A China decidiu enfrentar o avanço da desertificação com tabuleiros de palha espalhados sobre a areia do norte do país. A técnica reduz a movimentação dos grãos provocada pelo vento e cria condições mais favoráveis para o crescimento da vegetação. Esta é uma das estratégias utilizadas para estabilizar dunas e recuperar áreas degradadas.
O método integra os esforços da Grande Muralha Verde da China, nome associado ao Programa de Florestas Protetoras dos Três Nortes, iniciado em 1978. A iniciativa reúne projetos de reflorestamento e recuperação ambiental em uma extensa faixa do território chinês.
Apesar dos avanços, o trabalho está longe de ser simples. Em regiões áridas, plantar árvores não garante que elas sobrevivam. A disponibilidade de água, as características do solo e a escolha das espécies influenciam diretamente os resultados.






Como a palha ajuda a impedir o avanço da areia?
A técnica consiste em pressionar feixes de palha contra o solo, formando uma espécie de tabuleiro com pequenos quadrados. Parte do material fica enterrada, enquanto outra parte permanece exposta.
Essa estrutura aumenta a rugosidade da superfície e reduz a força do vento próximo ao solo. Como consequência, diminui o deslocamento da areia e facilita sua retenção em áreas específicas.
Os quadrados de palha podem ser combinados com o plantio de gramíneas e arbustos, que ajudam a estabilizar o terreno. O método também utiliza resíduos vegetais e pode ser aplicado em grandes áreas.
Embora existam equipamentos para mecanizar parte do trabalho, a instalação manual continua sendo necessária em determinados terrenos.
Grande Muralha Verde começou em 1978
O programa chinês foi criado para ampliar a cobertura vegetal e proteger regiões do norte do país contra a erosão, a degradação do solo e os efeitos das tempestades de areia.
Uma das áreas em que as técnicas de estabilização tiveram aplicação importante é Zhongwei, na região autônoma de Ningxia, no noroeste da China. As barreiras de palha começaram a ser usadas na década de 1950 para impedir que dunas móveis cobrissem a ferrovia Baotou-Lanzhou.
A experiência acumulada ao longo das décadas ajudou a consolidar o método como parte das ações de combate à desertificação. Em abril de 2026, a agência estatal chinesa Xinhua voltou a destacar o uso de barreiras de palha e de estruturas vegetais aprimoradas para conter a movimentação da areia no entorno do deserto de Tengger.
Segundo a agência, 53% das terras degradadas consideradas passíveis de recuperação na China estavam sob manejo efetivo. O indicador se refere ao conjunto das ações de controle da degradação, e não exclusivamente à área recuperada pela Grande Muralha Verde.
Por que plantar árvores não é suficiente?
Um dos maiores desafios do reflorestamento em regiões áridas é garantir que as mudas sobrevivam depois do plantio. A escassez de água, os ventos fortes e as características do solo podem dificultar o desenvolvimento das raízes.
Um estudo científico publicado em 2025 avaliou os resultados do programa chinês entre 1978 e 2022. Os pesquisadores analisaram mais de 10 mil imagens de satélite e mais de 50 mil áreas de levantamento em campo.
Segundo o estudo, a cobertura florestal na área considerada pelo programa aumentou de 5,05% em 1978 para 9,69% em 2022. No entanto, apenas 40,1% da área reflorestada durante o período foi considerada estabelecida com sucesso.
Os resultados mostram que ampliar o plantio não é suficiente. Também é necessário acompanhar o desenvolvimento da vegetação, escolher espécies compatíveis com cada ambiente e considerar a disponibilidade de água.
Por esse motivo, gramíneas e arbustos também
desempenham um papel importante. Dependendo das condições locais, as plantas podem ajudar a fixar a areia e preparar o terreno para outras espécies.A experiência também evidencia os limites de projetos ambientais de grande escala. O plantio inadequado pode consumir recursos hídricos importantes, enquanto a falta de acompanhamento compromete a sobrevivência das mudas.
Outros países também investem em barreiras verdes
A experiência chinesa faz parte de um esforço internacional para combater a desertificação e recuperar terras degradadas, como é o caso do Sahel, região situada ao sul do deserto do Saara. O projeto reúne ações de recuperação ambiental e uso sustentável da terra em diversos países.
Na Índia, o projeto foi lançado para recuperar áreas degradadas ao redor da cordilheira de Aravalli. Já a Arábia Saudita desenvolve iniciativas de restauração ambiental e ampliação da vegetação por meio da Saudi Green Initiative.
O que a Grande Muralha Verde ensina sobre a desertificação?
A principal lição do projeto chinês é que o combate à desertificação exige mais do que plantar árvores. Técnicas de estabilização da areia, como as barreiras de palha, podem ajudar a criar condições para o desenvolvimento da vegetação, enquanto a escolha das espécies e a conservação da água influenciam a sustentabilidade dos resultados.
A iniciativa demonstra que soluções simples podem ter uma função importante quando são adaptadas às condições ambientais e aplicadas em conjunto com outras medidas.


