança como reforços na transmissão, os datacenters poderiam em algumas situações dar um "tranco" no sistemaque seria capaz de no limite desencadear "apaguinhos ou apagões,"disse Zucarato, do ONS.
"Tem que entender o comportamento dessa carga e como ela suportaa oscilação do sistema."
Sobra energia para os data centers. O gargalo pode ser a transmissão
A atração dessa infraestrutura digital para o País inclusive começou a ser articulada por empresas de geração renovável como uma saída para a atual sobreoferta de energia eólica e solar decorrente de anos de investimentos incentivados por subsídios.



