Sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Grande maioria das entidades que descontaram de aposentados contratou operadores como o careca do INSS

CPMI DO INSS

Grande maioria das entidades que descontaram de aposentados contratou operadores como o careca do INSS
ReproduçãoFoto: Arquivo Colíder News
O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) identificou que 27 das 40 associações que
firmaram Acordos de Cooperação Técnica (ACTs) para descontos em benefícios
previdenciários contrataram operadores atualmente investigados pela Polícia Federal (PF)
e pela Controladoria-Geral da União (CGU). A descoberta consta em levantamento interno
realizado neste sábado (4).

Os documentos analisados pelo INSS mostram que estas entidades, que representam
quase o dobro das associações alvo da Operacao Sem Desconto de abril deste ano,
contrataram empresas pertencentes aos próprios dirigentes, firmas suspeitas de
falsificação de assinaturas e procurações para lobistas do esquema conhecido como
"Farra do INSS".

Em sete processos para estabelecimento de acordos com a autarquia previdenciária, foram
encontrados e-mails, procurações e solicitações assinadas por Antônio Carlos Camilo
Antunes, conhecido como Careca do INSS. Entre estes documentos está material entregue
mediante procuração assinada por Maria Inês Batista de Almeida, ex-presidente da
Associação de Beneficiários, Pensionistas e Aposentados do Brasil (Ambec).

A Ambec movimentou R$ 500 milhões com descontos de aposentados entre 2021 e abril
de 2025. Maria Inês, que trabalhava como faxineira para a Prevident, empresa de Maurício
Camisotti, faleceu em novembro de 2024. A PF identificou Camisotti como beneficiário final
de pelo menos três entidades envolvidas nas fraudes, tendo sido preso em setembro deste
ano junto com Antunes.

Em depoimento à CPMI do INSS, Antunes afirmou nunca ter mantido contato com
dirigentes da Ambec, Cebap e Unsbras, apenas com Camisotti. Segundo o lobista, o
empresário atuava como "representante" dessas associações.

Durante a pandemia, Antunes solicitou ao INSS, em nome da Ambec, autorização para
registrar filiações usando apenas assinaturas digitais. Posteriormente, a entidade enviou
fichas de filiação sem elementos de segurança que permitissem verificar a autenticidade
dos documentos.

Outras sete entidades apresentaram procurações e solicitações em nome de Antunes ou
demonstraram vínculos com seus sócios, incluindo a Keeper, Cebap, Unsbras, AP Brasil e
Asabasp. Nos contratos com as associações, Antunes recebia comissão de 27,5% sobre
cada nova filiação obtida por suas empresas.

Cecília Rodrigues Motta, também investigada por operar para entidades e realizar
pagamentos a dirigentes do INSS, aparece em documentos fornecidos pela Cenap Asa,
Keeper e AAPEN. Um desses registros mostra que Cecília e Igor Delecrode participaram de
uma reuniao por videoconferência com representantes da Diretoria de Benefícios do INSS
em novembro de 2024.

O escritório de Cecília recebeu R$ 14 milhões de associações envolvidas no esquema,
segundo a PF. Ela transferiu R$ 630 mil para empresas da esposa do ex-procurador-geral
do INSS, Virgilio de Oliveira Filho, e seu escritório de advocacia realizou transferências de
R$ 520 mil para Eric Fidelis, filho do ex-diretor de Benefícios do INSS André Fidelis.

A análise das procurações anexadas aos processos dos ACTs demonstra que o INSS
recebeu repetidamente os mesmos procuradores representando diferentes entidades. O
advogado Cecílio Galvão, que possui procuração da Unibap, mantém escritório em Recife,
mas recebeu procuração de uma aposentada residente em Taguatinga, no entorno do
Distrito Federal.

Os documentos revelam ainda que assinaturas digitais e dados biométricos das entidades
eram validados por empresas dos próprios dirigentes dessas associações. Igor Dias
Delecrode, com pouco mais de 30 anos e ex-dirigente de três associações, criou sites de
validação de assinatura pela empresa Power Bi Tech.

Os serviços de Delecrode foram contratados por oito entidades que movimentaram R$ 1,4
bilhão com os descontos em benefícios previdenciários. O Poder Judiciário tem
desconsiderado fichas de assinaturas dessas entidades por indícios de fraude. Em um
caso específico, a geolocalização indicava que um idoso teria se filiado a 580 quilômetros
de sua residência.

Anderson Ladeira, ex-gerente do banco BMG, fundou a AASPA em 2022 logo após deixar a
instituição financeira. Ele apresentou ao INSS fichas de filiação processadas pela
Dataqualify, empresa da qual é sócio.

Entre os investigados pela PF está Thiago Schettini, cuja empresa Pagglo aparece
contratada pela Keeper. A empresa Confia presta serviços à ANAPPS e ao Sindicato
Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi), que tem como vice-
presidente Frei Chico, irmão do presidente Lula. O Sindnapi realizou pagamentos
milionários a empresas de seus próprios dirigentes.
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