Terça-feira, 29 de setembro de 2026

Startup transforma resíduo do babaçu em proteína do futuro e gera renda para comunidades amazônicas

Com aporte do Fundo JBS pela Amazônia, biotecnologia eleva o teor proteico do babaçu em 4,5 vezes, impulsiona 62 mil extrativistas e mira mercado de US$ 88 bilhões

Startup transforma resíduo do babaçu em proteína do futuro e gera renda para comunidades amazônicas
Foto: Arquivo Colíder News
No Maranhão, mulheres conhecidas como quebradeiras de coco acordam cedo para colher e beneficiar o babaçu, em um ritual passado de mãe para filha por gerações.

O mesmo acontece no Piauí, no Pará e no Tocantins, onde cerca de 62 mil pessoas vivem do extrativismo do fruto amazônico.

Por décadas, boa parte do babaçu foi desperdiçada: o óleo da amêndoa tinha mercado, mas a farinha do mesocarpo que sobra do processo acabava indo parar no lixo. 

Agora, a startup brasileira BIOINFOOD quer mudar essa realidade e mira um mercado global estimado em US$ 88 bilhões, combinando inovação científica, impacto social e geração de renda para as combinando inovação científica, impacto social e geração de renda para as comunidades da floresta.

Por meio de um aporte de R$ 2,7 milhões do Fundo JBS pela Amazônia, desenvolveu uma biotecnologia em parceria com o Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL) capaz de transformar esse resíduo em ingrediente proteico para hambúrgueres e outros produtos plant-based.

O processo multiplica por mais de quatro vezes o teor proteico da farinha (de 1,5% para cerca de 7%) e pode abrir uma nova frente de renda para as comunidades extrativistas da Amazônia.

Do biorreator ao prato
O processo desenvolvido pela startup envolve a seleção de cepas de levedura, hidrólise enzimática e fermentação em biorreatores automatizados.

As leveduras convertem os açúcares da farinha em biomassa proteica, sem necessidade de novos cultivos ou desmatamento. O resultado é um ingrediente com textura fibrosa e sabor equilibrado, com aplicação direta na indústria de alimentos.

A tecnologia já foi validada em escala laboratorial, e um protótipo de hambúrguer plant-based foi produzido e avaliado.

Recentemente, o projeto teve um momento simbólico: a degustação do produto por Cornelia Rodrigues, conhecida como "Nelinha do Babaçu", empreendedora maranhense e uma das vozes mais representativas das
quebradeiras de coco no país.

"A tecnologia estimula o uso sustentável de espécies nativas, sem necessidade de desmatamento ou cultivo intensivo", afirma Osmar Netto, PhD, co-fundador da BIOINFOOD e líder do projeto.

Onde a ciência encontra a floresta

O projeto não nasceu só no laboratório. A empresa contou com o apoio da Rede Terra do Meio do Alto Xingú, no Pará, que forneceu amostras e recebeu a equipe em visitas às comunidades e reúne 35 organizações de povos indígenas, ribeirinhos e agricultores familiares, somando 9 milhões de hectares protegidos.

Apesar do potencial técnico da área disponível ser de 1,5 milhão de toneladas por ano, a produção atual do babaçu mal passa de 4% desse total. A subexploração da cadeia é, ao mesmo tempo, o desafio e a oportunidade que a
tecnologia mira.

Para o Fundo JBS pela Amazônia, o InovAmazônia foi o maior projeto apoiado no eixo de pesquisa e desenvolvimento desde sua criação em 2020.

"A Amazônia tem oportunidades que ainda não foram aproveitadas e o projeto é um belo exemplo disso: ciência aplicada, ingrediente nacional e impacto real para quem vive da floresta", destaca Lucas de Oliveira Scarascia, Gerente Executivo de Projetos do Fundo.

Enquanto o mercado global de proteínas alternativas deve dar um "boom" na próxima década e crescer 14,3% ao ano, o setor no Brasil movimentou R$ 1,13 bilhão em 2024, alta de 14% sobre o ano anterior.

A demanda europeia e americana por ingredientes de origem sustentável, rastreável e com impacto socioambiental positivo cria uma janela real para uma indústria verde nacional.

Uma das grandes apostas do Brasil, a bioeconomia traz uma oportunidade bilionária de movimentar entre US$ 100 a US$ 140 bilhões (R$ 765 bilhões) por ano até 2032, segundo um estudo divulgado antes da COP30 em novembro
de 2025.

Agora, a startup busca parceiros comerciais para a fase de escala piloto. A mesma plataforma de fermentação pode ser aplicada a outros coprodutos agroindustriais: farelo de trigo, milho e arroz, além de cascas de oleaginosas
nativas como castanha-do-Brasil, macaúba e cupuaçu.

"O babaçu é um exemplo de como a parceria entre instituição pública de pesquisa e empresa inovadora pode encurtar o caminho entre o coproduto e o ingrediente industrial", diz Roseli Ferrari, Pesquisadora Científica e Diretora
Técnica de Divisão do ITAL.

Fonte: Sofia Schuck reporter da ESG l Exame.com
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