Terça-feira, 29 de setembro de 2026

Vírus podem causar doenças neurológicas

Estudos revelam associação e servem de alerta para que médicos considerem esses vírus no diagnóstico de males do sistema nervoso

Vírus podem causar doenças neurológicas
Mesmo sem sintomas, dengue, zika e chicungunha – transmitida pelo mosquito aedes aegypti - podem causar doenças neurológicasFoto: Arquivo Colíder News
Chicungunha, dengue e zika são uma ameaça maior do que se imaginava. Cientistas brasileiros descobriram que eles podem permanecer por longos períodos incógnitos e causar doenças neurológicas graves, como encefalite (inflamação do cérebro capaz de paralisar e matar), mesmo em pessoas sem sintomas de infecção. O alerta é para que os médicos considerem esses vírus no diagnóstico de doenças do sistema nervoso, pois isso faria diferença no tratamento de complicações incapacitantes e potencialmente letais. 

A associação entre esses vírus e distúrbios neurológicos graves foi identificada em estudos de pesquisadores do Rio de Janeiro e do Piauí. A recomendação é a mesma: “Pacientes com encefalites e outros distúrbios do sistema nervoso devem ser submetidos a exames de identificação desses vírus”, afirma Soniza Alves-Leon, coordenadora de um projeto sobre chicungunha, zika e doenças neurológicas no Rio e professora de neurologia da UFRJ e da Unirio. 

O chicungunha provoca maior apreensão, pois está em franca expansão, com um aumento de 720% do número de casos no estado do Rio. E a chegada do verão favorece a proliferação do transmissor Aedes aegypti, pois o calor estimula a reprodução do mosquito. 

O chamado caso zero foi o de uma moradora do Rio, de 35 anos, que sofria de esclerose múltipla desde 2012 e tinha os sintomas dessa doença controlados. Em 2015, porém, ela desenvolveu rapidamente um quadro gravíssimo de encefalomielite disseminada, uma condição chamada Adem. 

A mulher nunca manifestou qualquer sinal da infecção por zika, mas foi este o vírus encontrado em seu sangue. O zika provocou uma reação do sistema imunológico que fez o próprio organismo da paciente atacar as células nervosas. 

Tratada então adequadamente — não há drogas contra o zika, mas é possível tentar controlar sua ação — a paciente se recuperou. Mas continua a ser acompanhada porque, como observaram Leon e colaboradores no artigo que descreve o caso, há pouco conhecimento sobre o tempo que o zika pode permanecer latente no organismo humano. Neste momento, o grupo de Leon acompanha quatro casos de encefalomielite associados a zika e três casos de neurite ótica a chicungunha. 

“Precisamos descobrir por quantos anos esses vírus podem permanecer incógnitos. Eles podem causar a doença mesmo em pessoas que não sabem que foram infectadas porque não tiveram sintomas”, ressalta a neurologista. 

Estima-se que apenas 20% das pessoas infectadas por zika e dengue manifestam sintomas. Com o chicungunha essa proporção se inverte e 80% têm manifestações da doença, quase sempre dores articulares intensas que podem permanecer por mais de seis meses. 

Leon ressalta que zika, dengue e chicungunha tanto agridem diretamente o sistema nervoso quanto funcionam como um gatilho para deflagrar um ataque do próprio organismo contra as células do sistema nervoso. 

AMEAÇA GRAVÍSSIMA - O estudo coordenado pela neurologista reúne Unirio, UFRJ e Fiocruz e já tem 500 das 2 mil pessoas de todo o estado do Rio que serão acompanhadas por dois anos. Os cientistas querem saber, por exemplo, se existe algum fator genético que torna uma pessoa suscetível a desenvolver um quadro grave. 

“Não sabemos se os vírus se tornaram mais agressivos ou se a epidemia se alastrou de tal forma que pessoas mais vulneráveis começaram a ser infectadas. O certo é que representam uma ameaça gravíssima para a saúde pública, principalmente porque o mosquito, sem saneamento, está incontrolável”, explica Renato Santana, do Laboratório de Virologia Molecular da UFRJ, que faz análises genéticas dos vírus no Rio. 

Desde meados dos anos 2000 já se sabia que a dengue poderia evoluir em casos, até então considerados raros, para um quadro neurológico grave. Mas foi a zika, ao causar microcefalia e uma série de outras anomalias em bebês durante a gestação e síndrome de Guillain-Barré em adultos, que acendeu o alerta vermelho sobre o risco do vírus afetar o sistema nervoso. O seguinte a entrar na lista dos agressores do sistema nervoso foi o chicungunha. Zika e dengue são parentes — flavívirus, assim como o causador da febre amarela. Já o chicungunha é um alfavírus. Em comum, todos se propagam com o Aedes. 

O risco de zika, chicungunha e dengue provocarem doenças neurológicas é destacado num recém-publicado estudo da revista “Memórias do Instituto Oswaldo Cruz”, assinado por cientistas da Secretaria de Saúde do Piauí e do Instituto Evandro Chagas, no Pará. A pesquisa mostra que, no estado, um terço dos casos de encefalites, encefalomielites, mielites e Guillain-Barré registrados entre 2015 e 2016 foi causado por dengue, zika ou chicungunha. 

O Piauí acompanha com atenção especial a associação entre vírus e encefalites desde 2014 devido a um caso da doença provocado pelo vírus do Oeste do Nilo, um flavívirus como zika e dengue. O médico e pesquisador Marcelo Adriano Vieira, do Instituto de Doenças Tropicais Natan Portella, em Teresina, principal autor do estudo, reforça o alerta: “Os médicos precisam considerar esses vírus no diagnóstico, pois isso muda o tratamento. Mesmo pessoas que não tiveram os sintomas convencionais de zika, dengue e chicungunha podem desenvolver a forma neurológica”. 

Vieira, que também já descreveu um caso de encefalite por zika sem sintomas da infecção, é um dos autores de um estudo que demonstra claramente a relação entre a estação chuvosa e o aumento dos casos de dengue, seguido por uma elevação de casos de doenças neurológicas. 

“ São doenças graves e nem sabemos ainda a extensão dos danos, pois apenas 10% dos casos são confirmados por testes sorológicos no país. Os exames são caros e pouco acessíveis. Nosso modelo de urbanização e falta de saneamento favorece o mosquito. Estamos diante de um dos grandes problemas de saúde no Brasil”, salienta. 
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