Terça-feira, 29 de setembro de 2026

Como MT se tornou território das facções apesar da 'Tolerância Zero'

O paradoxo da segurança em Mato Grosso, quando a 'Tolerância Zero' convive com a escalada criminal

Como MT se tornou território das facções apesar da 'Tolerância Zero'
Foto: Arquivo Colíder News
Em um cenário onde os números oficiais celebram a redução da criminalidade, Mato Grosso vive um paradoxo que expõe as fragilidades do sistema de segurança pública. Enquanto o governo estadual divulga quedas expressivas nos índices de violência através do programa "Tolerância Zero contra as Facções Criminosas", a realidade nas ruas conta uma história diferente: a ascensão territorial de organizações criminosas, esquemas de corrupção envolvendo policiais e um aumento preocupante da violência que contradiz os dados oficiais.

Dados recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelam uma radiografia alarmante: 42 dos 142 municípios mato-grossenses estão sob domínio de uma ou mais facções criminosas. O Comando Vermelho (CV) mantém hegemonia em 23 cidades, incluindo a capital Cuiabá, enquanto o Primeiro Comando da Capital (PCC), a Tropa Castelar e o emergente grupo B40 disputam territórios em outras regiões. 
O Tribunal de Contas da União (TCU) identificou uma série de irregularidades na aplicação de recursos destinados à adequação de estradas vicinais em Mato Grosso, com destaque para problemas envolvendo convênios firmados pelas prefeituras de Alta Floresta, Canarana, Gaúcha do Norte e Querência. A auditoria foi solicitada pelo Congresso Nacional para verificar o uso dos repasses do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), que entre 2019 e 2023 transferiu R$ 9,2 bilhões para projetos no país.

A situação se torna ainda mais grave quando observamos que Mato Grosso foi um dos apenas dois Estados da Amazônia Legal que apresentaram crescimento na taxa de mortes violentas intencionais entre 2022 e 2023. Com uma taxa de 31,7 assassinatos por 100 mil habitantes, houve um crescimento de 8,1 mortes violentas a cada 100 mil habitantes no período.

"Nova Santa Helena ocupa a sétima posição no ranking das cidades mais violentas da Amazônia Legal, com uma taxa alarmante de 102,3 óbitos por 1.000 habitantes", aponta estudo do Instituto Mãe Crioula. A cidade, a 622 km de Cuiabá, registra a presença da Tropa do Castelar, uma dissidência do CV conhecida pela violência extrema.

O preço da guerra territorial

A disputa entre facções tem cobrado um preço alto em vidas inocentes. O caso mais emblemático foi o assassinato das irmãs Rayane e Rithiele Alves Porto, em Porto Esperidião, torturadas e mortas por supostamente fazerem com a mão o símbolo do "rock", interpretado pela cúpula do CV como um gesto da facção rival.

Em Sorriso, município que apareceu como o sétimo mais violento do país no Atlas da Violência 2024, a aliança entre PCC e Tropa Castelar intensificou os conflitos. A cidade registrou um aumento de 110% nos homicídios em 2024, saltando de 10 para 21 casos apenas na região de Alta Floresta.

A violência transcende até mesmo as forças armadas. O soldado Thiago Ribeiro de Oliveira, de 20 anos, foi assassinado em Cáceres por integrantes do CV. Segundo investigações, ele foi morto por engano - o alvo seria outro jovem, irmão de um integrante do PCC.
Corrupção nas Forças de Segurança

Um dos aspectos mais preocupantes revelados pelas investigações é o envolvimento sistemático de agentes públicos com o crime organizado. A Operação Pubblicare, deflagrada em setembro de 2024, expôs um núcleo de servidores públicos que colaboravam com facções na lavagem de dinheiro através de shows e eventos em casas noturnas de Cuiabá.

Na Operação Arinos Sujo, policiais penais de Juara a 677 km de Cuiabá, foram flagrados obtendo vantagens financeiras em troca de facilidades para detentos. A investigação revelou que advogados locais serviam como intermediários para receber e lavar o dinheiro do esquema.

Mais recentemente, a Operação Fantasma II identificou o envolvimento de um servidor público do sistema penitenciário na entrada de celulares no presídio Dr. Osvaldo Florentino Leite Ferreira. O esquema incluía tráfico de drogas e lavagem de dinheiro através de empresas de fachada em Sinop, a 480 km de Cuiabá.

"A lei é para todos e com muito mais rigor deve atingir aqueles que abusam da função pública", destacou o Ministério Público em nota sobre uma das operações contra policiais corruptos.

Tolerância Zero

Lançado em novembro de 2024, o programa "Tolerância Zero contra as Facções Criminosas" é apresentado pelo governo do Estado como um sucesso. Os números oficiais mostram redução de 30% nos homicídios dolosos e aumento de 166% nas apreensões de drogas no primeiro semestre de 2025.

Contudo, uma análise mais profunda revela contradições. Enquanto o governo celebra a queda de 41% nos homicídios em uma década, críticos apontam que Mato Grosso teve "um aumento de 18% na taxa de violência em 2024, o maior crescimento do Brasil", segundo dados do Ministério da Justiça.

A taxa nacional de homicídios dolosos foi de 16,77 casos para cada 100 mil habitantes, enquanto em Mato Grosso chegou a 22,31. Além disso, 53 municípios mato-grossenses tiveram aumento no número de homicídios dolosos no ano passado. 

Violência contra a Mulher

Mato Grosso ostenta a triste marca de liderar as estatísticas de feminicídio no país, com 2,5 mortes para cada grupo de 100 mil mulheres. Em 2024, foram registradas 99 mortes de mulheres por violência, sendo 47 feminicídios e 52 homicídios dolosos.

O Ligue 180 registrou um aumento de 113,48% nas denúncias em Mato Grosso em 2024, totalizando 1.093 casos. Destes, 587 ocorreram na casa da própria vítima, evidenciando que o lar continua sendo o local mais perigoso para as mulheres mato-grossenses.

Dados do Ministério Público estadual revelam que a maioria dos feminicídios ocorre no período noturno, expondo uma contradição grave: enquanto a violência letal contra mulheres se concentra justamente nos horários em que muitos serviços especializados operam com capacidade reduzida ou estão fechados, comprometendo o atendimento de emergência quando as mulheres mais precisam de proteção.

Em Várzea Grande, por exemplo, a Delegacia da Mulher e a Patrulha Maria da Penha da Polícia Militar, funcionam em horário comercial, de segunda a sexta-feira.

Rota do narcotráfico

A posição estratégica de Mato Grosso na fronteira com Bolívia e Peru faz do Estado uma das principais rotas do narcotráfico sul-americano. A extensa faixa de fronteira marcada pelo Rio Guaporé, as pistas de pouso clandestinas e a densa rede rodoviária facilitam o transporte de entorpecentes.

As facções exploram não apenas o tráfico de drogas, mas também a extração ilegal de ouro e cassiterita, atuando como "seguranças" em garimpos ilegais. Esta diversificação criminal fortalece economicamente as organizações e amplia sua capacidade de corrupção.

Diante deste cenário, autoridades reconhecem a gravidade da situação. A deputada estadual Janaina Riva apresentou um projeto de lei para criar mecanismos permanentes de proteção a autoridades ameaçadas pelo crime organizado, após órgãos de inteligência identificarem uma lista de autoridades marcadas para execução pelo PCC.

O diagnóstico produzido pela Agência Brasileira de Inteligência sobre o crime organizado prisional em Mato Grosso busca fornecer "consciência situacional" para autoridades elaborarem políticas públicas mais eficazes.

Enquanto isso, a população mato-grossense permanece refém de uma violência que, segundo críticos, tem sido mais combatida nos números do que nas ruas. O paradoxo entre os dados oficiais de redução da criminalidade e a expansão territorial das facções expõe um sistema de segurança pública em crise, onde a corrupção interna e a sofisticação criminal desafiam as estratégias tradicionais de enfrentamento.

*Esta reportagem foi baseada em dados oficiais de órgãos de segurança pública, relatórios de institutos de pesquisa, operações policiais e informações de tribunais de justiça, revelando as contradições entre o discurso oficial e a realidade da violência em Mato Grosso.

BALANÇO DO GOVERNO DE MT

O governador Mauro Mendes e os secretários de Segurança Pública, coronel PM César Roveri, e de Justiça, Vitor Hugo Bruzulato, apresentaram o balanço de sete meses do programa Tolerância Zero contra as facções criminosas, no dia 16 de julho deste ano, no Palácio Paiaguás.
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