Mais de 50 estabelecimentos comerciais de Pedra Preta (238 km ao Sul de Cuiabá) estavam na mira de um esquema de cobrança de dinheiro atribuído a uma facção criminosa que atua em Mato Grosso.
De acordo com o Mapa da Violência, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Comando Vermelho é a facção atuante na cidade.
Segundo a Polícia Civil, comerciantes eram obrigados a fazer pagamentos periódicos, sob ameaça de represálias.
Dentro da própria organização, o sistema de arrecadação teria recebido os nomes de “Projeto Caixinha” e “Projeto Central”.
O esquema foi identificado durante a investigação que resultou na Operação Basalto, deflagrada nesta terça-feira (8).
A apuração encontrou documentos, planilhas, diálogos, listas de estabelecimentos, valores individualizados e comprovantes de transferências bancárias relacionados às cobranças.
A descoberta revela uma estrutura que, segundo a investigação, ia além da venda de drogas.
O grupo teria organizado um sistema próprio de arrecadação sobre atividades comerciais da cidade, estabelecendo cobranças e utilizando a ameaça de represálias para obter os pagamentos.
A Polícia Civil ainda não informou publicamente quanto cada comerciante era obrigado a pagar, qual era a periodicidade das cobranças nem o montante total que teria sido arrecadado pelo esquema.
Também não foi detalhado quantos dos mais de 50 estabelecimentos relacionados nos documentos chegaram efetivamente a transferir dinheiro para o grupo.
Esses pontos deverão ser aprofundados a partir do material apreendido e das diligências realizadas nesta terça-feira.
DINHEIRO PASSAVA POR TERCEIROS - A investigação também começou a reconstruir o caminho percorrido pelo dinheiro.
De acordo com a Polícia Civil, contas bancárias pertencentes a terceiros e uma empresa teriam sido utilizadas para receber e movimentar recursos supostamente provenientes, tanto do tráfico de drogas quanto das extorsões praticadas contra comerciantes.
A Justiça determinou o bloqueio de ativos financeiros relacionados a três pessoas e a uma empresa.
O empreendimento também teve as atividades econômicas e financeiras suspensas, por suspeita de participação na movimentação e ocultação do dinheiro de origem criminosa.
A investigação ainda deverá estabelecer quanto passou por essas contas, quem eram seus titulares, qual seria a participação de cada envolvido e qual parcela dos recursos teria origem nas cobranças feitas aos comerciantes.
O uso de terceiros e de uma empresa para movimentar os valores é uma das frentes que sustentam a investigação por lavagem de dinheiro.
CELULAR REVELOU ESTRUTURA - A apuração que chegou ao esquema começou em fevereiro de 2025, depois de uma prisão em flagrante por tráfico de drogas, em Pedra Preta.
A partir daquele caso, a Polícia Civil conseguiu autorização judicial para acessar dados de um celular apreendido.
A extração resultou em aproximadamente 15,7 gigabytes de informações, incluindo mensagens, áudios, fotografias, comprovantes de transferências bancárias e planilhas.
A análise desse conteúdo permitiu aos investigadores identificar o que a Polícia Civil descreve como uma estrutura organizada e hierarquizada, com divisão de tarefas.
Segundo a investigação, havia integrantes exercendo funções de liderança, gerência local, operação financeira e distribuição de drogas.
Outros seriam responsáveis, inclusive, por acompanhar a atuação das forças de segurança.
Parte das ordens, ainda conforme a Polícia Civil, era transmitida de dentro de unidades prisionais por celulares usados clandestinamente.
Grupos de comunicação serviriam para administrar as atividades criminosas, controlar valores, prestar contas e transmitir orientações.
Dessa forma, a investigação passou de um flagrante individual de tráfico para a identificação de uma estrutura que, segundo a polícia, articulava tráfico, extorsão e lavagem de dinheiro, com atuação dentro e fora dos presídios.
34 MANDADOS - A Operação Basalto foi deflagrada para atingir integrantes dessa estrutura.
Foram expedidos 34 mandados judiciais, dos quais 12 de prisão preventiva e 22 de busca e apreensão.
As ordens são cumpridas em Pedra Preta, Rondonópolis, Itiquira e Cuiabá, além de unidades prisionais de Mato Grosso.
A Justiça ainda impôs medidas cautelares contra outros oito investigados.
O delegado Fabrício Garcia Henriques, responsável pela investigação, informou que o material recolhido na operação será analisado para identificar outros possíveis envolvidos e aprofundar a apuração.
Uma das questões que permanecem em aberto é justamente a dimensão alcançada pelo sistema de cobrança sobre o comércio.
Além do valor total movimentado, a investigação deverá esclarecer há quanto tempo funcionava a “caixinha”, quais setores comerciais eram atingidos, como os valores eram definidos e que tipo de represália era imposta ou prometida aos empresários que se recusassem a pagar.
Também não foi informado, até agora, se comerciantes chegaram a fechar estabelecimentos, abandonar atividades ou deixar Pedra Preta em razão das ameaças.
A Operação Basalto é conduzida pela Delegacia de Polícia de Pedra Preta.


