Sábado, 3 de outubro de 2026

HIV: Ativistas vão ao MPF após Igreja Universal defender 'cura da doença' com orações nas redes

Postagem sobre casal soropositivo foi vista como uma 'afronta à ciência' e 'ato criminoso'

HIV: Ativistas vão ao MPF após Igreja Universal defender 'cura da doença' com orações nas redes
Foto: Arquivo Colíder News

Uma postagem feita no perfil oficial da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) nas redes sociais vem causando revolta em ativistas pela conscientização da Aids.


Na publicação, a IURD afirma que um casal soropositivo abandonou o tratamento para o HIV e se curou após entrar para uma corrente de orações. O Fórum de ONG/Aids de São Paulo (Foaesp) protocolou uma denúncia sobre o caso junto ao Ministério Público Federal (MPF) para averiguar os crimes que podem ter sido cometidos.

Igreja Universal fez post com casal soropositivo que abandonou o tratamento e teria se curado com orações Foto: Reprodução
Igreja Universal fez post com casal soropositivo que abandonou o tratamento e teria se curado com orações Foto: Reprodução

Em nota,  a Igreja Universal nega que tenha propagado que curou, mas defende que a fé é elemento importante no tratamento de doenças. A postagem foi apagada das redes sociais da instituição religiosa na tarde desta quinta-feira.

Para Roseli Tardelli, diretora da Agência Aids, portal dedicado a notícias sobre a doença, o ato cometido pela IURD foi "um crime", "um desserviço" e "uma afronta à ciência".

— É uma irresponsabilidade. Um ato criminoso e irresponsável. Uma afronta à ciência. Um desserviço. Trabalho com Aids desde 1993, quando meu irmão se infectou. Sempre tratamos do tema com muita responsabilidade — afirmou. — Como ativista, me sinto absolutamente desrespeitada. Estão sendo parceiros da morte e não da vida .

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Ainda segundo ela, esse tipo de conteúdo numa rede social pode fazer com que pessoas que tenham dificuldade com os medicamentos ou não aceitem a doença abandonem o tratamento.

— Existem três casos de cura no mundo. A forma são ações com transplantes de medula. O resto é medicamento com tratamento multidisciplinar — frisou Tradelli.

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O poeta e ativista de direitos humanos Ramon Nunes Mello também classificou a postagem como criminosa:

— Prometer cura para a Aids através oração, colocando um casal como propaganda é crime. Estamos em 2022 e o estigma da Aids ainda permanece. A Igreja Universal deveria ser responsabilizada pelo Ministério Público por charlatanismo e curanderismo e ser obrigada a fazer palestra em prol de adesão ao tratamento de HIV/Aids, a única forma cientificamente comprovada de combater o vírus.

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Ele destacou que quando se depara com um caso como esse se sente como se estivesse voltando no tempo.

— Tenho a sensação de viver no início da epidemia, nos anos 80. Se alguém decidir parar de tomar medicação  para rezar, se responsabilize por sua saúde. O que não pode é uma instituição religiosa incentivar essa prática e prometer cura — disse.

O deputado federal e ex-ministro da Saúde, Alexandre Padilha (PT-SP), encaminhou o caso para o procurador Carlos Alberto Vilhena, da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC).

— Essa é uma atitude irresponsável, criminosa e anticristã. Já não basta o estigma em relação às pessoas que vivem com HIV, que infelizmente é reforçado por muitos falsos profetas, mentir descaradamente não pode ser admitido. Irei, como infectologista e como coordenador da frente parlamentar de enfrentamento a HIV Aids, buscar todas as medidas judiciais possíveis para não deixar isso se perpetuar — disse o deputado.

A postagem no perfil da Universal foi feita na última terça-feira. Nela, há duas fotos: de um casal, identificado como Manoel e Rosemeire, na praia,  e outra do homem deitado num leito hospitalar. O texto diz que os dois não aceitaram o tratamento e cita que "o tempo de milagres não acabou". E finaliza: "Você também precisa de uma cura que é impossível para a medicina? A sua fé pode fazer o milagre acontecer, participe da Corrente dos 70, em uma Universal mais próxima".

Condenação anterior

O incentivo para que as pessoas abandonem o tratamento contra o HIV não é inédito na Universal. Em 2015, a igreja foi condenada a indenizar em R$ 300 mil um fiel soropositivo que abandonou o tratamento, deixou de usar preservativos e acabou infectando sua esposa.

A Universal foi inicialmente condenada a indenizar o fiel em R$ 35 mil e alegou “ausência de imparcialidade por convicções religiosas” por parte da juíza Rosane Wanner. A reversão da sentença foi negada e ampliada em 760% devido aos danos causados à saúde da vítima.

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Em nota, a Igreja Universal do Reino de Deus disse que a postagem tratava de um "testemunho espontâneo de um casal, que anunciou ter sido curado de uma grave doença pela Fé". A instituição religiosa também afirmou que não fez qualquer alegação de ter curado o casal, pois "Igreja não cura", mas a "cura se dá pela Fé".

A Universal também alegou que estudos comprovam que a Fé ajuda na cura dos enfermos, em "uma combinação da Fé com a Medicina.

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