Domingo, 20 de setembro de 2026

Equipe liderada por professor da PUCRS descobre nova espécie de felino selvagem nas florestas da Bolívia

Estudo publicado na Current Biology apresenta a primeira descrição de uma nova espécie de felino vivo em mais de 100 anos

Equipe liderada por professor da PUCRS descobre nova espécie de felino selvagem nas florestas da Bolívia

Uma nova espécie de felino selvagem foi identificada nas florestas montanhosas da Bolívia, na região conhecida como Yungas, por uma equipe internacional de cientistas liderada pelo professor da Escola de Ciências da Saúde e da Vida da PUCRS Eduardo Eizirik. Batizado de Leopardus tilcayo, o animal é a primeira espécie de felino atual, ou seja, não fóssil, descrita formalmente pela ciência em mais de um século

Além da nova espécie boliviana, o estudo identificou uma nova subespécie de felino nas Yungas do Peru, denominada Leopardus tigrinus antisuyo. Os resultados revelaram ainda uma relação evolutiva inesperada entre os animais: embora sejam encontrados em regiões próximas e pertençam ao mesmo grupo, os dois novos felinos não são os parentes mais próximos entre si. Eles ocupam posições distintas na complexa árvore evolutiva dos gatos selvagens da América do Sul. 

Publicado na revista científica Current Biology, o trabalho também traz uma nova compreensão sobre a diversidade de um grupo de gatos-do-mato conhecido em inglês como “tiger cats”. Até recentemente considerado uma única espécie, esse conjunto de felinos selvagens sul-americanos é, na realidade, composto por cinco espécies diferentes, sendo uma delas dividida em duas subespécies. 

Segundo Eduardo Eizirik, coordenador do estudo, os gatos-do-mato analisados podem ser classificados como espécies crípticas, conceito utilizado pela ciência para designar animais de aparência muito semelhante, mas que apresentam diferenças genéticas e trajetórias evolutivas independentes. 

“Essa semelhança visual fez com que diferentes espécies fossem, durante muito tempo, confundidas e classificadas como uma só”, afirma. 

A conclusão foi possível graças ao sequenciamento e à análise de genomas completos de 38 indivíduos provenientes de diferentes regiões da América do Sul. Entre os materiais analisados estavam oito exemplares históricos mantidos em museus da Europa e dos Estados Unidos. 

A utilização dessas coleções científicas foi essencial para recuperar informações sobre a história evolutiva dos felinos, inclusive de populações que atualmente são pouco observadas na natureza. Entre elas está a população do Escudo das Guianas, região onde a espécie Leopardus tigrinus foi originalmente descrita e para a qual o estudo obteve os primeiros dados genéticos da população-tipo. 

Como a nova espécie de felino foi identificada

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Foto: Julie Van Collie

Para reconstruir a história evolutiva do grupo, os pesquisadores reuniram dados de genomas obtidos de animais atuais e de exemplares conservados em museus. Essa combinação de técnicas integra uma abordagem conhecida como “museômica”. 

O método possibilitou acessar informações genéticas de populações que hoje são pouco encontradas na natureza e que também estão representadas por poucos exemplares nas coleções científicas. Dessa forma, materiais históricos contribuíram para preencher lacunas importantes no conhecimento sobre a diversidade desses felinos. 

Os resultados também ajudaram a solucionar uma questão antiga relacionada à classificação do grupo. Os gatos-do-mato foram originalmente descritos no Século 18 a partir de animais encontrados no Escudo das Guianas. Atualmente, porém, são raramente avistados naquela região. 

A análise genômica demonstrou que a semelhança física entre esses animais não corresponde necessariamente a uma história evolutiva recente compartilhada. As diferentes espécies, na verdade, percorreram trajetórias independentes ao longo de sua evolução. 

Nas Yungas da Bolívia, a nova espécie recebeu o nome Leopardus tilcayo, em referência à denominação utilizada pelas comunidades locais para o felino. No Peru, a nova subespécie foi denominada Leopardus tigrinus antisuyo. O nome “antisuyo” remete a uma das regiões do antigo Império Inca, que abrangia a área onde o animal é encontrado. 

“Tigrino” e a descoberta de Leopardus tilcayo 

A identificação de Leopardus tilcayo teve como ponto de partida um animal conhecido pelo apelido de “Tigrino”. Acreditava-se que o felino fosse um exemplar de Leopardus tigrinus

O macho foi encontrado ainda filhote, em 2016, por um morador da região de Nor Yungas, na Bolívia. Posteriormente, foi levado ao refúgio de animais La Senda Verde, onde permaneceu. 

Foi a partir da análise genética realizada pelos pesquisadores que surgiu a descoberta. Os resultados mostraram que o animal não pertencia à espécie que se imaginava, mas fazia parte de uma linhagem evolutivamente distinta que, até então, não havia sido reconhecida pela ciência. 

O “Tigrino”, como ficou conhecido durante parte de sua história, passou então a ocupar um papel central na descrição da nova espécie. O animal tornou-se o holótipo de Leopardus tilcayo, isto é, o exemplar que representa oficialmente a espécie em sua descrição científica. 

O que a descoberta revela sobre os gatos selvagens

A identificação das novas espécies não apenas amplia o conhecimento sobre a evolução dos felinos da América do Sul, mas também traz implicações para a conservação desses animais. 

Entre as ameaças enfrentadas pelos felinos estão a perda e a fragmentação de habitats, a caça e a transmissão de doenças por animais domésticos. Algumas populações também ocupam ambientes especialmente vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas. 

As análises genômicas realizadas no estudo indicam que algumas das espécies apresentam baixa diversidade genética. Essa condição pode reduzir a capacidade dos animais de responder e se adaptar a alterações ambientais que ocorram de maneira rápida. 

A partir da constatação de que o grupo é formado por cinco espécies distintas, os pesquisadores destacam a necessidade de que as ações de conservação levem em conta as particularidades de cada uma delas. O que anteriormente era considerado uma única espécie com ampla distribuição geográfica passa a ser compreendido como um conjunto de espécies que possuem distribuições, características e necessidades de conservação próprias. 

“Este é um estudo que evidencia o quanto ainda há para se descobrir sobre a biodiversidade do planeta. Mesmo entre animais carismáticos e conhecidos como os felinos, espécies podem permanecer desconhecidas durante séculos. Descobrir e entender estas espécies é vital para que também saibamos como protegê-las”, diz Eizirik. 

A pesquisa reuniu cientistas da PUCRS e de instituições parceiras do Brasil, Bolívia, Peru, Bélgica, Colômbia, Estados Unidos e Reino Unido. O artigo “Phylogenomics and museomics reveal five distinct species of tiger cats in South America” foi publicado na revista Current Biology

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