Terça-feira, 29 de setembro de 2026

'Supercana' é desenvolvida e mostra-se 40% mais produtiva

Essa cana e mais resistente a insetos, ervas e fungos e mais tolerante a herbicidas deve chegar em breve ao mercado para cultivo.

'Supercana' é desenvolvida e mostra-se 40% mais produtiva
Foto: Arquivo Colíder News

Uma “supercana” (variedade da cana-de-açúcar) 40% mais produtiva que a média daquelas cultivadas atualmente, resistente a insetos, ervas e fungos e mais tolerante a herbicidas deve chegar em breve ao mercado para cultivo.


A “supercana”, uma nova variedade está sendo desenvolvida há oito anos pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), uma empresa especializada em pesquisas no setor, com sede em Piracicaba (SP). Melhorada geneticamente, ela é uma das apostas dos produtores para garantir o abastecimento de açúcar e etanol, mesmo com aumento da demanda.

O centro também trabalha no lançamento de sementes sintéticas que vão facilitar o plantio e reduzir os custos de produção, além de cana transgênica, resistente a várias doenças. O Brasil é o maior produtor de cana do mundo, com 650 milhões de toneladas ao ano.

Com os planos das montadoras de aumento da produção local de automóveis híbridos flex e do uso do etanol como propulsor do hidrogênio para carros a célula de combustível – além do projeto do governo federal de aumentar a mistura na gasolina de 27% para 30% –, a demanda pelo produto vai crescer.

O etanol também é estudado como matéria-prima para o combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês) e para movimentar navios. Incentivos ao uso do etanol em novas tecnologias de mobilidade devem ser incluídos no programa Mobilidade Verde e Inovação (antigo Rota 2030), a ser anunciado nos próximos dias pelo governo, que vê o combustível renovável da cana como essencial no processo de descarbonização do transporte no país.


Nesse cenário, existe um receio de que possa faltar etanol, como ocorreu no passado. Mas, além da “supercana”, outras opções começam a ganhar espaço na produção do combustível, como milho e cereais, sem riscos de substituição de seu uso como alimentos,

segundo os produtores. Hoje, mais de 80% do etanol produzido no país vêm da cana. “Estamos em um momento muito positivo em que o etanol está sendo reconsiderado como o combustível do futuro”, diz o diretor de recursos humanos e de comunicação do CTC, Fábio Hayashida. Segundo ele, a cana é a cultura mais eficiente na captura de carbono em comparação ao milho e à soja. Além disso, o Brasil tem clima adequado para cultivo, manejo sustentável e custo global de produção mais competitivo.

Com esta perspectiva, o CTC também incluiu em seus planos a abertura de capital para negociar ações na Bolsa de Valores. O pedido de IPO (sigla em inglês para oferta pública inicial de ações) já foi feito. Atualmente, entre seus 90 acionistas atuais estão grupos como Copersucar, Raízen e Usina São Martinho.

O CTC emprega 500 profissionais, sendo que 60% deles estão na área de pesquisa e desenvolvimento. “Nosso foco é desenvolver tecnologias disruptivas”, diz Hayashida.

Novas variedades O processo de melhoramento da cana envolve cruzamentos de 1,5 mil variedades. Elas geram cerca de 560 mil mudas que passarão por diversas seleções ao longo de oito a dez anos. Ao final, são selecionadas uma ou duas variedades campeãs que serão lançadas no mercado.

Além de aumentar a produtividade, o processo, também chamado de hibridação, serve para desenvolver plantas resistentes a pragas, insetos e doenças e tolerantes a herbicidas e escassez de água.

Segundo Paes, todo ano, apenas 15% dos canaviais são renovados, ou seja, 1,5 milhão de hectares. A variedade lançada em 2013, chamada de Elite, é 25% mais produtiva que a média daquelas cultivadas no período e ocupa atualmente apenas 30% da área plantada. Cada hectare resulta na produção de 12,5 toneladas de açúcar.


Ele lembra que, há cerca de 20 anos, já se discutia o desenvolvimento de variedades transgênicas da soja e do milho que, por serem commodities, atraíram patrocínio de grandes multinacionais.

Na cana, esse processo foi introduzido só em 2017 com o lançamento, pelo CTC, da primeira cana geneticamente modificada do mundo – uma variedade resistente à broca, praga que afeta canaviais resultando em prejuízos de R$ 6 bilhões ao ano aos produtores.


Cana transgênica O diretor de inteligência setorial da União da Indústria de Cana de Açúcar e Bioenergia (Unica), Luciano Rodrigues, confirma que, ao contrário da soja e do milho, cujos plantios são renovados anualmente, a renovação da cana é mais lenta.

A gerente de melhoramento genético do CTC, Luciana Gonçalves Catellani, afirma que, todos os anos, a avaliação dos processos de melhoramento comprova que as experiências feitas pelo centro “têm resultado em clones de cana mais produtivos do que as já plantadas anteriormente”.

O objetivo do CTC, segundo ela, é desenvolver todos os anos variedades 10% melhores que as anteriores. “Se não for, a gente não lança”, garante. Desde 2011, o CTC investiu R$ 1,2 bilhão em pesquisa e desenvolvimento. Processos de melhoramento da cana também são feitos no País pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e pela Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento do Setor Sucroalcooleiro (Redesa), mas a transgenia ainda é exclusividade do CTC.

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No ano passado, segundo a Unica, foram produzidos no país 31,2 bilhões de litros de etanol, sendo 4,4 bilhões provenientes do milho. Para este ano são esperados 34 bilhões de litros, dos quais 6 bilhões virão do milho. Para 2032, a previsão é de 47 bilhões – 36,1 bilhões da cana, 9,1 bilhões de milho e o restante de outras fontes, como o etanol celulósico, feito a partir do bagaço e das folhas da cana.

As informações são do Estadão Conteúdo

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