Quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Ao receber navio da China e reforçar o Brics, Brasil desafia estratégia dos EUA

Documento estratégico dos EUA pressiona aliados a reduzir influência chinesa enquanto Brasil aposta no Brics e no multilateralismo

Ao receber navio da China e reforçar o Brics, Brasil desafia estratégia dos EUA
Foto: Arquivo Colíder News
A autorização do governo brasileiro para a atracação de um navio-hospital da Marinha da China em águas nacionais ocorre no mesmo momento em que os Estados Unidos tornam pública uma nova Estratégia Nacional de Defesa voltada a reduzir — e, quando possível, eliminar — a presença de potências estrangeiras no Hemisfério Ocidental. 

A coincidência temporal transforma um ato formalmente diplomático em um gesto carregado de significado geopolítico e evidencia um choque direto entre as prioridades estratégicas de Brasília e Washington.

Brasil e Estados Unidos passam, assim, a operar em vetores distintos nos planos político, diplomático e econômico. Enquanto o Brasil reforça uma política externa baseada no multilateralismo, na solução pacífica de conflitos, no fortalecimento da voz dos países em desenvolvimento e na ampliação da cooperação internacional, os Estados Unidos sinalizam uma releitura contemporânea da Doutrina Monroe. 

Essa atualização busca assegurar controle estratégico do Hemisfério Ocidental por meio de presença militar ampliada, domínio sobre ativos estratégicos — como terras-raras e infraestrutura crítica —, relações bilaterais assimétricas e a redução da influência de potências extrarregionais, especialmente a China.

Essas diretrizes estão explicitadas nas versões mais recentes das Estratégias Nacionais de Defesa de ambos os países. O Brasil divulgou a sua no início de novembro e deixou claro que o país corre o risco de ser arrastado para conflitos regionais, agravados pela competição entre grandes potências.

Já os Estados Unidos publicaram a atualização no site da Casa Branca semanas depois, em 4 de dezembro, reforçando o contraste de abordagens.

Brasil autoriza navio da Marinha da China a entrar em águas nacionais
A divergência estratégica ganha contornos concretos com a autorização para a atracação do navio-hospital Ark Silk Road, pertencente à Marinha chinesa. O documento oficial, publicado no Diário Oficial da União pelo Estado-Maior da Armada (órgão de direção-geral da Marinha) em 18 de novembro, autoriza a permanência da embarcação no porto do Rio de Janeiro entre os dias 8 e 15 de janeiro de 2026, se não houver atrasos.

À época, o governo brasileiro não divulgou oficialmente os objetivos da visita. A imprensa chinesa, no entanto, noticiou amplamente que a embarcação integra a Missão Harmonia 2025, uma operação de caráter humanitário e de assistência médica que já percorreu diversos países do Pacífico Sul e que agora se estende à América Latina.

De acordo com verificação realizada pelo Sociedade Militar neste domingo, 28 de dezembro, o Ark Silk Road encontra-se em Valparaíso, no Chile. Além de Brasil e Chile, a imprensa chinesa indica que o Peru também deve receber a embarcação.

O navio-hospital possui características que evidenciam sua dimensão e capacidade logística:

178 metros de comprimento
24 metros de largura
35,5 metros de altura
14.300 toneladas de deslocamento
velocidade máxima de 20 nós
O navio da Marinha chinesa conta ainda com 300 camas para pacientes, 8 mesas cirúrgicas, 2.400 equipamentos médicos, 14 departamentos clínicos, 7 unidades auxiliares de diagnósticos, capacidade de realizar mais de 60 tipos de procedimentos médicos e 1 helicóptero a bordo para resgates de emergência.

Estados Unidos querem barrar a China no Hemisfério Ocidental
Na sua nova Estratégia Nacional de Defesa, os Estados Unidos afirmam reiteradamente o objetivo de “restaurar a preeminência americana” no Hemisfério Ocidental e de proteger a pátria e o acesso a geografias consideradas chave para sua segurança nacional.

O documento é explícito ao declarar: “Negaremos aos concorrentes não hemisféricos a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais, em nosso Hemisfério”. 

No conceito adotado por Washington, o Hemisfério Ocidental compreende todos os países situados a oeste do Meridiano de Greenwich, abrangendo não apenas todo o continente americano, mas também porções da Europa, da África e da Antártida.

Sob essa ótica, a atracação do navio chinês no Brasil não representa um desafio militar direto, já que não se trata de uma embarcação de combate. O ponto sensível é a presença. 

O governo norte-americano deixa claro que não aceita qualquer presença militar de grandes potências que não sejam os próprios Estados Unidos no Hemisfério Ocidental.

Para sustentar essa diretriz, Washington delineou quatro eixos principais de ação:

1. Reajustar a presença militar na região

2. Ampliar a atuação da Guarda Costeira e da Marinha para o controle de rotas marítimas, combate à imigração ilegal e às chamadas “imigrações indesejadas”, além da redução do tráfico de pessoas e de entorpecentes

3. Garantir a segurança das fronteiras e derrotar cartéis

4. Estabelecer ou expandir o acesso a locais estrategicamente importantes

Para o Brasil, as implicações mais sensíveis concentram-se no quarto ponto. A Estratégia Nacional de Defesa dos EUA afirma que o país pretende aprofundar parcerias com aliados tradicionais, expandir sua rede de influência e fazer com que outras nações passem a enxergá-lo como parceiro preferencial.

Hoje, no entanto, o maior comprador do Brasil é a China. O caso não é único no continente americano. Chile e Peru também vendem mais para a China do que para qualquer outro país. E outras nações, como Equador, Argentina e Bolívia, se relacionam fortemente com o regime comunista, segundo dados do Banco Mundial.

Nesse contexto, a nova formulação da Doutrina Monroe deixa claro que os Estados Unidos estão dispostos a empregar diferentes instrumentos de pressão para fazer valer essa prioridade. O documento afirma que, “por meio de diversos meios”, Washington buscará desencorajar a colaboração de países do hemisfério com outras potências.

Segundo a Estratégia, concorrentes de fora do Hemisfério Ocidental vêm realizando incursões significativas na região, capazes de desfavorecer os interesses norte-americanos no presente e de criar riscos estratégicos no futuro. 

Por essa razão, os Estados Unidos passam a condicionar ajuda militar, financeira, tecnológica ou diplomática à redução da chamada “influência externa adversária” e à limitação do controle estrangeiro sobre portos, bases, infraestrutura crítica e outros ativos estratégicos.

O próprio documento admite, contudo, que algumas dessas influências podem ser difíceis de reverter, dada a existência de alianças políticas entre governos latino-americanos e atores estrangeiros. 

Ainda assim, Washington avalia que muitos países não estão ideologicamente alinhados a essas potências, mas são atraídos por fatores como custos mais baixos e menor exigência regulatória.

Para enfrentar esse cenário, os Estados Unidos pretendem neutralizar a vantagem competitiva chinesa, argumentando que produtos e serviços do país asiático envolvem riscos de espionagem, ameaças à segurança cibernética e potenciais armadilhas da dívida.

Enquanto os EUA buscam controle, o Brasil aposta na articulação global
Em sentido oposto, relatório do governo brasileiro sobre a política externa nos últimos 3 anos, divulgado neste sábado, 27 de dezembro, explicita uma estratégia voltada à participação ativa em fóruns multilaterais, ao exercício de liderança em agendas globais e à ampliação do comércio exterior. 

Embora o documento não trate diretamente de defesa, o Brasil vem registrando nos últimos meses um crescimento expressivo de parcerias nessa área, especialmente com Japão, Turquia e Indonésia.

Nesse cenário, o Brasil aposta no Brics, fórum de cooperação política e econômica fundado por Brasil, China, Índia e Rússia e que atualmente conta com diversos membros, como Irã, Indonésia, Etiópia, Egito, África do Sul e Emirados Árabes, além de uma categoria de parceiros, formada por nações como Bolívia, Cuba, Tailândia, Nigéria, Vietnã e Malásia.

O grupo reúne parcela significativa da população mundial, da produção de alimentos e da geração de energia, refletindo-se também em seu peso no Produto Interno Bruto global. 

Segundo o governo brasileiro, o objetivo central é fortalecer a voz dos países em desenvolvimento no sistema internacional. Durante a Cúpula dos Chefes de Estado do Brics, realizada em julho no Rio de Janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva resumiu essa visão.

“O Brics é um novo jeito de a gente fazer o multilateralismo sobreviver no mundo. A gente não quer mais um mundo tutelado. A gente quer fortalecer o processo democrático, o processo multilateral. A gente quer a paz, o desenvolvimento e a participação social. Se a gente quiser criar alguma coisa nova no mundo, a gente vai ter que criar novos paradigmas de participação e não pode repetir os mesmos erros”.

Outros pontos destacados no relatório de 3 anos da política externa brasileira incluem:

reforço da integração regional como instrumento de desenvolvimento, com ênfase no Mercosul
centralidade da agenda ambiental, especialmente no contexto da COP 30
defesa da democracia, da paz e do multilateralismo, com menção à 5ª Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), realizada em novembro na Colômbia
Em discurso na Celac, Lula afirmou que a democracia é um valor inegociável e condição essencial para o desenvolvimento e a estabilidade institucional. 

Já durante a 47ª Cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), realizada em outubro na Malásia, onde se encontrou pessoalmente com o presidente Donald Trump para negociar o fim do tarifaço, o presidente brasileiro voltou a enfatizar a defesa da cooperação internacional e de uma ordem mundial multipolar.

“Somos países diversos, com culturas plurais, histórias entrelaçadas e desafios comuns. Partilhamos a convicção de que um mundo multipolar é mais propício à paz do que um planeta dividido por rivalidades estratégicas. Consideramos a cooperação um caminho mais promissor para a prosperidade do que a competição”.

Fonte:  Campos l Revista Sociedade Militar
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