Quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Após 20 anos, famílias das vítimas relembram maior acidente do programa espacial brasileiro: 'Tinham amor pelo projeto'

Em 22 de agosto de 2003, um foguete Veículo Lançador de Satélites (VLS) deu partida antecipada e matou 21 profissionais civis no Centro de Lançamento de Alcântara. Vítimas eram de São José dos Campos (SP).

Após 20 anos, famílias das vítimas relembram maior acidente do programa espacial brasileiro: 'Tinham amor pelo projeto'
Foto: Arquivo Colíder News

"Eles estavam no programa como uma missão de vida, se orgulhavam muito do que faziam".


Assim relembra o advogado José de Oliveira, irmão de Rodolfo Donizetti de Oliveira, técnico em mecânica e uma das vítimas do maior acidente da história do Programa Espacial Brasileiro, na Base de Alcântara, no norte do Maranhão, que completa 20 anos nesta terça-feira (22).

No dia 22 de agosto de 2003, o foguete Veículo Lançador de Satélites (VLS), que levaria para o espaço o primeiro satélite de fabricação nacional e seria lançado três dias depois, passava por ajustes finais da Torre Móvel de Integração (TMI) quando uma ignição prematura de um dos motores, às 13h26, resultou na explosão do protótipo de 21 metros de altura.


Na explosão, 21 profissionais civis que estavam trabalhando no Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), morreram na hora. Todos eles eram do Comando-Geral de Tecnologia Aeroespacial (CTA), com base localizada na cidade de São José dos Campos (SP).

A causa apontada pelo relatório final de investigação, concluído pelo Comando da Aeronáutica em fevereiro de 2004, foi um "acionamento intempestivo" provocado por uma pequena peça que ligava o motor.

Base de Alcântara antes do acidente — Foto: Reprodução/ TV Vanguarda

Base de Alcântara antes do acidente — Foto: Reprodução/ TV Vanguarda

União das famílias

Poucos dias após a tragédia, antes mesmo do velório ou de saber se os parentes haviam morrido, os familiares dos trabalhadores precisaram se unir para ajudar na identificação dos corpos. As equipes estavam com dificuldades para conseguir identificar os mortos e cada detalhe informado pelas famílias foi fundamental para dar rosto às vítimas.


"A gente precisou se unir logo após o acidente, isso foi muito necessário porque como foi longe daqui e todas as famílias eram daqui, tinha que ter o reconhecimento dos corpos através de outros meios como arcadas dentárias", contou Doris Cezarini, viúva de Antônio Sérgio Cezarini, engenheiro que tinha 47 anos e fazia a função de cinegrafista na missão.

"Viúvas, famílias, irmãos, tudo para a gente poder ajudar já que não tinha um protocolo de registros. Precisamos ir buscando entre as famílias se o parente tinha obturação no dente, uma marca de cirurgia, para identificar os corpos. Nos juntamos para pegar essa informações e passar ao IML de lá", lembrou.

Profissionais foram enterrados com honras militares — Foto: Reprodução

Profissionais foram enterrados com honras militares — Foto: Reprodução


O velório coletivo foi realizado na cidade de São José dos Campos no dia 27 de agosto daquele ano e contou com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Sila (PT), que solicitou aos familiares uma associação de familiares das vítimas.

"Naquele dia, quando cheguei ao caixão do meu irmão passei mal, desmaiei, foi bem difícil. Fui chamado pelo presidente e o próprio me disse: 'eu sei que vocês terão várias questões para discutir com o governo e sei que os problemas não são iguais. Para que não fique um atendimento mal feito, eu proponho que vocês façam uma associação que representem as famílias e com ela venham ao governo e tratem as questões que cada família precisa'", relembrou José Oliveira.

"Coloquei a ideia na cabeça e as famílias me delegaram a tarefa de elaborar a associação. Eu fui nomeado presidente, por ser um dos familiares e também pela minha formação. O governo se comprometeu a conceder bolsa educação, assistência psicológica, indenização", contou.

Uma das pessoas que apoiou a criação da associação foi a Doris, que ficou viúva de Antônio. "Entendemos que precisávamos unir, ter um porta-voz, auxílio, todos precisavam de tratamento psicológico", disse Doris.

Explosão ocorreu às 13h26 do dia 22 de agosto de 2003 — Foto: Reprodução

Explosão ocorreu às 13h26 do dia 22 de agosto de 2003 — Foto: Reprodução



Por João Delfino*, g1 Vale do Paraíba e Região
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