Sexta-feira, 14 de agosto de 2026

'Tribunais do crime' espalham medo e ampliam força das facções no interior

Grupos que controlam o tráfico aplicam punições e são investigados por sequestros, execuções e ocultação de cadáveres

'Tribunais do crime' espalham medo e ampliam força das facções no interior

A atuação das facções criminosas no interior de Mato Grosso avança para além do tráfico de drogas e revela uma estrutura de poder paralelo capaz de impor regras, aplicar punições e decidir sobre a vida e a morte de pessoas que desafiam seus interesses.

Duas operações realizadas pela Polícia Civil, na quarta-feira (12), em municípios do interior, ajudam a dimensionar essa presença.

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Em Colíder (650 km ao Norte de Cuiabá), cinco pessoas foram presas sob investigação por integrar uma facção ligada ao comércio e à distribuição de drogas.

Em Campos de Júlio (553 km a Oeste), a Polícia tenta esclarecer um caso ainda mais grave: o desaparecimento de um homem que teria sido sequestrado, submetido a um “tribunal do crime”, executado e depois teve o corpo ocultado.

O caso de Campos de Júlio é investigado na Operação Sepélio.

Cinco ordens judiciais de busca e apreensão foram cumpridas contra suspeitos de envolvimento no desaparecimento e homicídio de um homem, ocorrido em 13 de abril deste ano.

Segundo as investigações conduzidas pela Delegacia de Campos de Júlio, na noite anterior ao desaparecimento, a vítima havia participado de uma festa, em uma tabacaria.

No dia seguinte, teria sido atraída para uma emboscada por um integrante da facção, que teria funcionado como uma espécie de “isca”.

A vítima estava hospedada na residência de um dos investigados. Ao sair para comprar refrigerante em uma distribuidora, teria sido capturada por integrantes do grupo criminoso.

A partir daí, segundo os elementos reunidos pela Polícia Civil, começa uma sequência que demonstra o grau de organização atribuído aos suspeitos.

Familiares passaram a receber áudios e mensagens de texto que destoavam da maneira habitual de a vítima se comunicar.

As mensagens transmitiam a impressão de que o homem estava bem e retornaria para casa, numa possível estratégia para retardar as buscas.

Durante as diligências, entretanto, surgiram indícios de que ele já havia sido capturado. Um amigo teria ouvido uma ligação indicando que a vítima estava sendo mantida em cativeiro.

“TRIBUNAL DO CRIME” - As investigações apontam que o homem teria sido submetido posteriormente a um “tribunal do crime”.

De acordo com a apuração policial, o sequestro e a execução teriam sido uma retaliação interna da facção porque a vítima estaria vendendo drogas sem autorização do grupo criminoso.

Depois da suposta execução, o corpo teria sido ocultado.

A Polícia Civil realiza buscas em locais apontados durante a investigação como possíveis áreas utilizadas para esconder o cadáver, que ainda era procurado quando a operação foi deflagrada.

A própria denominação da Operação Sepélio faz referência à principal hipótese investigada.

Segundo a Polícia Civil, “Sepélio” deriva de expressão latina relacionada a enterrar ou fazer desaparecer e foi escolhida em razão da suspeita de execução seguida de ocultação do corpo.

A investigação também encontrou indícios de possível fraude processual, com ações que teriam sido praticadas para dificultar ou atrapalhar a apuração do desaparecimento e do homicídio.

O caso evidencia uma das faces mais violentas do domínio exercido por organizações criminosas: além da comercialização de entorpecentes, grupos investigados tentam impor regras próprias sobre quem pode atuar no mercado ilegal e recorrem à violência contra aqueles que supostamente descumprem essas determinações.

No caso de Campos de Júlio, essa interpretação decorre diretamente da hipótese policial de que a vítima foi punida por comercializar drogas sem autorização da facção.

FACÇÃO NO NORTE DO ESTADO - Horas antes, outra operação havia revelado a presença organizada de uma facção em Colíder e municípios da região.

Na Operação Blast Primário, cinco pessoas foram presas sob investigação por integrar um grupo criminoso ligado ao tráfico de drogas.

Ao todo, foram cumpridas 15 ordens judiciais, entre mandados de prisão preventiva, busca e apreensão e quebra de sigilo de dados de aparelhos telefônicos.

A investigação da Delegacia de Colíder identificou elementos que, segundo a Polícia Civil, apontam para a participação dos investigados na comercialização e distribuição de entorpecentes.

As medidas foram autorizadas pelo Poder Judiciário e a operação teve apoio das delegacias de Paranaíta, Nova Bandeirantes e Nova Canaã do Norte.

A presença de policiais de diferentes municípios também demonstra a dimensão regional da investigação.

A própria Polícia Civil informa que a operação integra ações destinadas a desarticular a atuação organizada das facções no interior de Mato Grosso.

DO TRÁFICO AO CONTROLE - Os dois episódios têm características distintas e não há, no boletim policial, informação de que estejam relacionados entre si.

Juntos, porém, mostram duas dimensões da atuação investigada das organizações criminosas no interior.

Em Colíder, a apuração está concentrada na estrutura destinada à comercialização e distribuição de drogas.

Em Campos de Júlio, a investigação vai além: aponta para uma organização capaz de preparar uma emboscada, manter uma vítima em cativeiro, realizar um julgamento clandestino, executar uma punição e tentar ocultar tanto o crime quanto o cadáver.

É essa transformação que preocupa as forças de segurança.

O chamado “tribunal do crime” funciona, nas investigações policiais, como instrumento para impor disciplina interna e intimidar pessoas submetidas às regras das organizações criminosas.

No episódio investigado pela Operação Sepélio, a suspeita é justamente de que a execução tenha sido determinada como punição pela comercialização de drogas fora do controle da facção.

A apuração também mostra preocupação dos criminosos em impedir que o desaparecimento despertasse suspeitas imediatas.

As mensagens enviadas aos familiares, aparentemente simulando que a vítima continuava livre e estava bem, são investigadas como parte dessa tentativa.

O desaparecimento, portanto, não teria terminado com a execução. Segundo a hipótese policial, houve ainda esforço para esconder o corpo e dificultar o trabalho dos investigadores.

INTERIOR NA MIRA - As operações realizadas simultaneamente em diferentes regiões reforçam a necessidade de medir a extensão do fenômeno em Mato Grosso.

Os dados disponíveis no boletim não permitem afirmar quantos “tribunais do crime” foram identificados no Estado, quantas pessoas foram executadas após esses julgamentos clandestinos ou quantos desaparecimentos estão relacionados às facções.

Esse é o próximo passo necessário para dimensionar o problema.

A Polícia Civil pode esclarecer quantos homicídios, sequestros e desaparecimentos investigados em 2025 e 2026 apresentam indícios de “tribunal do crime”; quais regiões concentram ocorrências; quais são as principais motivações atribuídas às execuções; e quantas vítimas continuam desaparecidas.

O caso de Campos de Júlio já fornece um retrato da violência associada a esse mecanismo.

Um homem desaparece, familiares recebem mensagens destinadas aparentemente a tranquilizá-los, surgem indícios de cativeiro e a investigação termina apontando para julgamento clandestino, execução e ocultação do cadáver.

Enquanto as buscas pelo corpo prosseguem, a Operação Sepélio tenta identificar todos os participantes e reconstruir cada etapa do crime.

Mais do que esclarecer uma execução, a investigação pode ajudar a revelar até onde alcança o poder das facções em municípios do interior de Mato Grosso — e em que medida organizações criadas em torno do tráfico passaram também a impor suas próprias regras, punições e sentenças.

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