Levar o celular ao banheiro pode transformar uma ida rápida ao vaso sanitário em vários minutos de vídeos e redes sociais. O hábito prolonga o tempo sentado, pode favorecer problemas na região anal e ainda expõe o aparelho a microrganismos presentes nas mãos e no ambiente.
Um estudo publicado em 2025 na revista científica PLOS One avaliou 125 adultos submetidos a colonoscopia de rastreamento, dos quais 66% relataram usar o smartphone no vaso sanitário. Entre os usuários, 37,3% permaneciam mais de cinco minutos sentados, ante 7,1% entre aqueles que não utilizavam o aparelho.
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Após considerar fatores como idade, sexo, índice de massa corporal, atividade física, esforço para evacuar e consumo de fibras, os pesquisadores encontraram associação entre o uso do smartphone no banheiro e risco 46% maior de hemorroidas.
O gastroenterologista e proctologista Jacques Matone, membro titular do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva (CBCD), explica que a principal questão é a distração provocada pelo aparelho.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles Saúde e Ciência“O problema não é levar o celular para o banheiro, mas o transformar o vaso sanitário em uma poltrona. O celular faz a pessoa perder a noção do tempo. Ela entra para evacuar e, quando percebe, está há 10, 15 ou até 20 minutos sentada no vaso.”
Cinco minutos costumam ser suficientes
Ficar sentado por muito tempo, principalmente fazendo força para evacuar, aumenta a pressão sobre a região anal e pode favorecer o aparecimento ou agravamento de hemorroidas, com sintomas como sangramento, dor, coceira e prolapso. Fezes ressecadas e constipação também aumentam o esforço e podem contribuir para fissuras anais.
Ricardo Junio Garcia, chefe do serviço de Coloproctologia do Hospital São Vicente de Paulo (HSVP-RJ), recomenda encerrar a permanência no vaso após a evacuação.
“Temos que criar mecanismos para sair do vaso assim que terminamos a evacuação, como um alarme no próprio celular para limitar o tempo ali. Em média, cinco minutos costumam ser suficientes”, afirma.
Matone também considera razoável permanecer entre três e cinco minutos. Segundo o médico, quem passa regularmente mais de dez minutos no vaso, principalmente fazendo força, deve rever o hábito. Permanências frequentes de 20 ou 30 minutos merecem investigação quando acompanhadas de dor, sangramento, constipação ou sensação de evacuação incompleta.
Outro problema que pode ocorrer, principalmente em pessoas predispostas, é o prolapso retal, quando parte do reto se exterioriza pelo ânus. A alteração pode provocar sensação de peso na pelve e sangramento, além da presença de tecido para fora após evacuar.
Garcia alerta que o quadro não deve ser automaticamente confundido com hemorroidas. Quando o prolapso retal é diagnosticado, o tratamento é cirúrgico, enquanto uma alimentação rica em fibras pode ajudar a reduzir o esforço evacuatório até a realização do procedimento.
Celular pode carregar microrganismos
Além dos impactos relacionados ao tempo no vaso, o aparelho pode ser contaminado quando uma pessoa toca superfícies do banheiro ou faz a higiene íntima e volta a manuseá-lo antes de lavar as mãos.
Pesquisas microbiológicas já encontraram em celulares bactérias da pele e das mãos, como espécies de Staphylococcus, além de enterococos e, em alguns estudos, Escherichia coli. A presença de um microrganismo no telefone, no entanto, não significa que ele tenha vindo do banheiro ou esteja em quantidade suficiente para provocar uma infecção.

Klinger Faíco, médico infectologista e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), destaca que o contato pelas mãos é uma das principais preocupações.
“O principal caminho é o contato: a pessoa toca superfícies do banheiro ou faz a higiene íntima e, antes de lavar as mãos, manuseia o aparelho. A descarga também pode dispersar partículas, sobretudo se o celular estiver próximo ao vaso. Isso não significa que usar o celular no banheiro necessariamente causará uma infecção.”
A descarga pode produzir gotículas e aerossóis que alcançam superfícies próximas, mas ainda não está bem definido quanto a via contribui para infecções no cotidiano. O risco depende de fatores como presença de agentes infecciosos nas fezes, características do vaso, distância e ventilação.
Como reduzir os riscos
A principal recomendação é deixar o celular fora do banheiro e não permanecer sentado depois de terminar a evacuação. Boa hidratação, consumo adequado de fibras, atividade física e evitar fazer força também contribuem para o funcionamento intestinal.
Quanto ao aparelho, não existe uma frequência universal de higienização. Faíco considera a limpeza diária uma medida prática para quem utiliza muito o telefone, além da higienização quando houver sujeira visível, compartilhamento ou contato com uma pessoa com gastroenterite.
Sangramento, dor anal, constipação persistente, sensação frequente de evacuação incompleta ou presença de tecido saindo pelo ânus precisam de avaliação médica, já que nem toda alteração na região é provocada por hemorroidas.


