Segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Antibióticos podem alterar o microbioma intestinal por até oito anos, aponta estudo

A clindamicina e as fluoroquinolonas, em particular, podem causar sinais e sintomas gastrointestinais, como náuseas, diarreia e vômitos, e esses medicamentos estão associados a maior risco de infecção por Clostridioides difficile, explicou o Dr. Gabriel a

Antibióticos podem alterar o microbioma intestinal por até oito anos, aponta estudo
Foto: Arquivo Colíder News
Em comparação com pacientes que não tomaram antibióticos, aqueles tratados com determinados antimicrobianos apresentam alterações no microbioma intestinal até oito anos depois. As diferenças mais marcantes estão associadas ao tratamento prévio com clindamicina, fluoroquinolonas e flucloxacilina, segundo nova pesquisa.


“Podemos ver que o uso de antibióticos entre quatro e oito anos antes está ligado à composição atual do microbioma intestinal de uma pessoa”, afirmou o primeiro autor, o médico Dr. Gabriel Baldanzi, da Institutionen för medicinska vetenskaper na Uppsala universitet, Uppsala, na Suécia, em comunicado à imprensa sobre o estudo, publicado no periódico Nature Medicine.

“Até mesmo um único ciclo de tratamento com certos tipos de antibióticos deixa vestígios”, relatou o pesquisador.

Embora, em alguns casos, sejam essenciais para o tratamento de infecções, os antibióticos têm efeitos bem conhecidos no microbioma intestinal, pois esses fármacos podem não diferenciar as bactérias nocivas das benéficas, estas últimas importantes para o funcionamento adequado do intestino.

A clindamicina e as fluoroquinolonas, em particular, podem causar sinais e sintomas gastrointestinais, como náuseas, diarreia e vômitos, e esses medicamentos estão associados a maior risco de infecção por Clostridioides difficile, explicou o Dr. Gabriel ao Medscape.

“No entanto, esses quadros costumam ocorrer durante ou logo após o tratamento”, afirmou o médico.

Pesquisas anteriores, entretanto, mostraram que a redução da diversidade da flora intestinal pode ser mais duradoura. Como o uso frequente de antibióticos está associado ao aumento do risco de efeitos adversos, incluindo infecções gastrointestinais e de diabetes mellitus do tipo 2, há um interesse crescente em compreender a natureza e a duração desses efeitos.

Para analisar o assunto, o Dr. Gabriel e colaboradores avaliaram dados do registro sueco de medicamentos prescritos (Svenska registret över receptbelagda läkemedel), juntamente com dados de biobancos suecos contendo metagenomas fecais de 14.979 adultos.

O estudo excluiu pacientes que haviam recebido prescrição de antibióticos nos 30 dias que antecederam a coleta de dados, bem como aqueles com doença inflamatória intestinal e doença pulmonar crônica.

Em geral, os antibióticos mais prescritos para a população estudada foram a penicilina V, as penicilinas de amplo espectro e as tetraciclinas.

Os resultados mostraram que, após ajuste multivariado, o uso de antibióticos menos de um ano antes da coleta de amostras fecais foi associado a uma maior redução da diversidade de espécies. Especificamente, a clindamicina, as fluoroquinolonas e a flucloxacilina foram mais fortemente associadas a alterações na abundância de espécies.

Em relação à riqueza das espécies, cada ciclo de clindamicina menos de um ano antes da coleta de amostras fecais foi associado a uma redução média de 47 espécies detectadas, enquanto cada ciclo de fluoroquinolonas ou flucloxacilina foi associado a uma redução média de 20 e 21 espécies, respectivamente.

Além disso, o uso desses antibióticos entre quatro e oito anos antes da coleta das amostras foi associado a alterações em 10% a 15% da abundância das espécies estudadas.

“Sabidamente, alguns antibióticos, como a clindamicina e as fluoroquinolonas, promovem profundas modificações no microbioma intestinal; portanto, era de se esperar que algumas dessas mudanças pudessem perdurar por pelo menos quatro a oito anos, possivelmente por mais tempo”, afirmou o Dr. Gabriel.

“Contudo, foi surpreendente constatar que algo tão simples quanto a riqueza de espécies não foi recuperada”.

“Isso indica que algumas espécies de bactérias podem desaparecer do intestino após o tratamento com determinados antibióticos”, acrescentou o médico.

Por outro lado, não foram detectadas associações com as penicilinas de amplo espectro nem, especificamente, com os antibióticos pivmecilinama, a combinação sulfametoxazol- trimetoprima ou a amoxicilina, isoladamente ou associada ao ácido clavulânico.

Alterações a longo prazo mesmo após um único ciclo
Evidências de alterações no intestino anos após a exposição foram observadas mesmo após apenas um ciclo de tratamento com alguns medicamentos. A análise incluiu 7.664 participantes, comparando 3.356 que receberam um único ciclo de antibióticos com 4.308 que não receberam nenhum ciclo nos oito anos anteriores à coleta das amostras fecais.

Esses resultados mostraram que um único ciclo de tetraciclinas, flucloxacilina, fluoroquinolonas, clindamicina, sulfametoxazol-trimetoprima, cefalosporinas ou macrolídios, administrado menos de quatro anos ou entre quatro e oito anos antes da coleta, foi associado a uma menor diversidade de espécies de bactérias no microbioma intestinal.

De modo geral, os resultados foram consistentes entre os diferentes grupos etários e entre os sexos.

O Dr. Gabriel observou que foi ainda mais surpreendente encontrar uma associação entre a flucloxacilina e a perda da diversidade.

“A flucloxacilina é considerada um antibiótico de espectro estreito, com atividade contra um grupo de bactérias conhecido como bactérias Gram-positivo”, explicou o médico. “Precisamos de mais estudos para compreender melhor os mecanismos por trás desses achados”.

A avaliação da recuperação do microbioma intestinal mostrou ainda que a recuperação foi mais rápida nos dois primeiros anos após a exposição ao antibiótico, com desaceleração evidente nos anos subsequentes.

Os autores também ressaltaram que o índice de recuperação após o uso de antibióticos foi considerado proporcional à magnitude da redução inicial da diversidade.

Efeitos clínicos?
Em termos de implicações clínicas das alterações da diversidade do microbioma, pesquisas prévias também associaram o uso de clindamicina, fluoroquinolonas e flucloxacilina a uma maior abundância de espécies de bactérias especificamente relacionadas a maior índice de massa corporal, hipertrigliceridemia séricos e maior risco de diabetes do tipo 2.

No entanto, faltam evidências de causalidade, e são necessárias mais pesquisas para compreender melhor as implicações exatas, afirmou o Dr. Gabriel.

“Sabemos que a composição do microbioma intestinal costuma refletir a saúde cardiometabólica da pessoa — níveis de colesterol, níveis de glicose e gordura corporal”, explicou o médico. “Alterações do microbioma também já foram descritas em doenças intestinais, como a constipação e doença inflamatória intestinal”.

“No entanto, ainda não foi determinado se as alterações do microbioma intestinal causadas pelos antibióticos podem contribuir para o surgimento dessas doenças anos mais tarde”, acrescentou Dr. Gabriel.

As questões mais importantes para pesquisas futuras englobam a possibilidade de fatores genéticos ou outros fatores que possam predispor certas pessoas a esses efeitos. 

“Isso não foi algo que tenhamos examinado em nosso estudo, mas certamente merece maior avaliação”, pontuou Dr. Gabriel.

Enquanto isso, simplesmente recorrer a outros antibióticos para evitar efeitos intestinais pode ser complicado por uma série de fatores, observou o pesquisador.

Entre eles estão “o tipo e a gravidade da infecção, o perfil de resistência aos antimicrobianos das bactérias causadoras da infecção, a história de uso de antibióticos e as possíveis alergias do paciente”.

Outro argumento a favor da prudência no uso de antibióticos
Os resultados, todavia, reforçam os esforços atuais para promover o uso racional dos antibióticos.

“A principal razão para restringir o uso de antibióticos é o risco de favorecer a resistência bacteriana”, explicou o Dr. Gabriel. “Ainda assim, nosso estudo acrescenta outro argumento para essa restrição: a saber, as alterações do microbioma intestinal que podem persistir por muitos anos”.

“À medida que o estudo do microbioma avança, nosso conhecimento acerca da repercussão de longo prazo do tratamento com antibióticos, para além das infecções e da resistência bacteriana, pode revelar outras implicações para a saúde”.

Conhecer melhor os efeitos a longo prazo será ‘crucial’
Convidado pelo Medscape para comentar o estudo, o médico Dr. Adam Faye, professor associado de medicina e saúde da população e diretor de pesquisa clínica do Inflammatory Bowel Disease Center na New York University Langone Health, nos Estados Unidos, observou: “Parece-me que, embora já suspeitássemos, com base em dados anteriores, que os antibióticos podem interferir no microbioma intestinal por períodos mais longos do que se acreditava inicialmente, este estudo confere mais robustez e fornece mais dados para corroborar essa hipótese”.

“Conhecer não somente a duração desse impacto, mas também as alterações que podem ocorrer em decorrência dos diferentes tratamentos com antibióticos é muito relevante para orientar futuras pesquisas nesse campo”, acrescentou o comentarista.

Em pesquisas anteriores, o Dr. Adam e colaboradores demonstraram um aumento do risco de doença inflamatória intestinal mesmo cinco anos após um tratamento com antibióticos; portanto, “um efeito que persiste por oito anos não chega a surpreender”, observou.

“Dito isso, o fato de que um único tratamento com antibióticos possa influenciar a composição do microbioma por tantos anos continua sendo relevante”, afirmou.

“O impacto diminui proporcionalmente ao aumento do tempo desde a exposição; portanto, compreender seus efeitos de longo prazo, não apenas no microbioma, mas também nos desfechos clínicos, será fundamental para contextualizar adequadamente esses achados”.

O Dr. Adam concordou que, em última análise, a principal implicação é que “os antibióticos revolucionaram a medicina e são genuinamente capazes de salvar vidas. No entanto, em casos de suspeita de infecção viral, ou quando os dados clínicos indicarem uma conduta expectante, evitar os antibióticos quando sua indicação não for inequívoca pode ajudar a reduzir os riscos de longo prazo associados à alteração do microbioma”.

Os Drs. Gabriel Baldanzi e Adam Faye informaram não ter conflitos de interesse. Os conflitos de interesses dos demais autores estão descritos na publicação do estudo.

Este conteúdo foi traduzido de Medscape

Fonte: Nancy A. Melville l Medscape
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