Quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Facção cria 'caixinha' e extorque mais de 50 comerciantes em MT

Polícia diz que grupo mantinha cobranças periódicas de estabelecimentos de Pedra Preta, sob ameaça de represálias

Facção cria 'caixinha' e extorque mais de 50 comerciantes em MT

Mais de 50 estabelecimentos comerciais de Pedra Preta (238 km ao Sul de Cuiabá) estavam na mira de um esquema de cobrança de dinheiro atribuído a uma facção criminosa que atua em Mato Grosso.

De acordo com o Mapa da Violência, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Comando Vermelho é a facção atuante na cidade.

Segundo a Polícia Civil, comerciantes eram obrigados a fazer pagamentos periódicos, sob ameaça de represálias.

Dentro da própria organização, o sistema de arrecadação teria recebido os nomes de “Projeto Caixinha” e “Projeto Central”.

O esquema foi identificado durante a investigação que resultou na Operação Basalto, deflagrada nesta terça-feira (8).

A apuração encontrou documentos, planilhas, diálogos, listas de estabelecimentos, valores individualizados e comprovantes de transferências bancárias relacionados às cobranças.

A descoberta revela uma estrutura que, segundo a investigação, ia além da venda de drogas.

O grupo teria organizado um sistema próprio de arrecadação sobre atividades comerciais da cidade, estabelecendo cobranças e utilizando a ameaça de represálias para obter os pagamentos.

A Polícia Civil ainda não informou publicamente quanto cada comerciante era obrigado a pagar, qual era a periodicidade das cobranças nem o montante total que teria sido arrecadado pelo esquema.

Também não foi detalhado quantos dos mais de 50 estabelecimentos relacionados nos documentos chegaram efetivamente a transferir dinheiro para o grupo.

Esses pontos deverão ser aprofundados a partir do material apreendido e das diligências realizadas nesta terça-feira.

DINHEIRO PASSAVA POR TERCEIROS - A investigação também começou a reconstruir o caminho percorrido pelo dinheiro.

De acordo com a Polícia Civil, contas bancárias pertencentes a terceiros e uma empresa teriam sido utilizadas para receber e movimentar recursos supostamente provenientes, tanto do tráfico de drogas quanto das extorsões praticadas contra comerciantes.

A Justiça determinou o bloqueio de ativos financeiros relacionados a três pessoas e a uma empresa.

O empreendimento também teve as atividades econômicas e financeiras suspensas, por suspeita de participação na movimentação e ocultação do dinheiro de origem criminosa.

A investigação ainda deverá estabelecer quanto passou por essas contas, quem eram seus titulares, qual seria a participação de cada envolvido e qual parcela dos recursos teria origem nas cobranças feitas aos comerciantes.

O uso de terceiros e de uma empresa para movimentar os valores é uma das frentes que sustentam a investigação por lavagem de dinheiro.

CELULAR REVELOU ESTRUTURA - A apuração que chegou ao esquema começou em fevereiro de 2025, depois de uma prisão em flagrante por tráfico de drogas, em Pedra Preta.

A partir daquele caso, a Polícia Civil conseguiu autorização judicial para acessar dados de um celular apreendido.

A extração resultou em aproximadamente 15,7 gigabytes de informações, incluindo mensagens, áudios, fotografias, comprovantes de transferências bancárias e planilhas.

A análise desse conteúdo permitiu aos investigadores identificar o que a Polícia Civil descreve como uma estrutura organizada e hierarquizada, com divisão de tarefas.

Segundo a investigação, havia integrantes exercendo funções de liderança, gerência local, operação financeira e distribuição de drogas.

Outros seriam responsáveis, inclusive, por acompanhar a atuação das forças de segurança.

Parte das ordens, ainda conforme a Polícia Civil, era transmitida de dentro de unidades prisionais por celulares usados clandestinamente.

Grupos de comunicação serviriam para administrar as atividades criminosas, controlar valores, prestar contas e transmitir orientações.

Dessa forma, a investigação passou de um flagrante individual de tráfico para a identificação de uma estrutura que, segundo a polícia, articulava tráfico, extorsão e lavagem de dinheiro, com atuação dentro e fora dos presídios.

34 MANDADOS - A Operação Basalto foi deflagrada para atingir integrantes dessa estrutura.

Foram expedidos 34 mandados judiciais, dos quais 12 de prisão preventiva e 22 de busca e apreensão.

As ordens são cumpridas em Pedra Preta, Rondonópolis, Itiquira e Cuiabá, além de unidades prisionais de Mato Grosso.

A Justiça ainda impôs medidas cautelares contra outros oito investigados.

O delegado Fabrício Garcia Henriques, responsável pela investigação, informou que o material recolhido na operação será analisado para identificar outros possíveis envolvidos e aprofundar a apuração.

Uma das questões que permanecem em aberto é justamente a dimensão alcançada pelo sistema de cobrança sobre o comércio.

Além do valor total movimentado, a investigação deverá esclarecer há quanto tempo funcionava a “caixinha”, quais setores comerciais eram atingidos, como os valores eram definidos e que tipo de represália era imposta ou prometida aos empresários que se recusassem a pagar.

Também não foi informado, até agora, se comerciantes chegaram a fechar estabelecimentos, abandonar atividades ou deixar Pedra Preta em razão das ameaças.

A Operação Basalto é conduzida pela Delegacia de Polícia de Pedra Preta.

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