Sábado, 19 de setembro de 2026

De empregada doméstica a doutora em Educação: a trajetória da capixaba que se formou na Ufes

Filha de uma trabalhadora doméstica, pesquisadora foi a primeira pessoa da família a chegar ao ensino superior e hoje inspira outras mulheres

De empregada doméstica a doutora em Educação: a trajetória da capixaba que se formou na Ufes

Durante boa parte da vida, a universidade parecia pertencer a um mundo distante para Claudiana Raymundo dos Anjos. Filha de uma empregada doméstica e criada em uma região periférica de Vitória, ela seguiu o caminho de muitas mulheres da família: depois do ensino médio, trabalhou como babá e, mais tarde, como empregada doméstica.

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Aos 41 anos, porém, ela acaba de chegar a um lugar que um dia pareceu impossível: nesta semana, defendeu sua tese de doutorado em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), pesquisa que a levou três vezes ao México.

A conquista representa mais do que um título acadêmico. Claudiana é a primeira pessoa da família a ingressar no ensino superior e, ao longo de sua trajetória, abriu uma porta que outras mulheres passaram a atravessar. Hoje, uma prima está perto de concluir Medicina na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), enquanto outra cursa Medicina Veterinária em uma universidade federal.

Eu sou a primeira pessoa da família a ter um ensino superior. Não digo nem o doutorado, porque isso é um nível mais alto, mas eu sou a primeira pessoa da família a ter um ensino superior. Então, isso pra mim também é muito significativo.

Claudiana Raymundo dos Anjos, pesquisadora

Da periferia à universidade

Claudiana nasceu em Vitória e passou a infância no bairro Resistência, na região da Grande São Pedro. Foi ali que começou a estudar em uma escola pública do bairro. Ainda nos primeiros anos do ensino fundamental, uma professora percebeu seu potencial e sugeriu que a mãe a matriculasse em outra escola.

A mãe ouviu o conselho e Claudiana passou a estudar na Escola Marieta Escobar, em Santa Martha, onde cursou o ensino fundamental. Depois, fez o ensino médio em uma escola da rede estadual. Até então, porém, a ideia de cursar uma faculdade não fazia parte de seus planos.

Moradora de uma região periférica e sem condições financeiras para pagar uma instituição particular, ela não enxergava a universidade como uma possibilidade concreta. Ao terminar o ensino médio, seguiu o caminho de muitas colegas e começou a trabalhar.

Assim que eu terminei, como todas as meninas da minha sala naquele período, eu fui trabalhar. Comecei como babá, numa casa de família. Dois anos depois, fui trabalhar numa outra casa de família, como empregada doméstica. Então, ali naquela casa, eu comecei trabalhando como empregada doméstica, seguindo a trajetória de boa parte das mulheres da minha família.

Claudiana Raymundo dos Anjos, pesquisadora

Segundo ela, essa também era a profissão exercida por sua mãe e por outras mulheres da família. Por isso, sua trajetória profissional, até então, parecia seguir um curso natural, pré-estabelecido para ela.

Até que alguma coisa mudou.

Claudiana Raymundo dos Anjos cursou o ensino fundamental e o ensino médio em escolas públicas e já foi empregada doméstica. Ela acaba de concluir o doutorado em Educação pela Ufes. Foto: arquivo pessoal.

O primeiro passo

O rumo começou a mudar quando amigas da igreja perceberam o potencial de Claudiana e passaram a incentivá-la a tentar uma vaga na Ufes. Duas dessas amigas a matricularam em um pré-vestibular comunitário, o Atitude, que funcionava em Goiabeiras.

A rotina era pesada. Claudiana trabalhava durante todo o dia e estudava à noite. Saía de casa por volta das 6h30 e só retornava perto da meia-noite. Em 2008, fez sua primeira tentativa de entrar na Ufes, para Pedagogia, e ficou a seis décimos da aprovação.

Quando vi que ficaram faltando seis décimos, eu comecei a perceber que entrar na universidade era uma realidade possível pra mim. Então, aí a partir disso, no ano seguinte, eu já iniciei, em fevereiro, já estudando com a mesma rotina, focada em passar no vestibular.

Claudiana Raymundo dos Anjos, pesquisadora

No ano seguinte, ela tentou novamente. Desta vez, escolheu o curso de Artes e conseguiu a aprovação. Em agosto de 2010, aos 26 anos, entrou na Ufes. Para conseguir se manter durante a graduação, decidiu guardar dinheiro antes de começar, já que o curso era integral e não permitiria que continuasse trabalhando.

A mãe e o padrasto também foram fundamentais naquele momento, oferecendo apoio financeiro e emocional para que ela pudesse deixar o emprego e estudar.

A descoberta da pesquisa

Poucos meses depois de entrar na universidade, Claudiana conseguiu uma bolsa no Programa de Educação Tutorial (PET). A experiência mudou sua relação com a academia e despertou um interesse que ela ainda não imaginava ter: a pesquisa.

Em 2015, concluiu a graduação e começou a trabalhar como professora de Arte na rede estadual, por meio de contrato temporário. Ao mesmo tempo, continuou envolvida com grupos de pesquisa da Ufes.

Foi nesse período que se aproximou da área que se tornaria sua especialidade: a educação especial. No Trabalho de Conclusão de Curso, pesquisou a relação entre o ensino de Arte e estudantes com deficiência visual.

“Na graduação me aproximei de um grupo que tratava diretamente de educação especial. No meu TCC, trabalhei essa interface entre a educação especial e o ensino de Arte, tentando entender a prática pedagógica de professores de Arte com estudantes com deficiência visual. No mestrado, continuei com o mesmo tema e passei a analisar a prática pedagógica de uma professora de Arte com estudantes com deficiência visual”, detalhou.

Claudiana iniciou o mestrado em Educação em 2018 e seguiu pesquisando sobre educação especial.

Entre a pesquisa e uma pandemia, a maternidade

A pesquisadora concluiu o mestrado em 2020, justamente quando a pandemia de Covid-19 interrompeu a rotina das escolas. Sem conseguir um novo contrato como professora, ela também descobriu que estava grávida. A combinação das duas situações trouxe incertezas para uma pesquisadora que já planejava seguir para o doutorado.

Sem a renda do trabalho e já sem a bolsa do mestrado, encontrou uma alternativa dentro da própria casa. Passou a alfabetizar crianças do bairro e chegou a atender cerca de dez alunos, em horários diferentes, durante o fim daquele ano.

Foi um pouco desesperador, porque eu era bolsista, não estava trabalhando, então quando você encerra o mestrado ou doutorado, encerra também a sua bolsa. E aí eu falei, e agora, o que eu vou fazer?

Claudiana Raymundo dos Anjos, pesquisadora

Em 2021, com a retomada das atividades escolares, voltou a trabalhar como professora de Arte e de educação especial nos municípios de Serra e Vitória. No mesmo ano, surgiu outra oportunidade: o processo seletivo para o doutorado da Ufes.

Ela foi aprovada e começou o doutorado em 2022. Inicialmente, precisou conciliar os estudos com o trabalho. Depois, conseguiu uma bolsa de pesquisa e passou a se dedicar integralmente à formação.

A tese tratou da formação continuada de professoras da educação especial em uma pesquisa comparativa entre Brasil e México. O trabalho levou Claudiana três vezes ao país para realizar a pesquisa. Em uma das viagens, permaneceu 20 dias; em outra, 15.

Durante o doutorado, ela também atuou como professora substituta da Ufes por três semestres.

Claudiana Raymundo dos Anjos viajou três vezes para o México durante sua pesquisa de doutorado. Foto: arquivo pessoal
Uma conquista feita a muitas mãos

Por trás dos diplomas, das pesquisas e das viagens, Claudiana identifica uma presença constante: a rede de apoio. O marido, que também tem doutorado, a mãe, o padrasto e outros familiares ajudaram a tornar possível uma rotina que envolvia trabalho, universidade, pesquisa e maternidade.

Com um filho pequeno, as viagens para o México e as longas jornadas na universidade só foram possíveis porque outras pessoas estavam por perto para ajudar.

“Eu não seria a Claudiana, doutora hoje, se não tivesse essas outras pessoas para me apoiar, para me dar esse apoio não só emocional, mas esse apoio físico também”, afirmou.

Ela conta que, durante boa parte do doutorado, praticamente morava na universidade. Utilizava uma sala disponibilizada pelo orientador para estudar e desenvolver a pesquisa, enquanto a família ajudava nos cuidados com o filho.

A experiência também transformou sua condição financeira. Claudiana diz que a formação acadêmica proporcionou uma mudança significativa em sua vida profissional e social.

Christiano (marido), José Miguel (filho), Ana (mãe) e Roberto (padrasto) formam a rede de apoio que ajudou Claudiana Raymundo dos Anjos a concluir o doutorado. Foto: arquivo pessoal
Um caminho que continua

A distância entre a mulher que saía de casa antes das 7h para trabalhar como empregada doméstica e a pesquisadora que acaba de defender o doutorado é grande. Mas, para Claudiana, a transformação não está apenas no cargo ou no salário.

Ela afirma que a educação mudou também a maneira como passou a enxergar a si mesma e as possibilidades para sua própria vida. E acredita que sua história pode ajudar outras meninas que, como ela no passado, não conseguem imaginar um lugar dentro de uma universidade pública.

Eu acho que a minha história pode contribuir também para mudar a vida de muitas meninas que vivem na mesma realidade que eu e também não acham que ingressar no ensino superior, ensino superior público, é possível.

Claudiana Raymundo dos Anjos, pesquisadora

Dentro da própria família, essa mudança já pode ser vista. A prima que cursa Medicina na Ufop diz que Claudiana foi sua inspiração. Outra prima seguiu para a Medicina Veterinária em uma universidade federal. Mais do que chegar primeiro, Claudiana parece ter deixado uma porta aberta atrás de si. E outras mulheres da família já começaram a passar por ela.

“Eu acho que a minha trajetória tem contribuído para esse movimento de transformação, para as novas gerações de mulheres da minha família, sem dúvida nenhuma”, afirmou.

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