O sequestro de uma jovem de 22 anos, em Marcelândia (710 km ao Norte de Cuiabá), expôs uma forma de atuação de facção criminosa que vai além da prática de crimes convencionais.
Segundo relato da vítima à Polícia Militar, integrantes da organização criminosa estariam impondo cobranças e punições próprias para resolver conflitos entre moradores.
Seria uma espécie de sistema paralelo de disciplina, conhecido no meio criminoso como “tribunal do crime”.
A jovem foi resgatada na noite de domingo (6), depois de ser retirada à força de um bar e colocada em um veículo com três suspeitos.
Conforme o relato registrado pela Polícia, ela seria submetida a um “salve” (expressão utilizada para punições determinadas por integrantes de organizações criminosas).
O caso ganhou uma dimensão diferente porque a própria vítima contou que a intervenção da facção não teria começado naquele domingo.
Durante a semana, segundo ela, criminosos já haviam exigido o pagamento de cestas básicas, para que não fosse submetida a outra punição: capinar terrenos.
O relato indica, portanto, que o grupo não estaria agindo apenas para sequestrar ou ameaçar a jovem.
Os criminosos teriam estabelecido formas de cobrança e castigo para disciplinar comportamentos considerados inadequados pela própria organização.
Segundo as informações disponíveis até agora, o conflito teria começado após um desentendimento entre a jovem e a mulher de um proprietário de estabelecimento comercial.
A partir daí, integrantes da facção teriam passado a interferir na disputa.
No domingo, a vítima relatou ter sido sequestrada no “Bar da Fernandinha”.
Ela teria sido levada, inicialmente, para uma chácara, onde sofreu ameaças de morte.
Os suspeitos também teriam realizado uma chamada de vídeo para que a jovem prestasse esclarecimentos sobre o desentendimento.
Depois disso, ela seria transportada para outro local.
A informação sobre a chamada de vídeo é um dos pontos que deverão ser esclarecidos pela investigação.
Ainda não há informação, no material disponível, sobre quem estava do outro lado da ligação nem se a decisão sobre a punição teria partido dos três homens que estavam com a vítima ou de outra pessoa ligada à organização criminosa.
RESGATE ACONTECEU APÓS ABORDAGEM - A jovem foi encontrada por policiais militares da 5ª Companhia Independente, durante patrulhamento na região conhecida como Setor de Chácaras Cachoeirinha, na zona rural de Marcelândia.
Os militares perceberam um Corsa Sedan trafegando em alta velocidade.
Houve uma breve perseguição até que o automóvel fosse abordado. Dentro dele, estavam três suspeitos e a jovem.
Ao perceber a presença dos policiais, ela começou a pedir socorro.
Conforme o registro da ocorrência, estava bastante nervosa, chorava e dizia estar com medo de morrer.
Os três homens, de 21, 25 e 36 anos, foram presos.
Durante buscas realizadas nas proximidades do trajeto percorrido pelo automóvel, os policiais encontraram ainda um telefone celular, que teria sido descartado pelos suspeitos.
O aparelho poderá ajudar a esclarecer os contatos realizados pelo grupo e a dinâmica do sequestro.
CARRO USADO POR FACÇÃO - Outro elemento que pode ampliar a investigação é justamente o Corsa Sedan, utilizado para transportar a vítima.
De acordo com a Polícia Militar, as equipes identificaram que o veículo já teria sido utilizado em outras ações criminosas, no município, por integrantes de facção.
A informação poderá indicar se o episódio de domingo foi uma ação isolada dos três suspeitos, ou se o automóvel fazia parte de uma estrutura utilizada pelo grupo para executar outras determinações.
O caso também deverá esclarecer qual organização criminosa é apontada como responsável.
O material disponível não identifica a facção à qual os suspeitos pertenceriam.
Segundo o Mapa da Violência, a facção dominante na região de Marcelândia é o Comando Vermelho (CV).
Também permanece sem resposta quem teria determinado o “salve”, quem participou da chamada de vídeo e qual seria exatamente a punição preparada para a jovem caso ela chegasse ao destino pretendido pelos sequestradores.
COBRANÇA E PUNIÇÃO - O relato sobre a entrega de cestas básicas acrescenta outro componente à investigação.
Segundo a vítima, ela já havia sido obrigada a pagar cestas aos faccionados, para evitar que tivesse de capinar terrenos.
Ainda não está esclarecido para quem os alimentos foram entregues, qual foi a quantidade ou o valor exigido, qual destino tiveram as cestas e por que esse tipo de pagamento teria sido estabelecido.
Também deverá ser apurado o significado da punição de capinar terrenos: se seria trabalho imposto em benefício de terceiros, uma penalidade utilizada localmente pela organização ou outra forma de constrangimento.
Essas respostas serão importantes para determinar se há, em Marcelândia, uma estrutura organizada de aplicação de punições e cobranças por integrantes da facção.
Os três suspeitos foram encaminhados à delegacia.
A Polícia Civil deverá aprofundar a investigação sobre o sequestro, as ameaças e a atuação do grupo.


